Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

135 Anos de República e o Legado Vivo de Dom Pedro II

Há 135 anos, um golpe de Estado proclamou a República no Brasil, substituindo a monarquia por um novo regime que prometia justiça, liberdade e representatividade. A Proclamação da República ocorreu sem o apoio popular, guiada por interesses das elites agrárias e militares, que viam na transição uma oportunidade de reconfigurar o poder em benefício próprio. Sem grandes transformações para as massas, a monarquia de Dom Pedro II deu lugar a um governo republicano comandado inicialmente pelo Marechal Deodoro da Fonseca, e logo depois pelo Marechal Floriano Peixoto. Nos anos subsequentes, o Brasil experimentaria uma República oligárquica, ainda distante dos ideais democráticos e inclusivos que os republicanos almejavam.


Não estou, no entanto, a defender a monarquia; todavia é inegável a importância histórica e a figura de estadista de Dom Pedro II. Um homem que literalmente deu sua vida pelo Brasil, governando com dedicação, inteligência e visão. Em Imperador Cidadão, o historiador Roderick J. Barman reconstrói a vida desse monarca que assumiu o trono aos 15 anos, após anos de preparo e disciplina, carregando nos ombros a tarefa de liderar uma nação fragmentada e recém-independente. Dom Pedro II era, ao mesmo tempo, conservador e progressista. Um líder centralizador, que administrava com firmeza e controle, mas que também sonhava com um Brasil interligado por ferrovias, educado e industrializado. Seu governo promoveu avanços em infraestrutura e educação, trazendo o Brasil para mais perto dos ideais de modernidade que ele tanto admirava.


Essa visão de progresso, porém, coexistia com concessões às elites agrárias, especialmente aos cafeicultores, cujos interesses dominavam a economia nacional. José Murilo de Carvalho, um dos mais respeitados historiadores do Brasil, observou que Dom Pedro II era, acima de tudo, um “imperador cidadão”, mas suas prioridades nem sempre iam ao encontro das necessidades populares. Sua monarquia, embora progressista em vários aspectos, hesitou em enfrentar diretamente o poder dos latifundiários e perpetuou estruturas de dominação social e econômica.


A idade avançada e a saúde debilitada de Dom Pedro II contribuíram para o fim de seu reinado. Em 15 de novembro de 1889, ao receber, no Palácio Imperial de Petrópolis, o telegrama urgente de seu presidente do Conselho de Ministros, o Visconde de Ouro Preto, Dom Pedro II percebeu a gravidade da situação do motim militar que almejava destituir a monarquia. Manteve a calma e seguiu com sua rotina. Visitou a estação ferroviária, foi à catedral com sua esposa para uma missa e, após ler um novo telegrama de seu premiê, decidiu partir para o Rio de Janeiro. Durante todo o trajeto, o imperador manteve-se sereno, acreditando que a crise era apenas “fogo de palha”.


Outro fator importante foi a questão de sua sucessão. A Princesa Isabel, vista como excessivamente conservadora, fervorosamente religiosa e inábil para a política, era a herdeira direta. Barman a descreve como inadequada para o comando, e sua imagem pública, marcada pelo conservadorismo e pela relação com um estrangeiro – o Conde d’Eu –, aumentou a desconfiança das elites. Essa falta de apoio para uma sucessora viável acelerou o desejo de uma mudança de regime entre os militares e republicanos.


A deterioração do apoio ao regime monárquico foi agravada pela abolição da escravidão em 1888. A sanção da Lei Áurea por Isabel causou grande insatisfação entre os fazendeiros, que “dependiam da mão de obra escrava e viram seus lucros ameaçados”. Muitos latifundiários, outrora defensores do Império, passaram a apoiar a causa republicana ou, ao menos, tornaram-se indiferentes ao futuro do regime. A abolição, sem políticas compensatórias, deixou uma grande parcela da população negra em situação de abandono e exclusão, o que contribuiu para as tensões sociais e serviu como mais uma sombra sobre o fim da monarquia. Esse é, aliás, um trágico marco imperial. O Brasil deveria ter sido pioneiro e decretado o fim da escravatura muito antes.


Outro episódio que acelerou a queda do Império foi a progressiva militarização da política brasileira. A Guerra do Paraguai (1864-1870), liderada por Dom Pedro II, consolidou o Exército como uma força independente e politizada, marcando o início da interferência militar nos assuntos civis, algo que se tornaria frequente ao longo da história republicana do Brasil. O papel de figuras militares, como o Marechal Deodoro e Floriano Peixoto, foi decisivo na Proclamação da República, mas também evidenciou um problema estrutural que a República herdaria: a dificuldade de limitar a atuação das Forças Armadas na política nacional. O movimento republicano, que culminou na deposição de Dom Pedro II, teve menos a ver com um ideal democrático e mais com uma articulação de poder entre elites civis e militares.


Após ser deposto, Dom Pedro II partiu para o exílio na França, onde viveu em modéstia e exerceu atividades intelectuais, chegando a dar aulas e a se envolver em atividades acadêmicas. Ele faleceu em Paris, em 5 de dezembro de 1891, em um modesto quarto do Hotel Bedford, cercado de poucos amigos e da fiel lembrança de um Brasil que nunca deixou de amar. Em seu leito de morte, segurava um crucifixo, um presente do Papa, e descansava sobre um travesseiro com terra de todas as províncias brasileiras, simbolizando seu eterno vínculo com a nação que serviu até o fim. Sempre que visito Petrópolis, sinto-me compelido a homenageá-lo visitando o Museu Imperial, um dos museus mais importantes e emocionantes do Brasil. Ali, reverencio a memória de Dom Pedro II e relembro o legado complexo e contraditório desse imperador que dedicou sua vida ao país.


Celebrar a República é celebrar um ideal de justiça e cidadania. Mas é essencial lembrar que a República não foi construída do zero. Ela nasceu de um regime que, apesar de suas limitações, moldou o caráter político do Brasil. Dom Pedro II, com todas as suas virtudes e contradições, deixou um legado que influencia até hoje nossa cultura política. Sua visão de um Brasil moderno, embora incompleta, abriu caminhos e projetou sonhos que, por vezes, a República ainda luta para alcançar.


Ao relembrar esses 135 anos da Proclamação da República, é justo refletir sobre os erros e acertos de nossa história. Dom Pedro II, o imperador que se via como “primeiro cidadão”, governou com um compromisso inquestionável com o Brasil, mas também com limitações que refletiam o contexto de seu tempo.


Que a República se efetive com inclusão, liberdade e justiça social, mas sem apagar a memória de um homem que dedicou a vida ao país. Afinal, o verdadeiro progresso se faz com memória e com a capacidade de aprender com o passado – para que, um dia, o Brasil se torne, de fato, uma república de todos. Rememorar Dom Pedro II é fundamental para compreender os alicerces da nossa nação e projetar os desafios seculares que nos são legados.

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Desfazendo mitos: Bolsonaro inventou a direita no Brasil?

Alisson Diego *

Passadas as eleições, a euforia pós-vitória daqueles que votaram 13 e o desconsolo da derrota dos que apertaram 22, é chegada a hora de fazermos uma reflexão, afinal, como nos ensinou o ateniense, Sócrates, há mais de 2 mil anos: “Uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida”. 

A reflexão individual deve ficar por conta de cada um. Aqui, farei uma reflexão coletiva, mirando a nossa sociedade a partir de questionamentos que viralizaram durante o processo eleitoral.

Foto panorâmica do Palácio do Planalto, sede do Poder Executivo
 brasileiro. / Créditos: Francisco Domingos, 2018 - Pixabei.

Hoje, darei início a uma série de artigos para tratar de alguns “mitos” que se espalharam de maneira dramática nestas eleições. Assustei-me tanto com tudo que vi, ouvi e li neste período eleitoral que decidi escrever sobre questões que podem ser consideradas triviais. Mas em tempos estranhos, dizer o trivial é uma necessidade improrrogável. Vamos lá! Comecemos com esta pergunta: 


  • O Brasil sempre foi de esquerda e Bolsonaro foi o único presidente de direita da história do nosso país?


Essa é uma questão muito fácil de responder, mas que confundiu muita gente durante essas eleições. A resposta é não. Bolsonaro não é o único presidente de direita na história deste país. Ao contrário, a direita dirigiu majoritariamente a política brasileira. 

Façamos uma análise sobre os governos e períodos históricos brasileiros avaliando as orientações ideológicas de cada um. Serei breve, mas abordarei os aspectos que considero mais importantes. 

De 1889 até 1894, o país esteve sob o comando dos marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, num período conhecido como República da Espada. Estes anos estão inseridos no que se convencionou denominar “Primeira República”, que se estende até 1930. De 1894 a 1930, portanto, a nação foi liderada por conchavos oligárquicos sob a batuta da Política do Café com Leite. Onze presidentes governaram a nação nessas 3 décadas e meia (de Prudente de Morais até Washington Luís). Os três conceitos que retratam esse período são: mandonismo, clientelismo e coronelismo. Domínio claríssimo da direita. 

De 1930 a 1945, período denominado de Era Vargas pelos historiadores, o gaúcho Getúlio Dornelles Vargas governou a nação. O líder sulista teve 2 momentos distintos na presidência: um ditatorial e outro democrático (1951-1954). Em ambos, ele nunca se considerou “esquerdista”. Pelo contrário, Getúlio colocou na ilegalidade o único partido de esquerda do país naquela ocasião: o PCB. Em que pese isso, atualmente muitos pesquisadores (também intelectuais e políticos do campo progressista) reconhecem o legado nacionalista, trabalhista e modernizador de Vargas como essencial para romper com as oligarquias e com o coronelismo brasileiros, além dos inegáveis avanços sociais. O governo Vargas definitivamente não pode ser caracterizado como de esquerda.

Eurico Gaspar Dutra sucedeu Vargas e deu início ao período histórico intitulado “Quarta República” (1945-1964). Era militar e jamais pode ser considerado de esquerda. Inclusive, determinou a cassação dos mandatos dos parlamentares do PCB. Posteriormente, abandonou o partido pelo qual presidiu a república, o PSD (partido que tampouco pode ser considerado de esquerda), para se filiar à Arena (agremiação de apoio ao regime militar). Vargas voltou ao poder, democraticamente, em 1950 pelo movimento trabalhista que, como dito anteriormente, pode até possuir um olhar generoso  por parte da esquerda contemporânea, mas isso não faz dele necessariamente um “esquerdista”. Mais uma vez, houve, então, um domínio da direita no período mencionado. 

Juscelino Kubitschek também pertencia ao PSD e sucedeu Vargas após seu dramático suicídio. JK, cuja habilidade política é até hoje reverenciada, governou entre 1955 e 1960, conseguiu fazer um mandato unionista, essencialmente democrático, com quadros políticos e técnicos à esquerda e à direita (Celso Furtado e Roberto Campos  trabalharam lado a lado). JK é retratado pelos historiadores como um típico político centrista. E é bom lembrar: em 1964, como senador pelo estado de Goiás, JK votou a favor da deposição do presidente João Goulart (PTB), o que deu início ao governo ilegítimo de Castelo Branco e o decorrente regime militar. Na era JK, houve  um domínio do centrismo, portanto. 

Jânio Quadros, governador de SP, cumprimenta o presidente JK em 1958.
Dois anos depois, o presidente passaria a faixa presidencial ao governador -
Créditos: Domício Pinheiro / Estadão.

https://fotos.estadao.com.br/fotos/acervo,janio-quadros-e-juscelino-kubitschek,608378

Jânio Quadros foi o sucessor de JK. Era de uma aliança que incluía a UDN, partido que representava a mais típica direita brasileira naquele período. Após a sua renúncia tragicômica, assumiu João Goulart, do PTB, que pretendia realizar as reformas de base, dentro do capitalismo brasileiro, sob inspiração do nacional desenvolvimentismo, com o apoio da burguesia nacional. Talvez ele até possa ser considerado “de esquerda” (embora eu pense que se trata de anacronismo), até porque recebeu certo apoio do PCB à época, mas frise-se: Goulart nunca flertou com a “revolução” ou com o  “comunismo”. O escritor Juremar Machado da Silva, autor de dois livros sobre Jango, retratou muito bem aqueles tempos: “Procurei freneticamente algum indício de que havia uma ameaça comunista real rondando o país. Não encontrei. Busquei com a mesma obsessão alguma evidência de que o presidente João Goulart tinha pendores comunistas. Não achei. Jango nunca foi comunista. Não pretendia implantar o comunismo no Brasil. Queria fazer as reformas capazes de alavancar o capitalismo numa economia atrasada.”

Após Jango, veio a ditadura (1964-1985). Os presidentes foram: Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo. Eram militares muito diferentes de muitos daqueles que, há pouco, apoiaram o bolsonarismo. Sustentaram uma ditadura condenável, inegavelmente, mas não se pode taxá-los de entreguistas ou neoliberais como os chilenos comandados por Augusto Pinochet. Amplo domínio da direita, uma vez mais. 

Em 1985, houve a retomada da democracia (inaugurando o período que vivemos até hoje, denominado Nova República), com a ascensão e morte de Tancredo Neves, e o consequente advento do vice-presidente, José Sarney, assumindo o comando da nação. Nem o mais enviesado analista poderia descrevê-lo como progressista. Há até quem demarque a era Sarney como o despertar do neoliberalismo brasileiro e do desmonte das políticas sociais. Embora a Constituição Federal tenha nascido neste período, o próprio presidente teceu várias críticas ao teor social da nova Carta Magna. 

O governo Collor, por sua vez, dispensa comentários. Foi a direita da direita. Itamar Franco, ao sucedê-lo após os escândalos de corrupção, era, ao estilo JK, um centrista convicto. O ministro da Fazenda de Itamar, após o grande sucesso do Plano Real, tornou-se presidente: FHC era um dos mais respeitados intelectuais de seu tempo. Possuía, de fato, origens acadêmicas progressistas, mas, alçado à presidência, compôs com o PFL, maior expressão da direita brasileira na ocasião (partido do vice-presidente, Marco Maciel) e herdeiro do espólio direitista da UDN e da Arena.  Oito anos (1994-2002) de domínio da centro-direita, uma vez mais. 

Após esse fio histórico presidencial, resta claro que não houve de 1889 até 2002, nenhum presidente efetivamente de esquerda neste país, à exceção de Jango, mas com muitas reservas. Em 2002, aí sim, Lula inaugura um inédito governo de centro-esquerda, frise-se: centro-esquerda. A composição com o senador José Alencar, representante do empresariado mineiro, trouxe a união do capital com o trabalho, garantindo governabilidade e apoio do mercado ao novo governo. Após Lula (2003-2010), o governo Dilma (2011-2015) também é considerado de centro-esquerda, embora tenha emitido sinais econômicos ambíguos (todavia, um governo não deve ser qualificado como de direita ou de esquerda apenas pelo viés das políticas econômicas).

Com Michel Temer e sua concertação de centro-direita que promoveu o golpe parlamentar, o Brasil assistiu ao fim do diminuto período de centro-esquerda que vigeu  no país entre 2003 e 2015. Sob Bolsonaro (2019-2022), o país assistiu a um cenário absolutamente inaudito. Não se tratou da “volta da direita”, mas da reafirmação de uma “nova direita” em sintonia com um movimento internacional, cujos maiores expoentes foram Donald Trump (EUA), Rodrigo Duterte (Filipinas) e Viktor Orbán (Hungria). Uma direita que os estudiosos qualificam como extrema, radical, ultranacionalista, valendo-se de teorias conspiratórias e disseminação de fake news

A conta, portanto, é muito fácil: em 133 anos de república (38 presidentes), foram ao menos 112 anos de governos de direita ou centro-direita (34 presidentes). Isso numa conta generosa porque estou considerando JK e Jango como governos de “centro-esquerda”. A direita, como se nota, dominou o nosso país em 85% da história republicana. Se desconsideramos JK e Jango,  a direita governou este país em 90% do tempo. 90%!!! 

Por tudo isso, fiquei perplexo e escandalizado quando ouvi, durante a eleição, frases do tipo: “a direita agora nasceu no Brasil”. Atribuem esse “nascimento” a Bolsonaro. Uma frase absurda dita por gente ignorante ou ingênua. Invertendo a pergunta que inspirou este artigo, o que se pode dizer é: a esquerda nunca governou este país, até a ascensão de Lula. Ele e Dilma foram os únicos presidentes efetivamente de esquerda da história deste país (e sequer fizerem governos esquerdistas, mas de centro-esquerda com amplas coalizões partidárias, incluindo partidos de centro-direita). 

O que Bolsonaro deu origem é à denominada “ultradireita” ou “extrema-direita”. Mas isso já é tema para o próximo artigo, porque esse já ficou grande demais. 

Por enquanto, é isso. 

Até a próxima edição! 

PS: Leia, estude, dialogue sem intolerância, informe-se. A realidade está muito além do WhatsApp e das redes sociais.


*Alisson Diego Batista Moraes, 37, advogado, filósofo e professor. Mestre em Ciências Sociais. Foi prefeito de Itaguara-MG entre 2009 e 2016. Atualmente, é secretário de Fazenda de Nova Lima-MG

** Artigo publicado na edição de novembro de 2022 do Jornal Cidades.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Homenagem à Maria Geralda Costa

A seguir, compartilho texto escrito para um livro organizado pela presidente da Casa de Dona Dorica, Maria Luiza da Silveira, e pelo bispo da Diocese de Oliveira-MG, Dom Miguel Ângelo Freitas Ribeiro, em homenagem à educadora itaguarense Maria Geralda Costa.


O maior legado é a inspiração *


Lançamento de O Tempo e as Estrelas em 2014

Era um friorento anoitecer de um sábado julino em Itaguara. O ano era 2001 e, naquela época, acontecia o I Festival de Inverno. Aos 16 anos de idade, eu atuava, como membro do Grupo Municipal de Teatro Vidas em Artes, em uma peça teatral que retratava aspectos pitorescos da vida de João Guimarães Rosa em Itaguara. A autora do roteiro era justamente Maria Geralda Costa.    O local escolhido para a encenação não havia sido o mais adequado: uma tenda simples e sem fechamentos laterais, instalada na parte de cima da Praça da Matriz. Além de a acústica não favorecer, havia uma competição sonora entre nossas vozes e os múltiplos ruídos dos bares.

Por essa razão, tivemos, todos os participantes daquela peça, de aumentar consideravelmente o nosso tom de voz, de modo que precisávamos quase gritar para que fôssemos ouvidos pelo público. Por força do destino ou forçada coincidência, a personagem que eu interpretava era o meu bisavô, João Batista da Silveira, que havia sido amigo e paciente do jovem Doutor Rosa nos anos 30. Um homem de poucas e assertivas palavras, um contemplador de silêncios – assim o conheci, uma paradoxal imagem da interpretação que eu imprimi ao personagem naquele sábado. 

Dona Maria Geralda Costa, que estava assistindo àquela apresentação, não gostou nada do que testemunhou e teceu críticas veementes, tanto ao corpo de atores quanto à prefeitura. Lembro bem de suas palavras: “O seu bisavô jamais esbravejaria como você nesta peça. Era um homem que falava baixo e educadamente. Vocês todos estão mais para uma banda de rock do que para um grupo de teatro. Deveriam refazer essa apresentação.

Alguns reclamaram do tom da crítica, mas eu a levei como uma observação construtiva. O prefeito Bira e a secretária de Cultura, Terezinha Mary, ouviram também as críticas e interpretaram-nas como uma necessária correção de rota daquele festival. Eventos teatrais não poderiam, de fato, rivalizar com bares e precisariam de local e horários mais apropriados.

A peça foi reapresentada dias depois, no Salão Paroquial, ainda dentro das programações daquele pioneiro festival. Ao fim da reapresentação, as palavras de Dona Maria foram: “Agora ficou ótimo. Atores calmos e falas serenas. Vocês retrataram muito bem as personagens e o tempo histórico. Honraram a alma de Guimarães Rosa, João Batista, Pedro Silva, Antônio Moraes e os demais personagens. Estou muito orgulhosa de vocês. Eu sei ser crítica, mas também sei ser elogiosa”.

Havia muitas maneiras de homenagear a Maria Geralda Costa, mas quis contar essa história porque ilustra muito bem a personalidade forte ladeada pela generosidade compreensiva que ela possuía. Jamais elogiava por elogiar, mas jamais deixava um elogio sincero passar. Era mulher de fé, de caráter sóbrio, de alma rara, de coração puro e de posições firmes. Sobre sua fé cristã, Maria Geralda jamais a desvencilhou de sua existência. Sua atuação comunitária é, até hoje, um inequívoco exemplo para toda a Diocese de Oliveira. Lembro-me de encontrar com ela, já octogenária, algumas vezes, aguardando o ônibus para Oliveira, a fim de conversar com o Dom Miguel assuntos referentes à Pastoral da Criança. Do mesmo modo, participei, ao lado dela e de Maria Luiza, de dezenas de reuniões e celebrações na Casa de Dona Dorica. Onde houvesse um bom projeto filantrópico e humanista, lá estava Dona Maria Geralda Costa.

Dos tempos em que fui vereador e prefeito, guardo ainda muitas recordações de Dona Maria, como quando me presenteou com um livro: A Doutrina Social da Igreja; o regalo veio acompanhado de uma longa conversa a respeito dos descaminhos políticos de nosso tempo e do individualismo que corroía as relações sociais e dinamitava o sentimento de comunidade. Diagnósticos feitos, compartilhávamos de uma mesma certeza: apesar de tudo, não poderia haver espaço para o pessimismo. Construir uma cidade e um mundo melhores dependiam de nossa ação na Terra e era isso o que deveríamos fazer até o fim de nossos dias. Foi exatamente isso o que ela fez.

Maria Geralda Costa deixou o maior legado que se pode deixar neste planeta: a inspiração.


* Alisson Diego Batista Moraes  

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Reflexões necessárias: quatro anos depois

Posse como prefeito de Itaguara-MG, em janeiro de 2009,
aos 23 anos de idade. O mais jovem prefeito da esquerda brasileira
naquela ocasião e um dos 10 prefeitos mais jovens do Brasil.


Ainda hoje, algumas pessoas indagam-me sobre as razões que me fizeram desfiliar do Partido dos Trabalhadores, conjecturando se houve mágoas, dissensos ou rancores. Passados mais de quatro anos desde o meu desligamento da legenda, acredito que já é hora de falar sobre o assunto, o qual, para mim, jamais foi considerado tabu. 

Quem acompanhou de perto a minha vida pública sabe que sempre manifestei discordâncias em relação à direção nacional do Partido dos Trabalhadores que, em vez de estabelecer punições exemplares aos filiados e mandatários comprovadamente envolvidos em casos de corrupção (com a expulsão sumária nas situações mais graves), optou pelo caminho da autopreservação de seus quadros, o que gerou, gradualmente, a rejeição da ampla maioria da população brasileira e fortaleceu o moralismo verborrágico patrocinado oportunisticamente pela autoproclamada  “nova direita”. 

Com a reeleição da ex-presidenta Dilma Rousseff (a qual apoiei dedicadamente em 2014) e o agravamento da crise econômica, política e social, as contradições, antes submersas diante dos êxitos das políticas públicas e econômicas, emergiram notoriamente. O fato era que, naquele momento, em fins de 2014 e início de 2015, o Brasil estava diante de dois polos assombrosos. De um lado, veio à tona o estelionato eleitoral patrocinado por Dilma (tampando o sol com a peneira sobre a real situação econômica do país, escondendo a crise ao passo que optava por uma mambembe ortodoxia econômica). De outro lado, estava o golpismo de Aécio, que passou a conspirar contra a democracia desde o dia em que sua derrota foi selada nas urnas. 

Diante desse impasse tártaro, minha angústia chegou aos níveis mais elevados possíveis e apenas não tomei a decisão de deixar o PT logo após os primeiros descaminhos de Dilma no segundo governo, por absoluto respeito e lealdade aos companheiros e companheiras do PT de Itaguara e pela sordidez e velhacaria que compunham as forças antidilmistas. 

Rememoro ainda que, apesar de o segundo governo Dilma ter sido acentuadamente frustrante, como prefeito à época e como liderança do partido, manifestei-me abertamente contra o impeachment, uma vez que inexistia crime que o justificasse e como bem lembrara o Ciro Gomes: “Impeachment não pode ser remédio contra governo ruim”. 

Aquela seria uma boa hora de o PT fazer uma autocrítica e se dirigir ao povo brasileiro com transparência e humildade, propondo uma mudança estrutural, tanto do partido quanto do sistema político perverso que engendrou o presidencialismo de coalização nas últimas décadas (o presidencialismo de coalização foi capaz de trazer conquistas importantes para a sociedade brasileira - controle inflacionário e diminuição da desigualdade social, mas o modelo se esgotou com o loteamento de cargos, o fisiologismo reinante e a corrupção como consequência sistêmica). Dilma e o PT, entretanto, prefeririam se entrincheirar e nada de novo foi proposto. Infelizmente. 

Muitos correligionários, naquele momento e ainda hoje, advogavam a tese segundo a qual o PT teria sido apenas vítima de um consórcio nefasto da elite brasileira e que o Poder Judiciário foi o protagonista de uma união com setores políticos com o único objetivo de encarcerar Lula e perseguir o PT. Nunca concordei integralmente com essa tese e o puro vitimismo de ocasião, aliado ao messianismo lulista implodiram as minhas esperanças em vislumbrar uma reforma sistêmica do partido no qual iniciei minha militância ainda na adolescência. 

Se, por um lado, pode-se afirmar a existência, em algum grau, de lawfare (uso do sistema jurídico como parte de uma estratégia contra adversários — o que está claro com a Vaza-Jato, graças ao trabalho jornalístico investigativo do The Intercept), por outro, não se pode admitir que todos os escândalos e processos possam ser enquadrados como práticas de lawfare. Aconteceram desvios graves que ensejariam uma autocrítica sincera e um pedido de desculpas ao povo brasileiro para, a partir daí, iniciar uma reconstrução partidária com bases éticas e participativas. Bases que, no início do partido, fizeram com que intelectuais respeitados como Paulo Freire, Maria Victória Benevides, Paul Singer, Marilena Chaui, Frei Betto, Sandra Starling, Francisco de Oliveira, Francisco Weffort, Plínio de Arruda Sampaio e Florestan Fernandes estivessem ao lado de trabalhadores, membros da Igreja Católica, sindicalistas, representantes de inúmeros movimentos sociais, setores progressistas e tantos outros setores esquecidos e/ou marginalizados, para a criação de um histórico movimento de inclusão e integração da sociedade brasileira. 

Ao cenário distópico e desesperançado dos anos de 2014/2015, somou-se um fato importante: como estava encerrando o mandato como prefeito, fui aconselhado a não manter filiação partidária por um tempo, uma vez que haveria a possibilidade de que eu trabalhasse com agentes públicos dos mais variados partidos na instituição financeira à qual sou vinculado. Após deliberações com o banco, optou-se por realizarmos uma cessão funcional a um ente público. Assim, assumi, em janeiro de 2017, a direção-geral do SAAE Itaúna, uma das 20 maiores autarquias municipais de saneamento básico de Minas Gerais - como se tratava de uma função eminentemente técnica, não caberia também filiação partidária, ao menos naquele momento. 

Após a derrota da legenda em Itaguara nas eleições de 2016, fui acusado de ter “boicotado o partido” naquele processo eleitoral (o que teria incitado, inclusive, um suposto processo disciplinar). Isso não é verdade! É descabido se falar em boicote. A grande questão era que eu, enquanto prefeito reeleito, tinha uma cidade para governar num ano terrivelmente problemático e afetado pela crise econômica com quedas recordes de arrecadação municipal. Diante deste cenário, não haveria condições de me envolver satisfatoriamente no processo eleitoral e meu objetivo precípuo era encerrar bem a gestão que se iniciara em 2009. E encerramos muito bem, afinal, com mais de 80% de aprovação por parte da comunidade itaguarense, com dinheiro em caixa e a prefeitura saneada. Quanto a essas injustas acusações de “boicote”, jamais contra-ataquei. Ao contrário, ponderei, pois entendi ser algo do “calor do momento” e, de coração, relevei em nome de uma longa e bela história que selou primorosas amizades, acima de quaisquer discordâncias ou distintas visões de mundo. 

É importante dizer de maneira inequívoca que a história do Partido dos Trabalhadores em Itaguara é profícua, com relevantes serviços prestados à comunidade itaguarense. Quando se fala do PT de Itaguara (deixando de lado as questões nacionais), fala-se, majoritariamente, de gente de bem, que sempre se envolveu com as questões comunitárias por genuíno senso de responsabilidade ético-social. Assim é quando se mencionam estes nomes: Hércules, Edileno, Marcilene e família Vilaça, José Geraldo, Gislande e família, Anésio, Geraldo Manoelino (o Bal), José Antônio de Castro, Camilo Leão, Nilo e Nilo Jr, Bete, Renaldo, Dalva e família, Maria Antônia, Tácio e família, José Maurício e família, Pedro Cássio, Madalena, Maria Rita, Elton Borges, Bruno, Gegê, Sônia Gonçalves, Jesus Moura, Glauco Ramos, Donizete Moura, Totonho e José Penido (os dois últimos in memorian) e pessoas que deixaram o partido, mas que registraram as suas contribuições na construção do projeto coletivo como o professor Cassinho, o Anderson Sansão, o Pedro Ribeiro, o Oliveiros Vilela, a Fabiana, a Karla, a Ceci Maria, a Sandra Freitas, o Marcelo, o Geovanni, dentre outros valorosos quadros (peço perdão a quem me esqueci de mencionar - este artigo foi escrito num átimo de inspiração, entremeio aulas do mestrado e conferência de artigos, e, fatalmente, de alguém devo ter esquecido). 

Por fim, rememoro as lições de vida e de governança do ex-presidente uruguaio e agora ex-senador, José “Pepe” Mujica, que acaba de se retirar da vida pública, após décadas de trabalho coletivo. Aos políticos brasileiros, sobretudo aos “lá de cima”, têm faltado a grandeza, a sabedoria e a humildade de Mujica, que passou de combatente tupamaro a um dos maiores estadistas de nosso tempo, referência democrática e líder da nação uruguaia na construção de um estado de bem-estar social, sem abrir mão da conciliação nacional. 

Pepe, mesmo quando era o líder de sua nação, jamais cedeu ao espírito perdulário, à ganância e às fatuidades do poder. Sempre viveu na simplicidade de sua gente, nunca se apegou às benesses da vida pública e fez de sua existência o retrato fiel de suas convicções. Sorte dos uruguaios. Mujica deixa um legado imensurável na política! Em sua última manifestação no Senado uruguaio, ele disse: “No meu jardim, há décadas não cultivo o ódio. Aprendi uma dura lição que a vida me impôs. O ódio acaba deixando as pessoas estúpidas. Passei por tudo nessa vida, fiquei seis meses atado por um arame, com as mãos nas costas, fiquei dois anos sem ser levado para tomar banho e tive que me banhar com um copo. Já passei por tudo, mas não tenho ódio de ninguém e quero dizer aos jovens que triunfar na vida não é ganhar, mas sim se levantar toda vez que cair.” Que aprendamos a nos levantar, sempre! E que miremos no exemplo pacificador e solidário de Pepe.


* Alisson Diego Batista Moraes.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

135 anos do nascimento de Arthur Vilaça: Um grande benemérito de Minas Gerais


Há 135 anos nascia um dos grandes ícones de nossa história regional. Nosso papel é relembrar todos aqueles que ajudaram na construção das nossas sociedades, afinal sabemos que somos frutos de uma rede de momentos históricos e herdeiros da história.

A história de Itaguara, Crucilândia e Itaúna são muito próximas - disso já sabemos. Mas algumas personagens digamos emblemáticas, aproximaram ainda  mais as nossas histórias. As três cidades beneficiaram-se da trajetória de Artur Vilaça e se orgulham de sua profícua existência. A seguir, compartilhamos texto de autoria do saudoso amigo e intelectual itaunense Guaracy de Castro Nogueira:

Prefeito itaunense e grande benemérito

Conhecido como Coronel Arthur Contagem Vilaça. Não o considero “coronel” segundo a antiga versão política, pois foi um inovador. Nesta biografia, pretendo dar-lhe o verdadeiro reconhecimento, já que temos uma perspectiva histórica para julgá-lo, longe das paixões políticas e daqueles que teceram comentários sobre sua presença marcante em nossa cidade. Quero de início, relatar um episódio raro de sua conduta, como líder autêntico.

Desde 1922, o Brasil vinha sendo sacudido por um verdadeiro frenesi revolucionário. Em Minas, Antônio Carlos estabeleceu o voto secreto, fundou a Universidade e liderou um grande movimento de renovação. Em Itaúna, os políticos tradicionais apoiavam o presidente Washington Luiz, saudado na convenção que o elegeu pelo brilhante deputado federal por Minas, o itaunense Dr. Mário Matos. A política do coronelismo oficial, em 1929, já havia escolhido, como candidato e futuro presidente, Júlio Prestes, que vinha fazendo boa administração em São Paulo, apoiado pelos governadores de 17 Estados. Antônio Carlos articulou a candidatura de Getúlio Vargas, tendo como seu companheiro de chapa João Pessoa, presidente da Paraíba. Surgiu a Aliança Liberal com o triângulo Minas, Rio Grande e Paraíba, para enfrentar o governo federal e os outros estados. Como de costume, os coronéis fraudaram a eleição em favor do candidato oficial. Aconteceu a Revolução de 1930. Em Belo Horizonte o 12.º R.I., depois de vários dias de luta, rendeu-se à Polícia Mineira.

Em Itaúna, Arthur Vilaça ficou ao lado das forças revolucionárias, organizou com jovens políticos locais, ente eles o Dr. Lima Coutinho, Juca Santos e Dr. Hely Nogueira, um pelotão para combater as forças tradicionais da República Velha. Minas colocou-se de pé. Surgiram a “Coluna Libertadora”, os Batalhões “Antônio Carlos”, “Olegário Maciel”, “Raul Soares”, “Mario Brant” e “Artur Bernardes”. Vilaça hipotecou apoio a Getúlio Vargas e como ato significativo denominou nossa praça principal de João Pessoa, assassinado em Recife. Em 24 de outubro Washington Luiz foi deposto e a 3 de outubro empossado Getúlio Vargas. Foi o fim do regime instituído em 1891. Registre-se que Artur Vilaça, anteriormente, foi vereador no período de 1.º de maio de 1912 a 1.º de janeiro de 1916 e, depois, Presidente da Câmara e Agente Executivo para o mandato que se iniciou em 17 de maio de 1927, com apoio das forças tradicionais do Partido Republicano Mineiro (nos municípios os nomes dos partidos tinham coloração local), praticamente único partido oficial, que dominava a política itaunense desde os tempos do Dr. Augusto Gonçalves de Souza Moreira. Nessa legislatura, os demais vereadores do município eram Dr. Mário Matos, Dr. Dario, Dr. Lincoln e Zezé Lima e havia mais quatro vereadores dos distritos.

Com a vitória da Revolução, Olegário Maciel continuou no governo do Estado e nomeou Artur Vilaça como o primeiro Prefeito Municipal com este título. Continuou administrando o município com isenção, dignidade e operosidade, sem usar dos poderes que tinha nesse período revolucionário, respeitando os direitos inalienáveis de cada cidadão. Os que perderam seu mandato se sentiram traídos; este acontecimento foi um divisor de águas na política local. Vilaça exerceu o mandato por 9 anos, 6 meses e 11 dias; permaneceu no cargo até 28 de janeiro de 1936, quando foi exonerado, a seu pedido, pelo Governador Benedicto Valadares. Getúlio que prometera reconstitucionalizar o país em 1936, implantou o Estado Novo em 1937, governando como ditador. Artur Vilaça, amigo dos antigos membros da Aliança Liberal, os que se tornaram signatários do famoso “Manifesto dos Mineiros”, entre eles Pedro Aleixo, Jonas Barcelos Corrêa, Bueno Brandão, Mário Brant e tantos outros, entrou no partido de oposição, UDN, que provocou a queda do regime e deu uma Constituição Democrática ao País, em 1946.

Artur Vilaça nasceu em Dom Silvério, hoje Crucilândia, na época pertencente a Bonfim, em 20 de agosto de 1885, filho de Henrique Ferreira Vilaça e Francisca Álvares de Abreu e Silva. Estudou no Colégio Dom Bosco, de Cachoeira do Campo e no Colégio Azevedo, de Sabará. Diplomou-se em farmácia pela tradicional Faculdade de Farmácia de Ouro Preto, em 5 de dezembro de 1903. Era descendente da famosa Joaquina de Pompéu, tronco de ilustres personalidades mineiras, sua trisavó. Faleceu em Itaúna, terra que muito amou, em 18 de maio de 1955.

Casou-se, em 30 de maio de 1906, em Itaguara com Maria das Dores de Oliveira Campos, a Dona Dorica. Ao final de suas vidas se tornariam grandes beneméritos em Itaúna e em Itaguara, terra natal de Dorica. No mesmo ano de seu casamento, Vilaça transferiu-se para Itaúna, estabelecendo-se com uma farmácia que dirigiu por mais de vinte anos.

Como Prefeito, Vilaça embasou seus mandatos no trinômio: comunicação, saúde e educação. Concluiu o importante serviço de abastecimento de água potável e a rede de esgotos, iniciados na administração anterior. Introduziu melhoramentos nos serviços telefônicos, bem como investiu na melhoria do aspecto urbano da cidade, com a construção dos jardins do antigo Largo da Matriz, em conformidade com projeto técnico do alemão Steinmetz, inaugurados em outubro de 1929. A conservação e a construção de estradas vicinais, ligando a sede aos povoados do município, mereceram sua especial atenção. Ampliou e reformou escolas.

Em sua administração, em 1928, inaugurou-se a primeira agência bancária em Itaúna, do antigo Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais, vendido ao Nacional. Foi um dos fundadores do Banco Industrial de Minas Gerais, depois vendido ao Banco Mercantil. Instalou uma agência de seu Banco em Itaúna e deu a Crucilândia sua primeira agência bancária.

Foi o Presidente da Sociedade Anônima que construiu o prédio da Escola Normal. Em 1930, graças aos esforços de sua administração, com o apoio do deputado federal Mário Matos, conseguiu sua oficialização. O deputado foi cassado pela Revolução e seu mandato estenderia até 1932. Como Arthur Vilaça apoiou Getúlio, Mário Matos jamais o perdoou, o que motivou a desoficialização da Escola Normal em 1938. “Valadares tinha no seu governo, na Diretoria da Imprensa Oficial do Estado, justamente Mário Matos que, automaticamente, começou a comandar politicamente o Município de Itaúna, bem como a exercer expressiva influência sobre a estratégia governamental praticada por Benedicto Valadares”.

Arthur e Dorica não tiveram filhos, mas dedicaram todo seu afeto à família, amparando sobrinhos e parentes. Criou em sua casa a sobrinha Zoé Vilaça Lara, que se casou com Severino de Paula Lara, de cujo enlace nasceu dois filhos: Artur Lúcio e Magda Lúcia. Artur Lúcio Lara, nascido em 1945, casou-se com sua conterrânea Idalina Dornas Diniz Lara, de tradicional família itaunense. Tiveram duas filhas: Tatiana e Larissa, residentes em Bocaiúva. Tatiana casada com Cláudio Antônio Caldeira Meira são os pais de Ana Cláudia e Artur. Idalina ficou viúva em decorrência do trágico acidente de automóvel que vitimou seu marido, ainda jovem, em 1976.

Magda Lúcia Lara Rocha, nascida em Itaúna sob o teto de Arthur Vilaça, em 1943, casou-se com Antônio de Oliveira Rocha Filho. Reside em Brasília, onde é extremamente requisitada pelos seus extraordinários dotes musicais. De seu casamento nasceram três filhos: Carmem Lúcia (falecida); João Paulo Lara Rocha, nascido e residente em Brasília, é analista de sistemas; Arthur Fernando Lara Rocha, itaunense de nascimento, casado com Raquel Montenegro de Oliveira Lara Rocha, residentes em Goiás. Ele é Piloto de Caça, Major-Aviador em Anápolis, onde pilota os velocíssimos “Mirage”; pais do neto de Magda Lúcia Lara Rocha: Arthur Fernando Lara Rocha Filho.

Desde quando chegara a Itaúna, o padre José Ferreira Neto queria instituir uma entidade para o ensino de meninos carentes, a Granja Escola São José. Pediu terras a três prósperos fazendeiros: José de Cerqueira Lima, Astolfo Dornas e Arthur Contagem Vilaça. Somente este anuiu ao seu pedido, disponibilizando-lhe dois alqueires. Mas o padre precisava de cinco e o sonho foi temporariamente adiado.

Antes de falecer, Arthur Vilaça solicitou à esposa, Dorica, que honrasse o seu compromisso com o Pe. José Neto. A generosa viúva, espelhada no exemplo de vida do esposo, foi mais além: doou 13 alqueires de seu melhor terreno e parte de sua fortuna, tornando-se instituidora da Fundação Granja Escola São José. Do gesto inicial de Arthur Vilaça sobrevive hoje a Granja Escola São José, instituição modelar, que acolhe dezenas de jovens estudantes tirados da rua, transformados em homens livres, plenos de cidadania, os líderes de amanhã, na Itaúna de nossos sonhos!

REFERÊNCIAS:Texto: Guaracy de Castro Nogueira (In memoriam)
Pesquisa: Charles Aquino, Patrícia Gonçalves Nogueira.
Organização: Charles Aquino
Acervo: Instituto Cultural Maria Castro Nogueira
Fotografia: Adilson Nogueira

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Para todos os que acreditam e/ou se inspiram em Cristo

Hoje, sexta-feira da paixão, é um dia cujo simbolismo importa a todos os cristãos do mundo inteiro e também aqueles que, vacilantes na fé ou críticos dos ritos eclesiásticos, reconhecem e inspiram-se na mensagem e no ideário de Jesus.

Rememora-se Sua paixão e morte de cruz, o mais doloroso e plangente fenecimento. Em vão Ele não pode ter morrido. Até para os descrentes, a motivação de sua morte é incrivelmente forte para ser desconsiderada. Comumente, se diz que morreu para salvar toda a humanidade dos pecados. Isso também o é, principalmente sobre a ótica da teologia. Mas morreu, sobretudo, porque enfrentou os poderosos de seu tempo e criticou o sistema de dominação dos mais pobres e contestou o Templo. À luz da história e da análise dos evangelhos, a morte de Jesus Cristo nos rememora um enfrentamento inédito ao sistema vigente. Ele também nos apresentou seu Pai como o Deus da misericórdia, do amor e do perdão. Não o Deus do temor e da punição. Trouxe vida, luz e esperança ao mundo. Renovou a aliança do povo com Deus e instituiu uma nova ordem.

Imagem de Cristo em uma procissão na Espanha AP

Um fato: A sociedade atual é muito distante daquela preconizada por Jesus Cristo. Muitos dos que se dizem cristãos e estão, regularmente, em suas igrejas ajoelhados e orando farisaicamente, são os primeiros a fazerem julgamentos antecipados, a propagarem o ódio e a intolerância, a disseminarem o preconceito e a brutalidade. Em suma: estão contrariando frontalmente os ensinamentos de Jesus Cristo. Não honram Seu nome!

A Bíblia é riquíssima em exemplos e fiz aqui um recorte de trechos (fora dos evangelhos) que demonstram a incompatibilidade do cristianismo com a ganância, a vaidade excessiva, a ira, a gabolice, a injustiça, a opressão e a inverdade. Observe:

Isaías 56:11, E estes cães são gulosos, não se podem fartar; e eles são pastores que nada compreendem; todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância, cada um por sua parte.
____

Eclesiastes 5:10, O que ama o dinheiro nunca se fartará dele; quem é apegado às riquezas nunca se farta com a renda. Isto também é vaidade.
____

1 Timóteo 6:10, Porque o amor do dinheiro é a raiz de todos os males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e afligem a si mesmos com muitos tormentos.
11, Mas tu, ó homem de Deus, fuja destas coisas, e segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão.
_____

2 Coríntios 10:17, Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor. 18, Pois não é aprovado aquele que faz recomendação de si próprio, mas sim aquele a quem o Senhor recomenda.
_____

2 Timóteo 2:15, Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.
_____

Ao ler o livro sagrado dos cristãos, percebe-se, com muita facilidade, que há muita gente usando o nome de Deus equivocada ou sordidamente. Mas é possível mudar isso? Sim. Podemos e devemos mudar nossas posturas, assumindo uma postura verdadeiramente cristã e incentivar os outros a fazê-lo.

O ser humano pode mudar até os últimos dias de sua vida e dignificar a sua existência. Se não acreditarmos nisso, não acreditamos na humanidade e, por consequência, sequer somos capazes de acreditar em nós mesmos. Isto é, assumimos uma condenação moral certa (e, para os que crêem, espiritual também). Restaria à humanidade assistir, passivamente, ao seu próprio fim. Mas não é nisso o que cremos os cristãos. Estamos seguros de que o homem pode mudar a si mesmo e assumir uma nova postura diante de Deus e, por conseguinte, diante da vida em sociedade.

Se há um momento capaz de propiciar uma mudança de rota de vida, este momento é a sexta-feira santa dos cristãos, especialmente neste momento único que estamos vivenciando – de sofrimento, afastamento social e aprendizagens.

Não desanime. Se reina o ódio dentro de você, de sua família ou da instituição da qual você participa ingenuamente, mude. Ainda há tempo! Se há vida, há tempo. Nunca é demais rememorar que Jesus converteu um ladrão poucos minutos antes de cumprir sua sentença:

Evangelho segundo São Lucas (Lc), capítulo 23: 35-42

A multidão conservava-se lá e observava. Os príncipes dos sacerdotes escarneciam de Jesus, dizendo: Salvou a outros, que se salve a si próprio, se é o Cristo, o escolhido de Deus!

Do mesmo modo zombavam dele os soldados. Aproximavam-se dele, ofereciam-lhe vinagre e diziam:

_ Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo.

Por cima de sua cabeça pendia esta inscrição: Este é o rei dos judeus.

Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele:

_ Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!

Mas o outro o repreendeu:

 _ Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum. E acrescentou:

_ Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!

Jesus respondeu-lhe:

_ Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso.

===

Mudar a nós mesmos e, por consequência, a nossa sociedade não é apenas possível, mas necessário e urgente! Urge reinstituir os verdadeiros valores cristãos!

Alisson Diego