Certa vez, um amigo me disse, após ouvir atenta e empaticamente, as minhas lamúrias a respeito das parvidades da vida pública, que a política, definitivamente, não era um ambiente para pessoas de bem como eu. “Larga isso, não faz bem a pessoas de caráter, não lhe faz bem”. Um conselho assaz exagerado em meu entendimento. Discordei prontamente e ponderei a ele que a política, se exercida com dignidade e princípios, é uma nobilíssima missão humana, como muito bem destacou o filósofo Aristóteles (384-322 a.C.), um dos mais importantes filósofos de todos os tempos e o que mais influenciou a nossa sociedade.
O pensador estagirita dizia que, tanto a política quanto a ética (que estariam, segundo ele, num mesmo sistema), possuíam o mesmo objetivo: levar-nos para um caminho virtuoso a fim de alcançar a felicidade. Em que consistiria esse caminho? De acordo com Aristóteles, em seus escritos sobre ética, a verdadeira finalidade da vida humana se expressa no atingimento de uma “vida boa”. Para ele, ser feliz e ser útil à comunidade eram dois objetivos que se justapõem. Isto é, ambos estavam fortemente manifestos na atividade pública. O governo mais satisfatório, ponderava, seria "aquele em que cada um encontra o que necessita para ser feliz".
"Toda comunidade se forma com vistas a algum bem, pois todas as ações de todos os homens são praticadas com vistas ao que lhes parece um bem; se todas as comunidades visam a algum bem, é evidente que a mais importante de todas elas e que inclui todas as outras, tem mais que todas, este objetivo e visa ao mais importante de todos os bens; ela se chama cidade e é a comunidade política" (Pol., 1252a).
Aristóteles nos convoca para a vida pública, virtuosa, coletiva, almejando sempre a felicidade geral, o bem de toda a comunidade, o que também acarretaria, por óbvio, na felicidade individual. O bem comum consiste na ideia central do pensamento político de Aristóteles.
A prática da atividade política em nossos tempos, sobretudo no Brasil, não tem se aproximado do que apregoou o marcante pensador do século V antes de Cristo. Assistimos a tudo na política, menos a legítimos interesses coletivos, afastados da passionalidade doentia e do patrimonialismo enraizado em nossa cultura. Em poucas palavras, pode-se dizer que a política em nossos tempos é tóxica!
Ciro Gomes disse numa entrevista, salvo engano em 2015, que precisava de um tempo para se “desintoxicar da política”. Ficou um período afastado da cena pública brasileira, sem se candidatar a nada (voltou no ano passado quando se candidatou à presidência da república, acabando em terceiro lugar).
Ciro, um político calejado, que já foi prefeito de capital, ministro da Fazenda e da Integração Nacional, secretário de estado, governador e deputado sabe muito bem do que fala. Reconhece, pois, que a política não é um ambiente harmonioso e salutífero (tal qual idealizado por Aristóteles), onde os políticos se apropriem dos nobres propósitos aristotélicos da virtude, do bem comum e da ética. Pelo contrário, trata-se de uma arena tóxica, altamente peçonhenta e contaminada por desvirtudes de toda sorte.
Não quero dizer que todos as pessoas de caráter devem deixar a política. Muito pelo contrário, se o fazem, estarão entregando uma das mais nobres atividades humanas aos maliciosos. O que quero demonstrar cabalmente é que é impossível para alguém de bom caráter não sofrer (e muito) neste ambiente.
Tomemos dois exemplos: Quando ainda era prefeito, recebi um processo criminal ambiental por ter, teoricamente, mantido um “lixão” no município – para a minha grande surpresa, porque foi justamente em minha gestão que demos um fim ao incômodo lixão (que existiu por décadas em Itaguara), recuperamos a área, licitamos o serviço de coleta e o profissionalizamos repassando ao SAAE, tal como preconiza a lei 11.445 de 2007. Mas o Ministério Público não entendeu assim e me denunciou à Justiça. Tive de contratar advogado e ficar com esse peso em minha proba vida pública por um bom tempo. Alguns meses após a denúncia ofertada, conseguimos vencer na justiça e os desembargadores não acataram a ação proposta pelo MP.
O outro exemplo: um prefeito de uma cidade média de Minas Gerais foi preso numa operação midiática da Polícia Federal por, supostamente, ter desviado vultosos recursos públicos. Foram muitas manchetes de jornal, matérias de televisão e exposição de todo tipo (acho que o caso chegou até mesmo a ser transmitido no Jornal Nacional). Ficou uma semana detido. Depois reassumiu o cargo e até se candidatou à reeleição (foi corajoso, mas acabou perdendo nas urnas). Quase 10 anos depois dessa famigerada ação que arruinou a sua vida política e pessoal, o ex-prefeito foi absolvido. Sim, absolvido! Na verdade, ele não tinha qualquer envolvimento com os desvios que aconteceram no município. Após a absolvição, não vi uma nota sequer nos jornais, nem uma matéria de poucos segundos na TV. Ao encontrá-lo, outro dia nos corredores de um shopping, deparei-me com um homem completamente desolado e que ainda pensa em voltar a ocupar cargos públicos para, segundo ele, “lavar a sua honra”.
A grande verdade é que bons políticos, aqueles que não se deixam levar pela vaidade, pelo poder, pelo orgulho ou pelo dinheiro, são, lamentavelmente, minoritários. Mas eles existem e, inevitavelmente, sofrem muito na vida pública, por causa de generalizações impertinentes, ações propostas pelo MP sem a devida apuração prévia, infâmias de toda ordem e por não coadunarem com as práticas costumeiras do meio político. Conheço dezenas de políticos eficientes e honestos que abandonaram a vida pública por essas razões.
Então, qual seria a saída? Devemos, uma vez mais, recapitular Aristóteles que evidencia a importância da educação para engendrar o prolífico caminho para a vida pública. É papel da educação formar adequadamente o caráter do aluno. Ninguém nasce virtuoso, o filósofo destaca. É preciso aprender a virtude e praticá-la. Não há virtude sem o hábito, sem a prática diária, ou seja, o exercício virtuoso e sua formação precisam se dar em casa, na escola e em sociedade. Se, por um lado, constatamos que temos falhado sistematicamente enquanto sociedade na construção de uma política virtuosa, por outro, também é possível vislumbrar a saída: é pela educação, pela prática da virtude e pela vida comunitária que melhoraremos a prática política.
Uma das melhores analogias que encontrei é a do bombeiro. Esse profissional sabe que terá de enfrentar fumaça altamente danosa a seus pulmões, sabe que pode se queimar, sabe que pode até mesmo morrer, mas não deixa de entrar num prédio em chamas para salvar uma vida. A política é mais ou menos assim.
É bom lembrar que um bombeiro, após muito tempo neste trabalho árduo, precisa descansar, cuidar de seus pulmões e reabilitar a sua saúde física e mental antes de pensar em voltar a debelar labaredas. Após este tempo, pode ser que volte à ativa. Pode ser que não. Na vida, não há apenas escolhas, há contingências.
* Alisson Diego Batista Moraes, 34, advogado, possui MBA em Gestão de Empresas pela FGV e bacharelado em Filosofia pela UFMG. Foi prefeito de Itaguara entre 2009 e 2016 e vereador entre 2005 e 2008.
** Artigo publicado pelo Jornal Minas, Itaguara/MG, dezembro de 2019.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2019
sábado, 28 de setembro de 2019
Momento de partida e novos caminhos no horizonte
Após 15 anos de vida pública, três deles servindo à gestão municipal itaunense, chega o momento de enfrentar novos desafios e explorar novas veredas.
Agradeço, de coração, ao povo de Itaúna pela receptividade, aos colegas agentes públicos, ao prefeito Neider Moreira e ao vice-prefeito Fernando Franco.
Pude, nesta generosa caminhada pelas veredas itaunenses, refinar a minha percepção sobre a vida, a política e a gestão pública. Aprendi muito.
Minha sincera gratidão, comuna brilhante!
A você que me lê, me acompanha e me incentiva, o meu mais sincero abraço de gratidão e de esperança. Que nunca nos falte amor e disposição em melhorar o Brasil, nosso país tão amado. Que pensemos diferente, mas que nunca percamos a capacidade de dialogar e de convergir no amor sincero (distante do patriotismo rançoso) e abnegado à nação brasileira e à "patriazinha", nossa Minas. É esse amor que sempre me guiou na vida pública.
Agradeço, de coração, ao povo de Itaúna pela receptividade, aos colegas agentes públicos, ao prefeito Neider Moreira e ao vice-prefeito Fernando Franco.
Pude, nesta generosa caminhada pelas veredas itaunenses, refinar a minha percepção sobre a vida, a política e a gestão pública. Aprendi muito.
Minha sincera gratidão, comuna brilhante!
A você que me lê, me acompanha e me incentiva, o meu mais sincero abraço de gratidão e de esperança. Que nunca nos falte amor e disposição em melhorar o Brasil, nosso país tão amado. Que pensemos diferente, mas que nunca percamos a capacidade de dialogar e de convergir no amor sincero (distante do patriotismo rançoso) e abnegado à nação brasileira e à "patriazinha", nossa Minas. É esse amor que sempre me guiou na vida pública.
quarta-feira, 25 de setembro de 2019
Obrigado, Assemae
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| Alisson Diego com o presidente da Assemae, Aparecido Hojaij. |
Participei na capital federal de minha última reunião como Diretor de Assuntos Jurídicos da Assemae - Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento, função que ocupei representando Itaúna nos últimos anos.
Agradeço ao presidente Aparecido Hojaij e à diretoria da entidade pela convivência e aprendizado adquirido. O saneamento é um eixo programático essencial para o Brasil e a Assemae é uma entidade absolutamente fundamental no fortalecimento do saneamento de qualidade, o que traz benefícios concretos a todos os brasileiros.
| Conselho Diretor Nacional da Assemae. 25.09.2019 |
quinta-feira, 12 de setembro de 2019
Ser santo: a vocação à santidade*
Parece algo muito distante pensar em santidade. É, para muitos, uma missão praticamente inalcançável ser santo. Isso porque a maioria de nós pensa que santos são seres humanos idealizados, imaculados, cuja vida baseia-se numa perfeição moral permanente e inatacável.
Tratam-se, entretanto, de falsos paradigmas. Para quebrá-los, há muitos exemplos, vale lembrar a história de um dos mais destacados nomes do Cristianismo: Agostinho de Hipona, o nosso Santo Agostinho, Doutor da Igreja. Agostinho vivera boa parte de sua vida totalmente entregue à luxúria e aos prazeres, negando qualquer possibilidade de seguir a Deus e muito menos a Igreja. Sua perseverante mãe, Mônica, não se cansava de rezar pedindo a conversão do filho. O que parecia praticamente impossível aconteceu, quando, ao maravilhar-se com as pregações do bispo Ambrósio,
Agostinho sentiu-se tocado e convenceu-se, por meio da razão, da existência de Deus e da necessidade de se engajar. A partir de sua conversão, Agostinho escolheu o caminho da santidade. Tornou-se sacerdote, bispo de Hipona e escreveu obras teológicas e filosóficas extraordinariamente magníficas. Agostinho tornou-se santo, sua mãe e o bispo Ambrósio também. Santo Agostinho, Santa Mônica e Santo Ambrósio são, atualmente, três venerados santos de nossa Igreja, lembrados por todos os cantos do planeta.
A história de Santo Agostinho é apenas um exemplo. Assim como ele, uns se convertem pela razão, enquanto outros passam a seguir a Deus pela emoção, pelos caminhos naturais ou pelos descaminhos da vida. Fato é que não há uma regra, não há um paradigma. Agostinho é o exemplo maior de que a santidade pode ser alcançada quando há disposição e vontade.
Por fim, há de se lembrar das palavras iluminadas do Santo Padre, o Papa Francisco, na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate (Alegrai-vos e Exultai) em que aborda de maneira clara a questão da santidade no mundo contemporâneo:
“Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais”.
As palavras de Francisco são iluminadoras e demonstram, de forma clara, que todos nós podemos seguir o caminho da santidade, basta exercer a bondade e a justiça. Em suma, é seguir os ensinamentos de Jesus e agir cotidianamente em prol da comunidade, vencendo o egoísmo e praticando o amor. Vamos começar?
* Frei Diego de Frazão, religioso dominicano português. Missionário na região amazônica.
Tratam-se, entretanto, de falsos paradigmas. Para quebrá-los, há muitos exemplos, vale lembrar a história de um dos mais destacados nomes do Cristianismo: Agostinho de Hipona, o nosso Santo Agostinho, Doutor da Igreja. Agostinho vivera boa parte de sua vida totalmente entregue à luxúria e aos prazeres, negando qualquer possibilidade de seguir a Deus e muito menos a Igreja. Sua perseverante mãe, Mônica, não se cansava de rezar pedindo a conversão do filho. O que parecia praticamente impossível aconteceu, quando, ao maravilhar-se com as pregações do bispo Ambrósio,
Agostinho sentiu-se tocado e convenceu-se, por meio da razão, da existência de Deus e da necessidade de se engajar. A partir de sua conversão, Agostinho escolheu o caminho da santidade. Tornou-se sacerdote, bispo de Hipona e escreveu obras teológicas e filosóficas extraordinariamente magníficas. Agostinho tornou-se santo, sua mãe e o bispo Ambrósio também. Santo Agostinho, Santa Mônica e Santo Ambrósio são, atualmente, três venerados santos de nossa Igreja, lembrados por todos os cantos do planeta.
A história de Santo Agostinho é apenas um exemplo. Assim como ele, uns se convertem pela razão, enquanto outros passam a seguir a Deus pela emoção, pelos caminhos naturais ou pelos descaminhos da vida. Fato é que não há uma regra, não há um paradigma. Agostinho é o exemplo maior de que a santidade pode ser alcançada quando há disposição e vontade.
Por fim, há de se lembrar das palavras iluminadas do Santo Padre, o Papa Francisco, na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate (Alegrai-vos e Exultai) em que aborda de maneira clara a questão da santidade no mundo contemporâneo:
“Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais”.
As palavras de Francisco são iluminadoras e demonstram, de forma clara, que todos nós podemos seguir o caminho da santidade, basta exercer a bondade e a justiça. Em suma, é seguir os ensinamentos de Jesus e agir cotidianamente em prol da comunidade, vencendo o egoísmo e praticando o amor. Vamos começar?
* Frei Diego de Frazão, religioso dominicano português. Missionário na região amazônica.
quarta-feira, 4 de setembro de 2019
O que temos a ver com o que acontece na Amazônia?
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| Imagens de satélites da Nasa atestam focos de incêndio. Agosto de 2019 |
Já de início pode-se responder convictamente à pergunta-título deste modesto artigo: Temos, como brasileiros e, sobretudo, como seres humanos, tudo a ver com o que acontece na Amazônia e isso nos deve interessar por várias razões. Limito-me a expor três delas a seguir.
Primeiramente, parto do pressuposto de que nenhum de nós quer a extinção da humanidade. Parece um tanto quanto extremismo dizer que a humanidade corre riscos de extinção, mas, quando se analisa bem a fundo a questão, é disso que se trata. Em agosto do ano passado, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, órgão das Nações Unidas), reunido em Incheon, na Coreia do Sul, alertou sobre as consequências drásticas do aquecimento global para a humanidade, em um vasto documento, elaborado pelos maiores especialistas do mundo.
Para aqueles que não acreditam em mudanças climáticas, recomendo fortemente a leitura de um livro que acabei de ler, fruto de uma extensa pesquisa. A obra se chama “A terra inabitável: Uma história do futuro”, de autoria do jornalista norte-americano David Wallace-Wells, editor da New York Magazine. No livro, Wells explana acerca dos danos ao meio ambiente e a necessidade de se agir rapidamente em prol da natureza para tentar minimizar uma verdadeira catástrofe climática.
Em recente entrevista, o escritor declarou: “As condições nas quais viveremos serão absurdamente diferentes. Tudo se transformará traumaticamente. Os impactos em outras espécies serão mais dramáticos ainda, já que a maioria deles é muito menos adaptável do que nós (…) Tudo que conhecemos será alterado e, em muitos casos, destruído. E é isso que mais me assusta: o fato de que tudo que conheço está sob ameaça. Isso nos chama à ação. Tudo que amamos vai mudar.”
E o que propriamente a floresta amazônica tem a ver com o aquecimento global? A Amazônia é o habitat mais dinâmico do planeta. A maior floresta tropical do mundo possui a mais rica biodiversidade da Terra, é capaz de armazenar uma quantidade imensa de carbono, ajudando na desaceleração do aquecimento global, destacam os cientistas.
Em segundo lugar, os incêndios na região amazônica nos importam a todos os brasileiros porque possuímos o inarredável dever de cuidar de nosso patrimônio, que possui um valor universal, mas é nosso. A selva amazônica permeia vários países, mas sua maior parte encontra-se em território brasileiro e, à medida que cuidamos mal da maior floresta do planeta, isso por si só justificaria arroubos de planos de invasão de potências estrangeiras – mesmo não concordando em hipótese alguma com quaisquer justificativas dessa natureza, é com base nisso que outras nações poderiam se aventurar por nosso território e não devemos dar qualquer chance a essa possibilidade que fere de morte a soberania nacional.
Por fim e não menos importante, a terceira justificativa se dá por uma razão bastante óbvia: porque somos humanos e como membros da humanidade, pressupõe-se que somos dotados de sensibilidade, ou seja, somos (ou devemos ser) capazes de sentir, de nos compadecer com qualquer sofrimento alheio. Sofrimento que não se restringe a membros de nossa espécie. Além da flora, milhares de animais foram mortos com as queimadas criminosas na Amazônia, animais que sentem dores e que, por possuírem sistema nervoso central, fazem com que as suas dores sejam muito similares à dor humana. Não imagino presenciar um ser humano ou um animal queimando em chamas sem sentir o mais alto grau de compaixão.
Os brasileiros já compreendemos tudo isso, pelo menos a maioria de nós. Segundo dados recentes do Instituto DataFolha, para 75% dos brasileiros, o interesse internacional na Amazônia é legítimo e a floresta está correndo riscos. Defendem 66% dos entrevistados que o Brasil aceite recursos estrangeiros para aplicar na região. Ressalte-se ainda que, para 51% dos entrevistados, a gestão do presidente Bolsonaro no combate ao desmatamento e a queimadas é considerada ruim ou péssima.
Lamentavelmente, a cada ano as queimadas têm ficado cada vez mais comuns e podem ser associadas aos desmatamentos criminosos. É uma tragédia protagonizada diariamente e acentuada em níveis assustadores. Para se ter uma ideia, para a derrubada das árvores, os criminosos utilizam escavadeiras com correntes empurrando-as para o chão. Em regra, isso tem acontecido na Amazônia inteira durante décadas para a expansão das áreas agricultáveis. Nos últimos anos, o assassinato da floresta acelerou devido a uma ofensiva por desenvolvimento. Governos anteriores foram incapazes de lidar efetivamente com o problema, mas, ao menos, não incentivavam essa prática. O discurso do presidente Bolsonaro deliberadamente tem incentivado essas ações. Basta fazer uma busca rápida pela internet para se inteirar das declarações, no mínimo, muito imprudentes de Bolsonaro acerca deste temática, desde quando sequer era candidato ao cargo que atualmente ocupa.
A verdade nua e crua, inclusive revelada por uma recente reportagem da BBC, é que as unidades de conservação onde a floresta está inserida, estão sendo invadidas e destruídas a passos largos, por gente que está marcando lotes, grilando terra. “Os números do desmatamento podem ser muito maiores do que imaginamos”, disse uma fonte à reportagem. É quase impossível imaginar, mas os dados mostram que uma área equivalente a um campo de futebol é destruída a cada minuto. Por dia, são 2 mil campos de futebol ou 16 mil hectares de florestas destruídos.
Além dessas razões expostas, há outras centenas que não caberiam aqui neste breve artigo de opinião. Sublinho que sou favorável ao desenvolvimento sustentável daquela região, empreendido com absoluto respeito ao meio ambiente, aos indígenas e às populações locais, entretanto, o que se tem visto atualmente por lá é crime da pior espécie, ecocídio mais abjeto possível e o mais cruel e covarde extermínio da nossa flora e da nossa fauna.
É, por fim, uma questão ética o cuidado com o meio ambiente, afinal, a ‘casa comum’ - expressão de Papa Francisco na celebrada Encíclica Laudato si; e relaciona-se com a herança que cada geração recebe de seus antecessores, possuindo, pois, a tarefa de transmitir às gerações futuras sempre algo melhor. As gerações vindouras sempre nos rememoram que o amanhã deve ser olhado com esperança e atitude.
O próprio Pontífice fez questão de saudar, em junho deste ano, os participantes do encontro Internacional “A Doutrina Social da Igreja, das raízes à era digital” com a seguinte frase: “Que o desenvolvimento de uma ecologia integral, torne-se sempre mais uma prioridade a nível internacional, nacional e individual.
A posição do papa é a mais coerente possível. Só há uma saída para a humanidade: a ecologia integral.
* Alisson Diego Batista Moraes
quinta-feira, 8 de agosto de 2019
Conselho Municipal de Defesa Civil toma posse
COMDEC é responsável pela coordenação de ações de defesa civil no Município
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| Foto: Ascom PMI 08.08.19 |
O Conselho tem entre os principais objetivos: Coordenar e executar as ações de defesa civil; Manter atualizadas e disponíveis as informações relacionadas à defesa civil; Elaborar e implementar planos, programas e projetos; Elaborar Plano de Ação anual visando o atendimento das ações em tempo de normalidade, bem como, das ações emergenciais, com a garantia dos recursos no Orçamento Municipal.
Alisson Diego, secretário de Planejamento e Governo do município, presidiu a reunião e destacou o papel da defesa civil: "Desde 2017, a Prefeitura reestruturou a Defesa Civil municipal, dotando-a de estrutura e empoderando-a como um essencial órgão intersetorial que não prescinde do apoio tanto da sociedade civil organizada quanto do poder público. Itaúna possui uma situação bastante excepcional comparando-se ao nosso país. Isso não quer dizer que devamos nos sentir confortáveis, mas sim que devemos permanecer trabalhando para que a cidade continue sendo referencia em políticas públicas, qualidade de vida da população, planejando e minimizando riscos e catástrofes".
Está ainda, entre as principais funções, manter o órgão central do Sistema Nacional de Defesa Civil (SINDEC) informado sobre as ocorrências de desastres e atividades; Executar a distribuição e o controle de suprimentos necessários em situações de desastres; Implantar o banco de dados e elaborar os mapas temáticos sobre ameaças, vulnerabilidade e riscos de desastres; Estar atenta às informações de alerta dos órgãos de previsão e acompanhamento para executar planos operacionais em tempo oportuno.
O COMDEC é formado por representantes vinculados aos órgãos governamentais e da sociedade civil organizada. A Coordenadora Municipal de Defesa Civil, Márcia Aparecida Moreira e Souza, será a presidente do novo Conselho. A formação do Conselho, com representantes de diferentes instituições e setores da sociedade, fortalece a atuação do Governo e minimiza os efeitos danosos das forças naturais, além de unir forças para implantar um banco de dados eficiente e completo com objetivo de elaborar os mapas temáticos sobre ameaças, vulnerabilidade e risco de desastres.
Composição Representantes de órgãos Governamentais:
a) Representante da Câmara Municipal Lacimar Cesário da Silva (reconduzido)
b) Representante da Polícia Civil / 3a Delegacia de Polícia Civil 1º DRPC/7º DEPPC Hebert Roberto Leite Oliveira
c) Representante da Polícia Militar de Minas Gerais/ 51a Cia. de Polícia Militar Tenente PM Sérgio Wallace Januário
d) Representante do Poder Judiciário/ Fórum de Itaúna Gláuber Lúcio de Souza (reconduzido)
e) Representante do Corpo de Bombeiros Militar / MG 2ª Pelotão da 2º Cia / 10º Batalhão de Bombeiro Militar 1. Sargento Anderson Mauro Costa de Oliveira,
f) Representante da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Kenderson Antunes Andrade
g) Representante da Secretaria Municipal de Saúde Marilange Ferreira Borges
h) Representante da Secretaria Municipal de Assistência Social Mariana Silveira Aquino
i) Representante da Secretaria Municipal de Regulação Urbana Gláucio Martins de Souza (reconduzido)
j) Representante do Serviço Autônomo de Água e Esgoto – SAAE Antônio Fernandes Quadros
Representantes de órgãos Não Governamentais:
a) Representante do Rotary de Itaúna “Cidade Universitária” José Alves Ferreira
b) Representante da Loja Maçônica “Mestre Chauer Chequer” Elton Moreira
c) Representante da Paróquia de Sant'Ana Everaldo Carneiro
d) Representante interino da Associação dos Evangélicos de Itaúna – ASSEVI Israel Antônio Lúcio Neto
e) Representante do Centro de Desenvolvimento Social e Empresarial CDE Afonso Henrique da Silva Lima.
* Foto e texto: Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Itaúna
sexta-feira, 19 de abril de 2019
A sentimentalidade poética disruptiva de João da Cruz
Por mais que minha fé, por vezes, seja fragilmente cambaleante e o agnosticismo insista em guiar-me a razão, fato é que possuo um respeito absolutamente “oblato” à Semana Santa e ao que se reverencia nesta data: a caminhada rumo à morte de cruz e gloriosa ressureição de Nosso Senhor Jesus Cristo, o ungido salvador de toda a humanidade.
Neste sentido, quero compartilhar um hábito que tenho mantido ao longo dos últimos 18 anos (desde que participei de uma encenação teatral na Semana Santa): na sexta-feira da paixão, dedico-me à leitura de poemas “religiosos” e “transcendentais”.
Independentemente da crença em si, ou mesmo da estética poética, debruço-me sobre esse gênero poético para sentir, pois são, via de regra, composições bastante carregadas de uma singular sentimentalidade. O que chamo atenção aqui é o rito, os versos desejantes e a manifestação humana do sagrado.
Um dos constantes poetas desse dia marcante tem sido o célebre espanhol São João da Cruz (nascido João de Yepes em 1542 e morto em 1591), considerado “doutor místico” pela Igreja Católica (assim proclamado pelo Papa Pio XII em 1926).
Sua vida foi marcada, por um lado, pela dor infligida-lhe pela dura realidade externa, e por outro pela alegria da descoberta crescente de uma vasta e luminosa realidade interior.
Para São João da Cruz, não se pode “explicar com palavras o que com palavras não se pode exprimir”. Ele sente de uma maneira comovente e se vale dessa sentimentalidade disruptiva para compor versos arrebatadores.
Não é fácil compreender os versos místicos dele sem acompanhamento de comentadores, mas ouso compartilhar aqui uma composição (para se ter a ideia da força transcendental-semântica): “Chama de Amor Viva” - “Canções da alma na íntima comunicação de união de amor com Deus” (Granada 1582- 1584):
1. Oh! chama de amor viva
Que ternamente feres
De minha alma no mais profundo centro!
Pois não és mais esquiva,
Acaba já, se queres,
Ah! Rompe a tela deste doce encontro.
2. Oh! cautério suave!
Oh! regalada chaga!
Oh! branda mão! Oh! toque delicado
Que a vida eterna sabe,
E paga toda dívida!
Matando, a morte em vida me hás trocado.
3. Oh! lâmpadas de fogo
Em cujos resplendores
As profundas cavernas do sentido, -
Que estava escuro e cego –
Com estranhos primores
Calor e luz dão junto a seu Querido!
4. Oh! quão manso e amoroso
Despertas em meu seio
Onde tu só secretamente moras:
Nesse aspirar gostoso,
De bens e glória cheio,
Quão delicadamente me enamoras!
Chama de Amor Viva – Fonte: SCIADINI, Patrício.(Org.). Obras completas. 7. ed., Petrópolis: Vozes, 2002, p. 37 e 38. A fotografia: Escultura de São João da Cruz, na Igreja das Carmelitas Descalças, em Sevilla, na Andaluzia. Obra de Pedro Roldán.
domingo, 31 de março de 2019
O pódio e o corredor
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| Corrida do América-MG. BH, 31 de março de 2019. |
O objetivo nunca foi chegar ao pódio. Mentiram para você. O pódio não existe. É mais uma das tantas ficções forjadas pelos homens. O objetivo é o caminho em si, superando as dores e vencendo, um a um, os vários limites pré-estabelecidos.
A meta é correr em paz com a sua alma, sem pesos de consciência e sem contusões no coração. O foco é manter intacta a fé em si mesmo e a verdadeira força não se encontra nas pernas tonificadas, mas no espírito leve.
Corra para se libertar das amarras e das algemas que os outros lhe impuseram. Correr é um exercício de liberdade.
terça-feira, 5 de março de 2019
O aguerrido carnaval da Mangueira
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Foto: Rodrigo Gorosito / G1. |
De tudo o que aconteceu, de norte a sul do país, neste carnaval, o grande destaque ficou por conta do intrépido desfile da Estação Primeira de Mangueira no Rio de Janeiro.
A escola de samba teve a ousadia de levar para a Sapucaí um enredo que reconstruiu a história do Brasil por meio de heróis da resistência, negros e índios.
O enredo “História pra ninar gente grande” foi de responsabilidade do carnavalesco Leandro Vieira que, em entrevista, enfatizou: “A abolição (da escravidão) foi um resultado e não uma consequência de uma concessão dada por uma princesa... O olhar da Mangueira é para isto: desmitificar a história oficial e apresentar novos heróis”.
Na Marquês de Sapucaí, a verde e rosa mostrou que o esforço para eliminar a diferença sempre fez parte da história humana e, particularmente, brasileira. Todos os direitos e liberdades de que “usufruímos” nos dias hodiernos foram fruto de uma árdua e lenta conquista. Conquista, benevolência não.
“O Brasil tem cara de cariri”, diz a letra do samba-enredo. Habitantes originais do sertão brasileiro, os cariris foram perseguidos e massacrados, sobretudo no século XVII. A valente sobrevivência dos indígenas e sua cultura, assim como o fim da escravidão não vieram por bênçãos celestiais, mas pela luta do povo – isso está translúcido na corajosa letra da Mangueira.
A menção a Marielle, após a citação da revolta dos malês, mostra que a tragédia do genocídio que nos perpassa a história continua, assim como a impunidade e a injustiça. Mas a voz da Mangueira não nos deixa silentes diante de tudo isso. Vocaciona uma nação inteira ávida por resistência, justiça e paz.
“Todo carnaval é uma manifestação séria disfarçada de brincadeira”, lembrou o carnavalesco da Mangueira. “A brincadeira pode e deve fornecer material para a reflexão”. O samba enredo corria o risco de ser triste, mas ninguém ali chorava de tristeza, mas sim sambava com alegria porque o que ocorreu no desfile foi uma celebração da história do povo brasileiro, de quem lutou e luta com destemor para viver com alegria, em meio a tantas opressões e desilusões.
De tão bela e forte, a letra merece ser compartilhada na íntegra:
“Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra
Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500
Tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não tá no retrato
Brasil, o teu nome é Dandara
Tua cara é de cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati
Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês
Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos brasis que se faz um país de lecis, jamelões
São verde e rosa as multidões”.
A grande lição da Mangueira se resume nisto: Em nossa história, nada veio de graça. E gratuitamente nada virá. É preciso lutar.
sábado, 23 de fevereiro de 2019
Existência Verde: Diálogo e Pacifismo
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| Alisson Diego e Eduardo Jorge |
Por isso, o tema desta convenção é: “Existência Verde”. É preciso rediscutir o modo de vida focado exclusivamente no consumismo e centrado no ter. A humanidade e a natureza merecem um futuro! Estou convicto de que mais dia, menos dia, o brasileiro sairá da condição de apostador do salvacionismo que tem caracterizado os pleitos nacionais. Há de chegar o tempo da razão, da construção coletiva e da extinção completa do complexo de vira-latas que insiste em nos perseguir.
Saliento que acredito no diálogo construtivo com todos (sem exceção), na coexistência, no pacifismo e no amor - não há política sem essas bases. Não deve haver, pelo menos. Esses e outros temas (Guimarães Rosa e pós-modernismo, por exemplo) tratei com o ícone Eduardo Jorge, inspirador de muitos de nós que almejamos construir um mundo melhor, mais justo, ético, sustentável e consciente.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
Um tango para Boechat
Alisson Diego *
Sou um homem de rotinas. Não me confunda, entretanto, como alguém previsível. A imprevisibilidade faz parte de minha latina personalidade aventureira. Mas da rotina em si mesma eu gosto.
Todos os dias pela manhã, sintonizava o meu dial na Band News FM e começava o dia na companhia de Ricardo Boechat no comando do inconfundível Café com Jornal. Ouvia mais ou menos até o imperdível diálogo com o inoxidável José Simão. E, após me informar, me indignar e rir bastante, ia trabalhar. Foi exatamente assim durante vários anos.
De dois anos para cá, o hábito matutino passou a ser indesviável. Boechat me acompanhou nas estradas todos os dias de semana. Sim, rigorosamente de segunda a sexta-feira! De Belo Horizonte a Itaúna, de Itaguara a Itaúna... Religiosamente, começava o dia ouvindo e, de certa forma, interagindo com o âncora.
Meu quase velho Renegade verde está com pouco mais de 90 mil quilômetros rodados. Sem hiperbolizar, posso dizer que pelo menos uns 45 mil passei ouvindo o Boechat. Por isso, a relação não era apenas entre ouvinte e âncora – tornou-se algo mais substancial. Havia ali uma identificação e uma admiração presentes.
Agora, quando ligo o rádio às 07h30, a voz de Ricardo Boechat, o corajoso jornalista e ávido defensor do interesse público, não está mais lá – para a tristeza geral da nação. Não o ouvirei mais criticar os políticos e os privilégios, rir contagiosamente com o Simão, esbravejar com o Judiciário, indignar com a criminalidade galopante, xingar os bandidos, deblaterar com a impunidade, criticar os falsos profetas e comentar as notícias com argúcia, ancorando a vida diária da gente.
Não haverá, por ora, voz que me represente, que traduza as minhas desesperanças e esperanças todas ao mesmo tempo (só um brasileiro nato pode entender esse espírito de antíteses constantes), que fale com emoção por mim, que canalize todas as minhas líticas indignações de brasileiro médio, cansado dos mesmos problemas que atravancam o país anos a fio.
No dia seguinte ao fenecimento de Boechat, meu rádio não conseguiu sintonizar o Café com Jornal. Mas ouvi um tango meio triste em homenagem ao âncora - o mais brasileiro de todos os “argentinos” e o mais latino de todos os brasileiros:
El Tango de La Muerte
(Carlos Gardel)
No tengo amigos,
no tengo amores,
no tengo patria, ni religión.
solo amarguras tengo en el alma
y juna malaya mi corazón.
Mas no por eso yo me lamento
pues siempre tengo en la ocasión,
para mis quejas una milonga;
para mis penas una canción.
Que me importa de la vida,
si nadie me va a llorar.
Quien me lloraba se ha muerto
y esa muerte me ha matao
Desde entonces desafío
al jilguero y al zorzal,
quien mejor cantando ahoga
las tristezas de su mal.
Milonga mía no me abandones,
Tenerte siempre quiero, a mi lao.
Que no me falte cuando yo muera
una milonga para cantar.
una milonga para cantar.
Se ele pudesse ler este artigo um tanto quanto sentimentalista (ainda mais com esses versos de Gardel), já o imagino contrariado a rir e retrucar: “Que coisa mais dramática! Menos, bem menos, minha gente... A morte é tão somente um capítulo da vida. Toca o barco”.
Este neonato 2019 está tragicamente difícil, mas é preciso tocar o barco. Toquemo-lo!
* Alisson Diego Batista Moraes.
PS: Como não poderia deixar de acontecer nestes tempos insanos, haters, radicalistas e desinformados infestaram as redes sociais de infâmias e mentiras após a morte de Boechat. Quem o acompanhava e costuma investigar fatos antes de propalar inverdades, sabe bem que o jornalista sempre se pautou pelo respeito a todas as crenças religiosas. Ricardo Eugênio Boechat exerceu, durante toda a sua carreira, um papel reconhecidamente democrático, com fortes críticas pontuais sim, mas a maioria delas de maneira coerente e justa. Pode ter exagerado vez ou outra, o que não invalida a sua brilhante trajetória jornalística, irrefutavelmente comprometida com o interesse público. Fará muita falta. Muita.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019
Itaúna sediará 8º Congresso Mineiro dos Serviços Municipais de Saneamento
O evento está previsto para acontecer no mês de outubro e contará com a participação de várias cidades do Estado de Minas.
Na terça-feira (05/02), em Assembleia da Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento de Minas Gerais -Assemae Minas, da qual o Serviço Autônomo de Água Esgoto-SAAE de Itaúna é associado, o Município foi confirmado como sede para a realização do Congresso (foto).
O tema, por enquanto, não foi decidido, mas o evento provavelmente irá fomentar debates sobre a importância de se garantir melhorias na gestão municipal do setor de saneamento e sustentabilidade.
A programação inclui palestras, minicursos, apresentações de experiências exitosas e visita técnica, e contará com a participação de gestores públicos, técnicos, representantes do Governo Federal, pesquisadores, lideranças de organizações não governamentais e acadêmicos.
Já está prevista uma reunião com a Comissão de Eventos da Assemae, para a segunda quinzena de junho, que tratará de questões sobre a organização do 8º Congresso, previsto para os dias 9,10 e 11 de outubro.
Um dos objetivos da Autarquia é apresentar, por meio de visita técnica, a Estação de Tratamento de Esgoto-ETE, a qual tem a previsão de ser inaugurada em setembro deste ano, caso não haja nenhum imprevisto.
O que é a Assemae?
A Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento – Assemae é uma organização não governamental sem fins lucrativos, criada em 1984. A Entidade busca o fortalecimento e o desenvolvimento da capacidade administrativa, técnica e financeira dos serviços municipais de saneamento responsáveis pelos sistemas de abastecimento de água, esgotamento sanitário, manejo dos resíduos sólidos e drenagem urbana.
A Associação possui reconhecimento e credibilidade nacional e internacional, reunindo quase dois mil associados no Brasil. Em defesa da universalidade do saneamento básico e melhoria da gestão pública, a Assemae se faz presente nas diversas esferas do Governo Federal, participando do Conselho das Cidades, Conselho Nacional de Saúde, Conselho Nacional de Recursos Hídricos, conselhos estaduais de saneamento e comitês de bacias hidrográficas, entre outros.
Ao longo de sua história, a Associação discutiu propostas municipalistas históricas, como a destinação de maior parte do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço - FGTS para o saneamento, as campanhas sanitárias contra a dengue e cólera, a luta pela manutenção do Ministério da Ação Social, e ainda as inúmeras mobilizações pela criação de legislação específica para o setor, a exemplo da Lei do Saneamento (11.445/2007), Lei dos Resíduos Sólidos (12.305/2010), Lei dos Consórcios Públicos (11.107/2005) e Lei dos Recursos Hídricos (9.433/1997).
Fonte: COMSAAE
Na terça-feira (05/02), em Assembleia da Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento de Minas Gerais -Assemae Minas, da qual o Serviço Autônomo de Água Esgoto-SAAE de Itaúna é associado, o Município foi confirmado como sede para a realização do Congresso (foto).
O tema, por enquanto, não foi decidido, mas o evento provavelmente irá fomentar debates sobre a importância de se garantir melhorias na gestão municipal do setor de saneamento e sustentabilidade.
A programação inclui palestras, minicursos, apresentações de experiências exitosas e visita técnica, e contará com a participação de gestores públicos, técnicos, representantes do Governo Federal, pesquisadores, lideranças de organizações não governamentais e acadêmicos.
Já está prevista uma reunião com a Comissão de Eventos da Assemae, para a segunda quinzena de junho, que tratará de questões sobre a organização do 8º Congresso, previsto para os dias 9,10 e 11 de outubro.
Um dos objetivos da Autarquia é apresentar, por meio de visita técnica, a Estação de Tratamento de Esgoto-ETE, a qual tem a previsão de ser inaugurada em setembro deste ano, caso não haja nenhum imprevisto.
O que é a Assemae?
A Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento – Assemae é uma organização não governamental sem fins lucrativos, criada em 1984. A Entidade busca o fortalecimento e o desenvolvimento da capacidade administrativa, técnica e financeira dos serviços municipais de saneamento responsáveis pelos sistemas de abastecimento de água, esgotamento sanitário, manejo dos resíduos sólidos e drenagem urbana.
A Associação possui reconhecimento e credibilidade nacional e internacional, reunindo quase dois mil associados no Brasil. Em defesa da universalidade do saneamento básico e melhoria da gestão pública, a Assemae se faz presente nas diversas esferas do Governo Federal, participando do Conselho das Cidades, Conselho Nacional de Saúde, Conselho Nacional de Recursos Hídricos, conselhos estaduais de saneamento e comitês de bacias hidrográficas, entre outros.
Ao longo de sua história, a Associação discutiu propostas municipalistas históricas, como a destinação de maior parte do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço - FGTS para o saneamento, as campanhas sanitárias contra a dengue e cólera, a luta pela manutenção do Ministério da Ação Social, e ainda as inúmeras mobilizações pela criação de legislação específica para o setor, a exemplo da Lei do Saneamento (11.445/2007), Lei dos Resíduos Sólidos (12.305/2010), Lei dos Consórcios Públicos (11.107/2005) e Lei dos Recursos Hídricos (9.433/1997).
Fonte: COMSAAE
Sobre os Gurus
Compartilho, a seguir, texto do eminente professor Roberto Romano. Recomendo muito a leitura (sobretudo a todos nós que, de alguma maneira, vivemos os ares acadêmicos):
Sobre os Gurus
Nossa época é o tempo dos gurus. Existem mestres para tudo: cozinha, economia, ciência política, filosofia, teologia, crime organizado, orgias, etc. É a era dos personal training em tudo e para todos. “Conselhos” são aceitos e procurados com avidez, consumidos também de modo célere, jogados no lixo quase instantaneamente. E segue a busca de novos gurus, novos assuntos, nova moda. Claro, a literatura vai na onda. Por mais que Umberto Eco advirta, o mundo da tecnologia imbeciliza com método.
Outro dia, procurando uma tese política de Leibniz (sim, o grande matemático e físico escreveu sobre teologia, direito, diplomacia, economia, etc...) parei numa página profética. A traduzo aqui de modo imperfeito, para dar ideia do que ele advertia e se cumpre hoje.
“A peculiaridade de um intelectual também possui o péssimo efeito de prover ocasião para seitas e para o desejo da falsa glória que atrasa o progresso. Um intelectual tem opiniões que ele imagina sutis e relevantes. Logo ele quer se tornar a cabeça de uma seita. Ele trabalha portanto para arruinar a reputação dos outros. Ele fará um livro de mágico erudito, ao qual seus discípulos se acostumam, pois sentem-se incapacitados de usar a própria razão sem tal livro. Para ele é fácil os cegar para conseguir a glória de ser o seu único líder. O público, no entanto, perderá tudo o que as boas mentes poderiam fazer, mas não fazem por estarem numa seita, se elas perdem a liberdade e a diligência que agora lhes falta, pois acreditam suficiente o aprendido com o mestre. Bom entendimento e comunicação destroem tal comportamento. Então alguém reconhece facilmente que não deveria limitar a si mesmo às doutrinas do seu mestre, e que um só homem conta pouco diante da união de muitos. Então alguém dará a cada um a justiça que merece, na proporção em que contribui para o bem comum”. Uso a tradução inglesa : “Memoir for Enlightened Persons of Good Intention (1690). Leibniz, Political Writings, Ed. Patrick Riley, Cambridge University Press, 1988, pp. 109-110.
Quantos na universidade de hoje (e de ontem) pertencem a seitas... Caíram as grandes ortodoxias (liberais, estalinistas, positivistas, freudianas, etc). Em seu lugar surgiram as pequenas : seguidores de Foucault que não leem outros escritores, de Agamben, de Heidegger, de....a lista é interminável. Vai dos mais elevados (Leibniz na sua crítica visava Descartes) aos mais baixos, dos mais progressistas aos que indicam ministros de educação em governos retrógrados, etc. Mas permanece a ortodoxia. Estive em bancas onde temas relevantes para a humanidade eram reduzidos à visão de um só teórico. Quando o candidato era confrontado por outros filósofos, na lembrança dos examinadores, respondia sempre que para o “seu” escritor, o problema estava resolvido ou era irrelevante. Teses inteiras na ótica de um só guru.
É bom estudar determinado autor, mas seus enunciados devem ser postos sinoticamente, quando o assunto é igual, diante de outros. Existem “especialistas” em Foucault, Agamben, etc. Que tais autores sejam conhecidos, lidos, comentados. Mas se “tudo” está neles, entramos no que Leibniz diz dos sectários : não conseguem pensar sem os livros do mestre.
Já contei a anedota verídica ocorrida comigo tempos atrás. Estava eu em férias na bela Ouro Preto, na época em que e mail só por computador. O hotel em que me hospedava tinha uma internet ruim e lenta. Na cidade uma Lan House oferecia serviços rápidos. Entrei certa feita na Lan House e o computador estava sendo usado por uma jovem. Ela imprimia páginas de um texto. Ao lado do computador notei traduções (incertas quanto à qualidade) de Nietzsche. Perguntei: “a senhora estuda Nietzsche?”. Enfarada a moça responde a meios dentes, “sim”. Pergunto: “sob qual ponto de vista o estuda? Me interesso muito por ele”. Resposta : “Nietzsche não é para qualquer um”. Calei-me e esperei que o computador fosse liberado. Ah, ela preparava uma comunicação para a Anpof, que se reunia na cidade.
Volto ao hotel e no lobby encontro uma roda de professores e estudantes. No meio, um grande conhecedor do pensamento de Nietzsche. Ele sai da roda e me abraça, apresentando-me ao grupo: “este é o professor Romano, grande conhecedor de Nietzsche”. A informação era mais generosa do que verdadeira, pois meus conhecimentos sobre o grande escritor são razoáveis, mas não importantes. Valeu a bondade habitual do colega. A senhorita do caso estava na roda. Só faltou para ela um ataque cardíaco... Pois bem: foi preciso a voz do mestre (inclusive pouco veraz pela sua generosidade para comigo) para que ela percebesse que, para além da sua seita, alguém poderia ter luzes para entender o seu estudo.
Leibniz tem razão: como sair do circuito fechado das seitas? “Bom entendimento e comunicação”. Basta deixar o idioleto dos “autores consagrados” e dos “interpretes consagrados”, aceitar que em outros setores as pessoas pensam e conhecem e a verdade não reside nos lábios dos gurus. Se Leibniz fosse ouvido, talvez certos gurus não tivessem poderes tão amplos em nossos dias, tristes dias.
Roberto Romano
Sobre os Gurus
Nossa época é o tempo dos gurus. Existem mestres para tudo: cozinha, economia, ciência política, filosofia, teologia, crime organizado, orgias, etc. É a era dos personal training em tudo e para todos. “Conselhos” são aceitos e procurados com avidez, consumidos também de modo célere, jogados no lixo quase instantaneamente. E segue a busca de novos gurus, novos assuntos, nova moda. Claro, a literatura vai na onda. Por mais que Umberto Eco advirta, o mundo da tecnologia imbeciliza com método.
Outro dia, procurando uma tese política de Leibniz (sim, o grande matemático e físico escreveu sobre teologia, direito, diplomacia, economia, etc...) parei numa página profética. A traduzo aqui de modo imperfeito, para dar ideia do que ele advertia e se cumpre hoje.
“A peculiaridade de um intelectual também possui o péssimo efeito de prover ocasião para seitas e para o desejo da falsa glória que atrasa o progresso. Um intelectual tem opiniões que ele imagina sutis e relevantes. Logo ele quer se tornar a cabeça de uma seita. Ele trabalha portanto para arruinar a reputação dos outros. Ele fará um livro de mágico erudito, ao qual seus discípulos se acostumam, pois sentem-se incapacitados de usar a própria razão sem tal livro. Para ele é fácil os cegar para conseguir a glória de ser o seu único líder. O público, no entanto, perderá tudo o que as boas mentes poderiam fazer, mas não fazem por estarem numa seita, se elas perdem a liberdade e a diligência que agora lhes falta, pois acreditam suficiente o aprendido com o mestre. Bom entendimento e comunicação destroem tal comportamento. Então alguém reconhece facilmente que não deveria limitar a si mesmo às doutrinas do seu mestre, e que um só homem conta pouco diante da união de muitos. Então alguém dará a cada um a justiça que merece, na proporção em que contribui para o bem comum”. Uso a tradução inglesa : “Memoir for Enlightened Persons of Good Intention (1690). Leibniz, Political Writings, Ed. Patrick Riley, Cambridge University Press, 1988, pp. 109-110.
Quantos na universidade de hoje (e de ontem) pertencem a seitas... Caíram as grandes ortodoxias (liberais, estalinistas, positivistas, freudianas, etc). Em seu lugar surgiram as pequenas : seguidores de Foucault que não leem outros escritores, de Agamben, de Heidegger, de....a lista é interminável. Vai dos mais elevados (Leibniz na sua crítica visava Descartes) aos mais baixos, dos mais progressistas aos que indicam ministros de educação em governos retrógrados, etc. Mas permanece a ortodoxia. Estive em bancas onde temas relevantes para a humanidade eram reduzidos à visão de um só teórico. Quando o candidato era confrontado por outros filósofos, na lembrança dos examinadores, respondia sempre que para o “seu” escritor, o problema estava resolvido ou era irrelevante. Teses inteiras na ótica de um só guru.
É bom estudar determinado autor, mas seus enunciados devem ser postos sinoticamente, quando o assunto é igual, diante de outros. Existem “especialistas” em Foucault, Agamben, etc. Que tais autores sejam conhecidos, lidos, comentados. Mas se “tudo” está neles, entramos no que Leibniz diz dos sectários : não conseguem pensar sem os livros do mestre.
Já contei a anedota verídica ocorrida comigo tempos atrás. Estava eu em férias na bela Ouro Preto, na época em que e mail só por computador. O hotel em que me hospedava tinha uma internet ruim e lenta. Na cidade uma Lan House oferecia serviços rápidos. Entrei certa feita na Lan House e o computador estava sendo usado por uma jovem. Ela imprimia páginas de um texto. Ao lado do computador notei traduções (incertas quanto à qualidade) de Nietzsche. Perguntei: “a senhora estuda Nietzsche?”. Enfarada a moça responde a meios dentes, “sim”. Pergunto: “sob qual ponto de vista o estuda? Me interesso muito por ele”. Resposta : “Nietzsche não é para qualquer um”. Calei-me e esperei que o computador fosse liberado. Ah, ela preparava uma comunicação para a Anpof, que se reunia na cidade.
Volto ao hotel e no lobby encontro uma roda de professores e estudantes. No meio, um grande conhecedor do pensamento de Nietzsche. Ele sai da roda e me abraça, apresentando-me ao grupo: “este é o professor Romano, grande conhecedor de Nietzsche”. A informação era mais generosa do que verdadeira, pois meus conhecimentos sobre o grande escritor são razoáveis, mas não importantes. Valeu a bondade habitual do colega. A senhorita do caso estava na roda. Só faltou para ela um ataque cardíaco... Pois bem: foi preciso a voz do mestre (inclusive pouco veraz pela sua generosidade para comigo) para que ela percebesse que, para além da sua seita, alguém poderia ter luzes para entender o seu estudo.
Leibniz tem razão: como sair do circuito fechado das seitas? “Bom entendimento e comunicação”. Basta deixar o idioleto dos “autores consagrados” e dos “interpretes consagrados”, aceitar que em outros setores as pessoas pensam e conhecem e a verdade não reside nos lábios dos gurus. Se Leibniz fosse ouvido, talvez certos gurus não tivessem poderes tão amplos em nossos dias, tristes dias.
Roberto Romano
quinta-feira, 24 de janeiro de 2019
Quanto vale a vida?
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| A lama, uma vez mais, atinge-nos a alma |
Há novamente uma tragédia que nos atinge a todos os mineiros. O segundo desastre com barragens de rejeitos de mineração, com vítimas fatais, em menos de 3 anos. Nosso nome é Minas Gerais, a mineração está em nosso sangue, faz parte de nossa identidade. O nosso gentílico é “mineiro” e todos, consciente ou inconscientemente, “mineiramos”.
TODOS nós, mineiros de todos os cantos, discordamos da forma com que parte da indústria da mineração trata o nosso estado: colocando os lucros acima da vida humana. Impondo os números na frente das pessoas.
Se há uma tecnologia que minimiza os riscos (como o beneficiamento a seco), por que não implantá-la mais rapidamente? Ou porque não reduzir a operação enquanto não se implanta um novo modelo mais seguro e sustentável? Por uma razão simples: Porque os lucros não podem cessar, mas a vida humana, essa pode correr todos riscos. É assim essa gente pensa!
Quanto custa uma vida humana? R$ 1 milhão de indenização? Quanto custa implantar o beneficiamento a seco? R$ 1 bilhão? O cálculo que eles fazem é simples: compensa o risco.
A Vale tem um plano para, até o ano de 2025, reduzir o uso de barragens e produzir menos 700 milhões de toneladas de rejeitos. Porque não antecipou o plano ou diminuiu as operações até se estabelecer o novo sistema? Porque o lucro não pode cessar. Já a vida humana, bom, deixa isso que os advogados resolvem as indenizações. Agora vem os diretores chorando dizendo que estão “com os corações dilacerados”. Poupem-nos desses dramas baratos! Deles não me compadeço. Merecem a condenação irremissível da história e da justiça. O que dilacera meu coração é saber que nossa morosa justiça garante que eles estarão, dentro em breve, em suas mansões na Barra da Tijuca tomando suas bebidas grã-finas e “lembrando da dor” que sentiram neste momento difícil.
A história condenará eternamente a Vale e todos aqueles que insistem em reduzir a vida humana a LAMA.
Aos irmãos de Brumadinho, a mais irrestrita solidariedade e compaixão! Seu sofrimento é NOSSO. Sem mais palavras. Estamos de luto e revoltados!
segunda-feira, 31 de dezembro de 2018
Itaguara: 75 anos de emancipação política
Hoje comemoramos um aniversário muito especial. Itaguara, essa jovem e altiva senhora, completa, neste derradeiro dia de 2018, 75 anos de emancipação política. Data simbólica porque sabemos que uma cidade é a soma de toda a sua história - dos cataguás até nós.
Nestes versos escritos há cinco anos e que compartilho agora, homenageio nossa terra, identificando um traço comum em todos os itaguarenses: a itaguarescência, a soma do itaguarescer e do itaguarizar - da abstração e da corporeidade, do visível e do que sentimos - aquilo que faz muito do que somos.
A itaguarescência está contida na mineiridade - inescapáveis identidades nossas.
Parabéns, Itaguara!
Itaguarescência
(Alisson Diego)
O pertencimento solidário
Geógrafa identidade
Certidão de inserir-se mineiro
Gente que nasce e se fazendo se torna
O próprio lugar da gente
Pelas vertentes centrais do centro-oeste metropolitano de Minas
Há Itaguara
O lugar, o povo, o céu, as águas e os pores de sol
Singular peculiaridade no mundo
Itaguarescer
É labutar sem sono
Suar sem reclamos
E ainda agradecer
Itaguarescer Também é se dar aos pequenos prazeres
Que colorem o existir de sentido e flores
O céu estrelado, as muitas árvores multiformes
Os sons do mato, as andorinhas a rodear faceiras a torre da igreja
Itaguaresço-me
Ao escutar as noites de luares hemiciclos
E as chuvas com cheiro tímido de verde-natureza
É a fantástica magia da realidade simples
É Minas deveras Gerais gentes arraigadas
Itaguaresço-me
Quando contemplo os pores-de-sol
Multicoloridos de canto a canto da Conquista
Quando ouço os mugidos sinfônicos das criações
Os farfalhares, chilreares, berros, grasnados, cantares, uivos e assobios
Num canto nobre da alma Itaguarescida
Escuta-se os cantos entranháveis dos cataguas, sapucaias
Amyipagûana
O itaguarense Sertanejo-citadino-universal
Adjetiva-se de mineiridades inescusáveis
É o café
O leite
O pão de queijo
O queijo
A broa de fubá
O gado
A lida
A fé
A botina, o canivete, o chapéu e o pito de palha escondido
no fundo do bolso raso da calça gastada mas remendada caprichosamente
(porque o desperdício não pode)
A conversa, o banquinho, o convite, a visita:
_ Senta!
_ A demora é pouca.
_ Almoça!
_ Uai...
É o pai, o avô,
O bisavô e o tataravô
Tradição
Mamãe, vovó, bisavó
Sensíveis tradições e humildades herdadas
É recusar agradecendo e desejando
Aceitar recusando
E agradecer muito
Itaguarizar-se
Para seguir na estrada,
Tocar a lida
Itaguarizo-me
Na pataca
Na serrinha
Nas estradas poeirentas bonitas
Pelas ruas simples de magia e gentes
Nas conversas despretensiosas demoradas na venda do Zé Ananias
Entre fumos de rolo, velas de santo e livros de filosofia antiga
Itaguarizo-me
Quando amanheço após noite de turbulento sonho
Cruz-credo
O itaguarense
Transcende palavras
Fala por sorrisos aquiescentes e olhares exprobos
Mantém a fé na humanidade e a desconfiança em si próprio
E ora
Sem esperar milagres
Mas acreditando que os impossíveis se fazem quando se merece
Ou é tudo mistério do Deus
Supremos inexplicáveis
É preciso confiar no manto
Da santa que sofre e chora a dor da perda do filho
Que por acaso é Deus
Ser Itaguarense
É exceder-se algumas vezes
para equilibrar-se para o todo até o fim
Ser itaguarense é não ser melhor
Nem pior
É só ser
Ente
Ser itaguarense
É superar itaguarices
E Itaguarescer-se
Itaguarizar-se
É ter um pé no interior e outro na capital
E conservar a alma no interior
É viajar pensando em voltar
E sorrir sozinho despistado
quando a serra de Itaguara se descortina em pontinhos de luz:
Alá ó, Itaguara!
sexta-feira, 30 de novembro de 2018
Quando eu falo de corrida
![]() |
| Circuito das Estações 24/11/18 |
Compartilho, a seguir, artigo publicado no Jornal Cidades (edição: dezembro de 2018):
Quando eu falo de corrida *
Já que a principal temática do JC deste mês é saúde e longevidade, fiquei inspirado a escrever sobre uma atividade que mudou a minha perspectiva de vida e me fez um ser humano mais saudável, autoconfiante, disciplinado e melhor: a corrida de rua.
Comecei a praticar caminhadas médias (3 quilômetros ao dia) dos 12 para os 13 anos de idade, por recomendação médica – eu tinha um pequeno problema no joelho (algo decorrente da fase de crescimento juvenil) e estava totalmente proibido de jogar futebol. O ludopédio (é cada nome que inventam para o esporte nacional) era a minha primeira paixão esportiva como tinha que ser – aos 9 anos, vi a seleção de 94 conquistar o tetra e aquilo me deslumbrara como a todos de minha geração. Mas o futebol não era uma opção naquele momento e o médico foi categórico: “Apenas caminhadas e, mesmo assim, leves”.
Das caminhadas “leves” para a corrida foi um pulo. Achava um tanto quanto insosso ficar apenas caminhando, caminhando lentamente vendo as paisagens passarem... A vontade de correr foi um impulso natural. Nessa época, eu era um pré-adolescente gordinho e as corridas também começaram a fazer efeito: fui emagrecendo paulatinamente, ganhando autoconfiança e aumentando as distâncias. As caminhadas leves ficaram para trás e corria 6 km por dia.
Após quase um ano correndo, emagreci suficientemente e, milagrosamente, o meu problema de joelho simplesmente havia desaparecido. Mas, aos poucos, fui deixando de lado as corridas para voltar aos esportes coletivos: futebol, futsal e voleibol.
De volta a Itaguara (após morar uma década fora da cidade com minha família), aos 16 anos idade, a convite dos amigos da Acrita (Associação dos Corredores de Rua de Itaguara), voltei a praticar corrida de rua. Tomás, Reginaldo, Bila, Juarez e os outros corredores eram muito velozes e incentivam os mais guris como eu. Cheguei, naquela época, a conquistar um pódio (terceiro lugar na categoria 16-19 anos) nas célebres corridas na Avenida dos Andradas, em BH, que eram organizadas pelo Ricardinho (o popular Mister Bus) nas manhãs de domingo uma vez por mês. Foi naquele tempo também que corri a minha primeira Volta da Pampulha. Era 2001 e, apesar de correr com um tênis nada propício, completei os 18 km com cerca de 1h25.
Depois veio a faculdade, o trabalho e parei de correr por “imposições do tempo” - uma desculpa super esfarrapada porque quem quer acha tempo para o que realmente importa na vida – os psicólogos explicam muito bem). Fato é que a corrida havia deixado de ser uma prioridade.
Há uns seis anos, voltei a correr disciplinadamente. Tive de emagrecer muito, voltar a pegar o ritmo, re-acostumar o corpo. Agora, tomei uma decisão: Não paro mais de praticar corrida, a menos que alguma imposição natural da vida me impeça. Não é que tenha me tornado esportista profissional, muito longe disso (não dispenso, por exemplo, eventualmente, alguma bebida aos finais de semana), mas a questão fundamental é que a corrida me transformou em uma pessoa muito mais disciplinada, confiante, previdente e sensata.
No ano passado, um fraterno amigo, presenciando o meu entusiasmo existencial pela corrida de rua presenteou-me com um livro que recomendo fortemente a todos aqueles que correm ou desejam correr: “Do que eu falo quando eu falo de corrida”, de Haruki Murakami. O escritor japonês mudou totalmente a sua vida quando começou a correr. E ele já não era jovem! Iniciou com mais de 30 anos de idade e já completou várias maratonas. Hoje, aos 69 anos, o premiado literato ainda corre e muito: cerca de 10 km por dia e vive viajando e participando de provas ao redor do mundo (correu várias maratonas e ultra-maratonas).
Separei duas frases do Murakami, nessa obra literária supra comentada, para inspirar você leitor que, se chegou até aqui, no mínimo, se interessou pelo assunto e pode estar disposto a iniciar neste esporte altamente aprazível e realizador:
* “Não me levem a mal – não sou totalmente anticompetitivo. É apenas que, por algum motivo, nunca me importei muito se derroto os outros ou se perco deles. […] Interesso-me muito mais por atingir os objetivos que fixei para mim mesmo, de modo que, nesse sentido, corridas de longa distância caem como uma luva para uma disposição de espírito como a minha”.
* “Não interessa quanto eu fique velho, mas enquanto eu continuar a viver, vou sempre descobrir alguma coisa nova sobre mim mesmo.” É exatamente o que a corrida fez e faz comigo: a cada dia me entendo e me conheço melhor.”
PS: Ah, um conselho: antes de começar a correr, procure um médico, faça exames regularmente e sempre mantenha esse acompanhamento. Além disso, faça fortalecimento muscular numa academia. É absolutamente essencial.
* Alisson Diego Batista Moraes, 33, advogado, MBA em Gestão de Empresas (FGV) e acadêmico de Filosofia pela UFMG. Foi prefeito de Itaguara entre 2009 e 2016 e, atualmente, é secretário de Planejamento e Governo de Itaúna-MG. É também um entusiasmado corredor amador.
terça-feira, 27 de novembro de 2018
Congresso Mineiro dos Serviços Municipais de Saneamento em Itabirito
| Alisson Diego e Wagner Melillo - novembro de 2018 |
O 7° Congresso Mineiro dos Serviços Municipais de Saneamento aconteceu de 21 a 23/11, em Itabirito (MG), contou com a presença de gestores públicos, técnicos, estudantes e expositores que atuam na área de saneamento básico.
O presidente da Assemae Regional de Minas Gerais e diretor-presidente do SAAE de Itabirito, Wagner Melillo, ressaltou a necessidade de unir os municípios em busca da qualidade dos serviços de saneamento. “Estamos aqui para trocar experiências, conhecer novas tecnologias e fomentar soluções. É por meio dessa troca de conhecimento que vamos seguir em frente e conquistar o nosso espaço. Nós somos capazes de fazer saneamento básico com eficiência, investindo na capacitação e fortalecimento dos municípios”, frisou.
Representando a Presidência Nacional da Assemae, o vice-presidente da entidade, Alessandro Tetzner, parabenizou a iniciativa da Regional de Minas Gerais, ao mesmo tempo em que destacou a importância do evento para o avanço do saneamento municipal. “A Assemae está à disposição dos municípios no sentido de apoiar, fortalecer e capacitar os profissionais do setor. Nossa missão é estimular o protagonismo dos municípios na gestão do saneamento, reconhecendo a competência e dedicação dos gestores e técnicos locais”, acrescentou.
O secretário de Planejamento e Governo de Itaúna, Alisson Diego, prestigiou o evento e entregou uma carta com a intenção de Itaúna sediar o evento em 2019, que recebeu boa acolhida por parte da direção da Assemae Minas Gerais. "Parabéns Melillo e Itabirito pelo belo Congresso - oportunidade de congregar ideias em favor de uma gestão pública cada vez mais eficiente. Ao que tudo indica, Itaúna deverá ser a sede do Congresso Mineiro de 2019. Estamos felizes porque demonstra o protagonismo itaunense, em especial, do SAAE Itaúna - referência em boa gestão de saneamento em nosso estado", ressaltou Diego.
quarta-feira, 17 de outubro de 2018
Personagens da História Itaguarense: João Luis de Oliveira Campos
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| Tenente Coronel João Luis de Oliveira Campos |
João Luis de Oliveira Campos (*1834 + 1914) hoje é o nome de uma das cinco equipes de ESF (Estratégia de Saúde da Família) de Itaguara-MG. Ele faleceu há 114 anos, mas a sua história não pode ser esquecida e, por isso, compartilhamo-na aqui neste espaço (autoria da professora Maria Geralda Costa):
* * *
O Tenente Coronel João Luís de Oliveira Campos foi dono da Fazenda da Mata, cuja sede é hoje residência de D. Eneida de Oliveira Malta. A casa sofreu reformas, mas guarda a mesma estrutura. A parte de cima era a residência da família e a de baixo a senzala. Ele possuía muitos escravos. Embora fosse tido como “bom senhor de escravos”, meu avô, seu filho, dizia guardar tristes lembranças do tempo da escravatura. Lamentava ter vivido nessa época.
Ele casou-se em primeiras núpcias com Mariana Francisca de Paula, filha dos antigos donos da Fazenda do Pará. Portugueses, Coronel João Luis e D. Mariana tiveram os seguintes filhos:
- Cipriana Vilela de Oliveira Campos, nascida em 1871, esposa de Teotônio Rodrigues Pereira;
- Bárbara Vilela de Oliveira, esposa do primo, Coronel Joaquim Vilela Frazão, homem de muitos bens; não tiveram filhos. Seu testamento recomendava bens para construção de uma escola. É a nossa escola Coronel Frazão.
- Antônio Luis de Oliveira Vilela, esposo de Gabriela Luisa de Oliveira. Ele foi delegado, é o personagem "Major Anacleto", na obra de Guimarães Rosa. É tataravô do ex-prefeito Alisson Diego Batista de Moraes.
- Luis Vilela de Oliveira Campos (meu avô) cuja esposa Arminda Luisa de Oliveira era irmã de Gabriela.
- José Luis de Oliveira Vilela que se casou com Francisca Dias de Oliveira Leite, natural de Congonhas (avós de D. Hélia de Oliveira Vilela).
- Maria das Dores de Oliveira Campos (D. Dorica – patrona da casa de D. Dorica) esposa do farmacêutico Arthur Contagem Vilaça, natural de Crucilândia.
- Maria do Carmo Vilela Oliveira (bisavó da curadora do Musa - Maria Rita) , casada com Antônio Rodrigues de Oliveira.
O título de Tenente Coronel lhe foi conferido pelo Império. A patente e a espada doadas na época que recebeu o título estão com descendentes seus. A espada, com bisneto de Coronel Antônio Luis e a patente, com um bisneto de D. Cipriana.
Naquela época por aqui não havia médico e nem farmacêutico. Coronel João Luis cuidava da saúde de nosso povo (havia outros que faziam o mesmo). Dizem que seus remédios eram bem acertados. Quando alguém insistia querendo um diagnóstico, sua resposta era categórica. “Pode ser que seja e pode ser que não seja”! Conhecemos em Oliveira, D. Amanda que dizia ter sido curada por ele. Ela sofria algo nos olhos que muito a incomodava. Ele deu uma picada no seu dedo e com seu próprio sangue a curou! D. Amanda era uma velha ex-escrava.
Ele procurava estudar. Um de seus livros, Guia Pratico da Saúde, editado pela “Casa de Publicação Brasileira” de São Paulo, ainda existe e pertence hoje ao veterinário Fábio de Oliveira Ribeiro (bisneto). Tem-se a impressão que seu amor à medicina passou aos seus descendentes. São 24 os médicos de sua descendência .
Dezessete deles descendem do casal Cipriana e Teotônio. Também João Rodrigues que desempenhou cargos importantes na Arquidiocese de Belo Horizonte era filho deles. Os netos do Coronel João Luis e D. Mariana os chamavam de pai João (parecendo mais "Pajão") e Mãe da Mata .
O Coronel João Luis ficou viúvo em 02/02/1906. D. Mariana morreu aos 67 anos. D. Dorica ainda era solteira. Foi entregue pela mãe à irmã mais velha Cipriana. Era desejo de sua mãe vê-la casada com farmacêutico Arthur Contagem Vilaça, sete anos mais novo. Desejo realizado! D. Dorica era moça prendada. No colégio da tia Lilita em Oliveira, aprendera piano, pintura, etc.
Em julho, cinco meses após o falecimento da sua esposa, Coronel João Luis contraía novas núpcias com Belmira Ana de Oliveira, menina moça de 13 anos. Segundo recordações de familiares, ela possuía muitas jóias. Parece que o velho de 72 anos se encantara com a jovenzinha esposa!
Coronel João Luís adquiriu, no arraial, uma casa pertinho da matriz, onde hoje é pizzaria da praça. Ali viveu os seus últimos anos de vida. A casa passou a ser da viúva, D. Belmira. Faleceu aos 80 anos e foi sepultado no dia 10/12/1914 em Rio do Peixe, hoje Piracema. Não havia cemitério aqui. Os mais próximos eram os de Pará dos Vilelas e Piracema.
Dados colhidos no Livro: Genealogia de Carmo de Cajuru, de Oswaldo Diomar, lembranças de parentes e amigos. Em todos os lugares a palavra Luis apareceu com s e sem acento. Págs. 660 - 661
Maria Geralda Costa
Itaguara, 14 de outubro de 2013.
terça-feira, 9 de outubro de 2018
Sociólogo João Batista sobre o 2º turno
Compartilho a seguir as palavras do professor João Batista dos Mares Guias (em publicação em suas redes sociais), candidato ao Governo de Minas pela Rede Sustentabilidade, para auxiliar no aprofundamento do debate que nos espera neste segundo turno eleitoral:
* * *
Brasil:
minha posição pessoal sobre o segundo turno eleitoral entre Fernando Haddad (PT) versus Bolsonaro (PSL)
Leio nos jornais de hoje que Ciro Gomes, com o apoio do PDT, deverá declarar "apoio crítico a Haddad", no sentido de um "apoio protocolar, estabelecido que o partido não ocupará cargos em um eventual governo do PT, não participará da coordenação da campanha e fará oposição independentemente de quem seja eleito".
Como se lê, a posição é clara, é "contra Bolsonaro", é de apoio a Haddad, apesar do PT. É apoio a Haddad sem abdicação da crítica e do distanciamento face ao PT. Portanto, fixa com nitidez posição de independência e de oposição crítica e construtiva em relação ao PT e a um eventual governo do PT, com Haddad presidente.
Concorde-se ou não com ele, Ciro Gomes, penso, agiganta-se como líder político nacional. Em momento tão crucial para o futuro do país ele se expõe e oferece uma orientação geral ao país e aos seus liderados.
Já na seara do PSDB Geraldo Alckmin antecipa a sua posição: nem um, nem outro, isto é, em hora tão crucial, neutralidade! Será essa a posição do PSDB?
Em busca do desejado apoio do PSDB, em entrevista ao Jornal Nacional, da Globo, ontem, 08/10, Fernando Haddad facilitou ao PSDB uma tomada de posição semelhante à anunciada por Ciro Gomes. Defendeu programaticamente o ideário político e ideológico da socialdemocracia (do qual o PSDB há muito se afastou ou dele abdicou). Demonstrou-se disposto a uma aproximação virtuosa com o centro democrático. Disso ofereceu testemunho ao abandonar a tese lulista e do PT da defesa de uma Constituinte, severamente criticada por muitos e por mim devido à sua raiz ideológica autoritária. Além disso, estabeleceu o moderado senador eleito Jaques Wagner, ex-governador da Bahia, na coordenação geral da sua campanha, além de promover substituição oportuna no comando da equipe responsável pelo programa de governo. Introduziu na agenda econômica do PT a relevância do enfrentamento e superação da crise fiscal com medidas de reforma fiscal.
Os sinais favoráveis a uma aliança eleitoral rumo ao centro não poderiam ser mais explícitos. Haddad oferece, agora, as primeiras demonstrações de estar no comando da própria campanha.
Os sinais favoráveis a uma aliança eleitoral rumo ao centro não poderiam ser mais explícitos. Haddad oferece, agora, as primeiras demonstrações de estar no comando da própria campanha.
Bolsonaro versus Haddad e a tese da neutralidade ou "nem um, nem outro"
Há, estabelecido, um resiliente sentimento de anti-petismo visceral. Isso, por gravidade, canaliza apoios eleitorais a Bolsonaro resultantes apenas da negação do PT. Contudo, há também estabelecido um corpo difuso de valores, inclinações e disposições psíquicas e uma mentalidade em formação patentemente de extrema-direita e com forte viés fascista: o ideário comportamental, atitudinal e ideológico autoral do candidato Jair Bolsonaro.
Segue-se um resumo das características desse ideário:
i) supremacia masculina;
ii) intolerância e linguagem sentenciosa e peremptória;
iii) desprezo odioso à realidade humana demarcada pela diversidade em suas múltiplas expressões sociais: gênero, raça, orientações sexuais;
iv) culto à vulgaridade e anti-intelectualismo;
v) pensamento binário: tudo tem dois lados antagônicos, e nada mais, e a resolução passa necessariamente por uma relação de antagonismo cuja resolução se dá pela destruição do outro ( o "outro" sempre percebido e exaltado como "inimigo");
vi) valorização sistemática (coerente e consequente) das baixas paixões e dos instintos mais primários;
vii) desprezo ao diálogo, à busca do esclarecimento, à argumentação, à comunicação desimpedida e à formação de consensos verdadeiros (quer fixar consensos manipulados, fundados em premissas que nunca vão além de preconceitos e contra-valores civilizatórios);
viii) incitação verbal, gestual, comportamental e atitudinal à violência;
ix) culto à chefia salvacionista, vingativa e predestinada a "salvar" o país e o povo contra as forças do caos. Ordem versus pluralismo; comando versus liderança; obediência versus confiança; poder versus governo constitucional; intolerância face ao conflito democrático;
x) e, no extremo - aliás, manifesto - defesa da tortura ("o erro da ditadura foi não ter matado pelo menos uns 30 mil opositores" e o elogio ao torturador coronel Brilhante Ulstra), defesa da ditadura militar, culto à violência.
Como se quer demonstrar, Bolsonaro é a encarnação do autoritarismo, com forte inclinação ao totalitarismo fascista. Patentemente, uma ameaça em ato à democracia, vez que no exercício do "poder" seus contra-valores e - se desimpedidas de contenção - suas práticas tenderiam a fragilizar e a minar por dentro o estado de direito democrático, os valores democráticos e o republicanismo. Ainda que venha a alcançar o governo pelo voto em eleição limpa.
E Haddad e o PT?
O problema propriamente problemático é que Bolsonaro é o filho pródigo e de certo modo desejado-indesejado do próprio PT. Não irrompeu de um nada primordial. Antes, "floresceu" a partir de uma sucessão de graves erros cometidos pelo PT.
O PT escolheu o tortuoso caminho da destruição do centro democrático para conviver com o pântano de um "centrão" amorfo, corruptível, inorgânico e cooptável.
Primeiro, foi o "Nós contra Eles", patente no fato do PT dar entrada no Congresso Nacional a 49 pedidos de impeachment contra FHC. Isso, mais a oposição sistemática ao Plano Real, à ideia da responsabilidade fiscal, ao ajuste cambial e fiscal - tardios, praticados somente durante o segundo governo -, ensejou a organização, daí em diante desencadeada, da prática da política no país como antagonismo. Nos anos FHC, o PT ganhou a "batalha" ideológica contra um PSDB acovardado, incapaz de defender o seu próprio legado e ideias. Foi dada hora, vez e voz a uma espécie de "comunidade de ódios" recíprocos entre o PT e o PSDB, em um cenário de disputa bipolarizada e cada vez mais visceral.
Adiante, nos governos Lula ocorreram, primeiro, o "mensalão", a que se seguiu o silêncio obsequioso do PT, isto é, nenhuma autocrítica. Tão ruim quanto, fez-se a exaltação heroica de José Dirceu como "preso político", sendo ele réu segundo a lei penal por crime de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Surgia, assim, pela mão e intenção do PT, a "corrupção do bem"! Pois, e afinal, para derrotar a burguesia, somente recorrendo também às artes do demônio, racionalizavam, justificando-se! Por essa via tortuosa, o PT sacramentava o uso continuado e sistemático da corrupção.
Tanto foi assim que somente em 2014 o país tomaria conhecimento, através da Operação Lava Jato, de como, a partir de 2006, a corrupção organizou o poder e os governos do PT, além de financiar fartamente as campanhas eleitorais do partido.
A revolta popular pacífica de 2013 levou a sociedade às ruas. Com ela, pela primeira vez a extrema-direita, ainda meramente comportamental e difusa, contudo organizando-se, também foi às ruas e tomou gosto pelas ruas. Aprendeu o caminho, construiu espaço e encontrou razões para ousar expandir. No ano anterior ocorrera o julgamento do caso "mensalão". No ano seguinte, 2014, começava a maior crise de recessão da história da economia brasileira, produzida pela ideologia a partir da onipotência da vontade da presidente Dilma Rousseff. O ano de 2014, crucial, foi, também, o ano do surgimento da Operação Lava jato e das primeiras e graves denúncias da corrupção do PT. Foi, também, um ano eleitoral.
Na sequência, estabelecida a crise econômica, aproveitada pela extrema-direita como caldo de cultura para a política do tudo ou nada, por sua vez o PSDB inaugurava a sua própria versão do "Nós contra Eles", em quatro atos.
Primeiro ato: Aécio Neves, derrotado, questiona os resultados da eleição presidencial. Segundo ato, em 2016, segue o PMDB e decide o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Terceiro ato: a corrupção do PSDB começa a ficar patente, estampada pela Lava Jato. Quarto ato: PSDB, PMDB e PT fazem acordos de mútua salvação no Congresso Nacional e tentam inviabilizar a progressão da Lava Jato. Felizmente sem êxito.
É nesse ambiente de progressão continuada de fatos sombrios que emerge e depois irrompe um Bolsonaro como líder autoritário e a extrema-direita, em organização.
Haddad é PT. Tem personalidade própria, patente no exercício do governo municipal em São Paulo, quando frequentemente ele contrariou interesses fisiológicos de grupos do PT. A propósito, fez um bom governo em São Paulo. Não está envolvido em corrupção e nada pesa contra ele. Contudo, manteve-se em estado de silêncio obsequioso face à progressão continuada de erros do PT.
Seja como for, ele é melhor do que o PT tem se demonstrado. Mas não basta. Com efeito, até então apresentou-se como uma nova encarnação do lulismo. Oferece, agora, os primeiros passos de emancipação rumo à afirmação da sua personalidade própria de líder político, que é.
E então: que posição tomar nesse segundo turno?
Concretamente:
i) meu voto será em Fernando Haddad. Votarei pela liberdade, pela democracia (infelizmente não pode ser pelo republicanismo, pois o PT nada tem de republicano), pela reconstrução do humano. Contudo, sem entusiasmo, sem paixão, sem afinidades eletivas fortes, cético face a um eventual futuro governo do PT;
ii) de modo semelhante à posição de Ciro Gomes, penso que a Rede não deverá participar de um eventual governo Haddad. Antes, deverá se manter na oposição ao governo do PT como oposição construtiva, assertiva, oferecendo crítica e soluções. Mas sem participar do governo. É assim que pessoalmente procederei, longe do governo e do poder, em oposição construtiva;
iii) penso que a Rede deverá persistentemente cobrar do PT e do candidato Haddad uma autocrítica dos erros do PT e uma atitude firme contra a corrupção e uma manifestação inequívoca de apoio à Operação Lava Jato.
É o que penso e ofereço à Rede para reflexão. Seja como for, como nessa questão está envolvida centralmente uma questão irrevogável de valores humanos fundamentais, é assim que votarei, na esperança de que seja essa a decisão nacional da Rede.
Desejo que ele ponha fim à face sombria do lulismo.
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