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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Quando eu falo de corrida

Circuito das Estações 24/11/18

Compartilho, a seguir, artigo publicado no Jornal Cidades (edição: dezembro de 2018):

Quando eu falo de corrida *  

Já que a principal temática do JC deste mês é saúde e longevidade, fiquei inspirado a escrever sobre uma atividade que mudou a minha perspectiva de vida e me fez um ser humano mais saudável, autoconfiante, disciplinado e melhor: a corrida de rua.  

Comecei a praticar caminhadas médias (3 quilômetros ao dia) dos 12 para os 13 anos de idade, por recomendação médica – eu tinha um pequeno problema no joelho (algo decorrente da fase de crescimento juvenil) e estava totalmente proibido de jogar futebol. O ludopédio (é cada nome que inventam para o esporte nacional) era a minha primeira paixão esportiva como tinha que ser – aos 9 anos, vi a seleção de 94 conquistar o tetra e aquilo me deslumbrara como a todos de minha geração. Mas o futebol não era uma opção naquele momento e o médico foi categórico: “Apenas caminhadas e, mesmo assim, leves”.  

Das caminhadas “leves” para a corrida foi um pulo. Achava um tanto quanto insosso ficar apenas caminhando, caminhando lentamente vendo as paisagens passarem... A vontade de correr foi um impulso natural. Nessa época, eu era um pré-adolescente gordinho e as corridas também começaram a fazer efeito: fui emagrecendo paulatinamente, ganhando autoconfiança e aumentando as distâncias. As caminhadas leves ficaram para trás e corria 6 km por dia.  

Após quase um ano correndo, emagreci suficientemente e, milagrosamente, o meu problema de joelho simplesmente havia desaparecido. Mas, aos poucos, fui deixando de lado as corridas para voltar aos esportes coletivos: futebol, futsal e voleibol.  

De volta a Itaguara (após morar uma década fora da cidade com minha família), aos 16 anos idade, a convite dos amigos da Acrita (Associação dos Corredores de Rua de Itaguara), voltei a praticar corrida de rua. Tomás, Reginaldo, Bila, Juarez e os outros corredores eram muito velozes e incentivam os mais guris como eu. Cheguei, naquela época, a conquistar um pódio (terceiro lugar na categoria 16-19 anos) nas célebres corridas na Avenida dos Andradas, em BH, que eram organizadas pelo Ricardinho (o popular Mister Bus) nas manhãs de domingo uma vez por mês. Foi naquele tempo também que corri a minha primeira Volta da Pampulha. Era 2001 e, apesar de correr com um tênis nada propício, completei os 18 km com cerca de 1h25.  

Depois veio a faculdade, o trabalho e parei de correr por “imposições do tempo” - uma desculpa super esfarrapada porque quem quer acha tempo para o que realmente importa na vida – os psicólogos explicam muito bem). Fato é que a corrida havia deixado de ser uma prioridade.  

Há uns seis anos, voltei a correr disciplinadamente. Tive de emagrecer muito, voltar a pegar o ritmo, re-acostumar o corpo. Agora, tomei uma decisão: Não paro mais de praticar corrida, a menos que alguma imposição natural da vida me impeça. Não é que tenha me tornado esportista profissional, muito longe disso (não dispenso, por exemplo, eventualmente, alguma bebida aos finais de semana), mas a questão fundamental é que a corrida me transformou em uma pessoa muito mais disciplinada, confiante, previdente e sensata.

No ano passado, um fraterno amigo, presenciando o meu entusiasmo existencial pela corrida de rua presenteou-me com um livro que recomendo fortemente a todos aqueles que correm ou desejam correr: “Do que eu falo quando eu falo de corrida”, de Haruki Murakami. O escritor japonês mudou totalmente a sua vida quando começou a correr. E ele já não era jovem! Iniciou com mais de 30 anos de idade e já completou várias maratonas. Hoje, aos 69 anos, o premiado literato ainda corre e muito: cerca de 10 km por dia e vive viajando e participando de provas ao redor do mundo (correu várias maratonas e ultra-maratonas).

Separei duas frases do Murakami, nessa obra literária supra comentada, para inspirar você leitor que, se chegou até aqui, no mínimo, se interessou pelo assunto e pode estar disposto a iniciar neste esporte altamente aprazível e realizador:  

*  “Não me levem a mal – não sou totalmente anticompetitivo. É apenas que, por algum motivo, nunca me importei muito se derroto os outros ou se perco deles. […] Interesso-me muito mais por atingir os objetivos que fixei para mim mesmo, de modo que, nesse sentido, corridas de longa distância caem como uma luva para uma disposição de espírito como a minha”.  

*  “Não interessa quanto eu fique velho, mas enquanto eu continuar a viver, vou sempre descobrir alguma coisa nova sobre mim mesmo.” É exatamente o que a corrida fez e faz comigo: a cada dia me entendo e me conheço melhor.”  

PS: Ah, um conselho: antes de começar a correr, procure um médico, faça exames regularmente e sempre mantenha esse acompanhamento. Além disso, faça fortalecimento muscular numa academia. É absolutamente essencial.

* Alisson Diego Batista Moraes, 33, advogado, MBA em Gestão de Empresas (FGV) e acadêmico de Filosofia pela UFMG. Foi prefeito de Itaguara entre 2009 e 2016 e, atualmente, é secretário de Planejamento e Governo de Itaúna-MG. É também um entusiasmado corredor amador.

sábado, 24 de março de 2018

Um post de health ajuda

O que aprendi com a primeira cirurgia de minha vida 

14.03.18 - logo após a cirurgia
Fiquei bem ansioso há algumas semanas quando soube que teria de ser submetido a uma septoplastia. Cirurgia simples, mas cirurgia, né? Primeira cirurgia de minha existência trintenária. Medo? Um pouco; mais receio que medo, na verdade. Passados oito dias da realização do procedimento cirúrgico e, ainda sofrendo com o famigerado pós operatório, colecionei alguns aprendizados que faço questão de compartilhar:

1. A saúde é o bem maior. Isso parece meio óbvio. Quando estamos em qualquer situação de fragilidade é que damos real valor à plenitude da vida. O ideal era que não precisássemos sentir frio para perceber a necessidade do cobertor, mas nós, os humanos, precisamos da falta. Eis o desafio: felicitar-se diariamente apenas por não estar ”doente”.

2. A respiração é o alimento da alma. Após vários dias com as narinas quase que totalmente bloqueadas, a gente aprende que os antigos gregos tinham muita razão quando conectavam a respiração diretamente à alma. Que falta faz poder respirar bem, sentir o ar percorrer todo o seu ciclo até a expiração. Cuidar da respiração é cuidar da vida. Não tem jeito de aceitar cigarro ou qualquer coisa que dificulte o elo com a alma.

3. Resiliência e paciência. Imagina ficar numa cama ou num repouso moderado (sem exercícios por 30 dias) para quem não para quieto por 30 minutos e tem o costume de correr 30 km por semana!? Pois é. Foi preciso ou corria-se o risco de hemorragia, dentre outras complicações. Quando algumas situações nos são impostas, a capacidade de se adaptar aliada à calma necessária são virtudes a serem cultivadas.

4. Disciplina. A fórmula do fracasso, nesse caso, é não seguir as recomendações médicas. Por cada omissão, há uma reação. Esqueci, outro dia, de fazer as lavagens nasais no tempo prescrito e à noite não dormi absolutamente nada por dor e dificuldades respiratórias. É preciso ser disciplinado.

5. Confiança. Sempre acreditei que a confiança é um dos motores da existência. Com esta situação cirúrgica, isso se confirmou pra mim. Sem ela nada acontece. Confiança na equipe médica, nos medicamentos, na ciência etc. Ou se tem confiança ou tudo fica muito mais difícil e doloroso.

sexta-feira, 2 de março de 2018

A idade da razão


Esse título não se refere ao homônimo livro de Sartre. É um mini texto de aniversário mesmo.

Desconfio de aniversários, efemérides momentosas, congratulações emotivas e coisas do tipo. Não costumo comemorar. Na verdade, nunca fiz uma festa de aniversário. Gosto mesmo do dia a dia, da construção cotidiana e do labor recorrente que nos faz quem somos.

Acredito, no entanto, na força dos anos que passam e nos moldam. E como passam voando esses anos, né? Cheguei aos 33 de maneira surpreendentemente rápida. Olho pra trás e não parece que se passaram três décadas mais três anos. Eis, pois, a célebre idade de Cristo. Pra mim, a idade da razão e da libertação - quando se desvencilha das últimas amarras passionais.

Só os anos que passam são capazes de fazer com que você revisite sua vida, corrija suas posturas, livre-se das amarras da existência, dos mitos sociais, das paixões ludibriantes, das pessoas pesadas, das ignorâncias a nós impostas, dos encaixotamentos conceituais a que somos submetidos, dos aprisionamentos ideológicos e dos pesos todos desnecessários e tão comuns durante a existência.

Os anos, se bem vividos e refletidos, são cinzéis a nos burilar enquanto seres humanos. Espero permanentemente melhorar como pessoa, aprender sempre, viver solidariamente, vencendo o egoísmo, a intolerância e a inveja e semeando ao máximo o amor, a racionalidade, o equilíbrio e a esperança.

Na idade da razão, é preciso evocar Sócrates e afirmar que uma vida afastada da reflexão não vale muito a pena ser vivida. A reflexão constante aliada ao amor ao próximo constituem a própria vida.

Foto: acervo @dialogosgerais fevereiro de 2018.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Notas de um corredor: Corrida do Galo 2017



 Era pra ser uma corrida muito tranquila, afinal de contas 10 km é a minha especialidade, o clima estava satisfatório e havia treinado exatamente essa distância durante a semana e feito um bom tempo. Mas essa frase já denuncia que não foi bem assim, né? E não foi mesmo!

Os quatro primeiros quilômetros os completei com média 4.30 - tempo que prenunciava uma prova excelente, bem abaixo dos 50 minutos. Mas, justamente, um pouco antes da metade da prova, uma câimbra inesperada, inoportuna e indócil me surpreendeu. Nunca havia sofrido uma câimbra numa prova em mais de uma década de corrida. E não foi uma câimbra qualquer. Foi uma câimbra daquelas!

Subitamente tive de parar. Reação imediata e inevitável. Mal conseguia colocar o pé no chão. A dor cortante perpassava toda a coxa direita. Justamente a bendita perna direita, a minha perna mais forte.

O pensamento rasante projetava mil cenários e, pela primeira vez na vida de corredor, considerei desistir. Mas nunca deixei de completar uma prova em maisde 15 anos de corridas! Seria hoje? Uma prova aparentemente simples de 10k? Não era possível!Isso tudo se deu em menos de um minuto - uma eternidade para uma corrida de 10k. Decidi retomar a prova. A dor não passava e passei suportá-la com lágrimas. Tive de me valer totalmente da perna esquerda e utilizar a direita apenas como apoio.

Acostumei-me com o passar dos segundos mais eternos e angustiantes possíveis. Não foi sem esmorecimento e dor que me habituei a correr numa média 6.4 e ver muita gente me ultrapassando. Gente que aparentemente sequer tinha hábito de corrida. Fiquei a imaginar a sensação de plena impotência dos pilotos de automobilismo quando os carros estragam no seu melhor momento. A analogia era perfeita: o carro era meu corpo, o piloto era minha mente. E a sensação de impotência era a mesma. E não havia muito o que fazer: era superar a dor e tocar em frente, no ritmo que desse, até o carro cruzar a linha de chegada.

Foi o que fiz. Quando a dor apertava, as lágrimas, involuntariamente, desciam no rosto. Evitava até olhar para as ambulâncias e equipe de apoio porque se me vissem naquele estado me convenceriam a parar. Mas não parei. Fui até o final, arrastando dolorosamente, mal dobrando a perna direita. Quando vi a linha de chegada nem acreditei. A dor aumentou implicantemente no finzinho, mas cheguei com pouco menos de uma hora.

O que era pra ser mais uma corrida se transformou na mais dolorosa prova que já corri. Foi superação e dor a cada passo, a cada segundo – e, mais uma vez, correr foi uma extraordinária lição de vida. Fui literalmente salvo pela perna esquerda, pelas lágrimas e pela teimosia.

Durante o sofrimento da corrida, tive uma certeza e uma motivação: era preciso escrever uma crônica. Ei-la!

PS: Essa nem foi a única dor do fim de semana. A perda do querido tio Darci foi dor maior. Dor de alma sempre suplanta a física. Mas o que é a vida, se não a superação de dores?

PS2: Sistemático que sou, depois avaliarei fisiologicamente as razões dessa maldita câimbra, se faltou potássio, se não me hidratei direito, se exagerei no pique, se a alimentação não foi adequada ou se foi um simples capricho da máquina humana.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Sobre o eclipse lunar combinado com a superlua

* Publicado originalmente no Facebook em 27/09/2015.


A lua eclipsada, o céu e nós *

Em todo o mundo, milhões aguardavam ansiosos pelo raro fenômeno astronômico. Pela primeira vez, em mais de 3 décadas, um eclipse lunar total combinado com uma superlua! Eu, é claro, era um dos milhões de ansiosos. Obviamente, não poderia perder essa "poeticidade dos céus", afinal de contas, quem me conhece sabe muito bem que sou um astrônomo frustrado e um observador amadoramente voraz e entusiasmado. Não perco nenhum fenômeno astronômico que eu consiga ver razoavelmente pelo meu pequeno e simplório telescópio (a quem batizei de little Kepler há uns 5 anos).

Esses dois fenômenos acontecendo simultaneamente é algo considerado raro. O último aconteceu em 1982. E quem perdeu o espetáculo terá que esperar até 2033. Foi indizivelmente belo. Foi poesia! Poesia é a natureza e o universo em movimento. Poesia foi ter olhado para o céu e contemplado essa extraordinária efeméride divino-astronômica que ficará magicamente registrada em minha memória até os últimos dias de minha existência.

Foto tirada do Litlle Keppler
Quando a gente para a fim de pensar nos mundanos problemas que temos todos nós, os humanos contemporâneos, até nos envergonhamos diante da grandeza do universo e da pequeneza nossa. Somos fagulhas milimétricas numa quase infinita fogueira cósmica. Somos um instantezinho quase desimportante em bilhões de anos de evolução cósmica.

Ante a grandeza cósmica, você ainda anda preocupado(a) com o que falaram de você ontem? Sobre aquela fofoquinha do trabalho ou da escola ? A carreira, o carro novo, a carteira cheia, os estudos... E aquele boleto que tem de ser pago amanhã? Sim, todos nos preocupamos. É claro que sempre nos preocuparemos.

Todavia, não podemos nos olvidar de olhar para o céu de vez em quando. Fenômenos como o deste domingo só nos reafirma o que todos já sabemos ou deveríamos saber: somos parte do cosmos, essa grandiosidade monstruosamente bela, instigante e encantadora. Estamos aqui de passagem. Então para que inveja, orgulho, egoísmo, traição e desejos e ações ruins? Não, não governamos o universo. Somos uma fração de segundo no livro infinito do tempo. Não governamos os fenômenos. Os eclipses existirão independentemente de nós! A natureza e os cosmos se governam e nós, os heroicos super-humanos, somos muito mais governados que governantes.

Enfim, sabe o que pensei, utopicamente, ao assistir a este "raro" eclipse? Que é mais do que necessário respeitar o cosmos e a natureza, sentir-se parte desse todo e melhorar, no que pudermos, a convivência humana. Sem nenhum tipo moralismo (que, aliás, abomino veementemente) apenas foram essas as minhas sensações. Mas ainda tem gente que acha que manda nos outros, que governa as pessoas, que dita os rumos do mundo. Levianas pretensões.

PS: Meu último livro de poemas não se chama O Tempo e as Estrelas, por acaso. Viva o cosmos e sua grandeza magistral!

* A. Diego

domingo, 19 de abril de 2015

Pedalando com o prefeito, no Dia Mundial da Bicicleta

Compartilhamos hoje, em homenagem ao Dia Mundial da Bicicleta, uma matéria do jornal Barroso em Dia sobre o hábito do prefeito Alisson Diego em trabalhar de bicicleta.

Pedalando e driblando preconceitos* 



Problema em cidades pequenas e maior ainda nos grandes centros. Muito se fala à respeito do trânsito, mas muito pouco se faz. Nesta quinta-feira, dia 25 de setembro, é comemorado o Dia Nacional do Trânsito. Atitudes simples, como o uso bicicletas, poderiam ajudar a amenizar as situações negativas, como do trânsito caótico e engarrafamentos, mas poucos cidadãos se dispõem a deixar o carro na garagem e pedalar até o trabalho. Além disso, o uso bicicletas, por incrível que parece, ainda enfrenta outro empecilho: o preconceito.  
Alisson Diego Batista Moraes, 29, é um dos poucos cidadãos, entre a população de cerca de 12 mil habitantes, na região metropolitana de Belo Horizonte, Itaguara, que vai para o trabalho de bicicleta. Com o status na rede social de poeta, advogado, MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas, o acadêmico de Filosofia da Universidade Federal de São João del Rei, (UFSJ), enfrenta todos os dias, além dos obstáculos, o preconceito quanto o uso do meio de transporte no Brasil.
“Desde que aprendi a pedalar, nunca abandonei a bicicleta. E de lá para cá já se passaram uns 22 anos e ela se tornou o meu meio de transporte favorito”, declara Alisson que vai e volta para o trabalho de bicicleta praticamente todos os dias. “E fico cada dia mais surpreso com as reações desmesuradas das pessoas. Vão desde o espanto, o respeito, à admiração e à repugnância completa. Esta semana, uma pessoa me disse: Uai, você está de férias? Respondi sonoramente: NÃO! Então por que a bicicleta? Estou até agora tentando entender qual foi o raciocínio dessa curiosa pergunta. Segui pedalando sem responder, com um amarelo sorriso e um aceno tímido”, conta em texto pessoal na sua página na internet.
 

Essa situação poderia ser muito comum, já que o preconceito pela bicicleta percorre por todo o Brasil. Mas o caso do advogado tem um agravante: o rapaz de 29 anos, poeta assumido, que vai para o trabalho de bicicleta é o mesmo que a cidade chama de prefeito e reelegeu nas últimas eleições. Alisson foi vereador há dez anos em Itaguara e ia para a Câmara de bike, mas declarou já ter aprendido a lidar com o preconceito. “Quando venci as eleições para vereador, há dez anos, cheguei a ouvir alguns comentários do tipo: É muito novo e ainda anda de bicicleta. Sempre relevei esse tipo de fala porque além de ingenuidade, sempre considerei que essas palavras não traziam em si um “preconceito” propriamente dito”, ressalta o prefeito que no primeiro mandato chegou a abandonar a bicicleta e recentemente retomou o habito saudável, exemplar, porém, preconceituoso.

“Uma vez fui abordado seriamente por três pessoas, que me aguardavam em frente o prédio da Prefeitura para uma reunião. Disse um deles, sem me esperar descer do veículo: Diego, pare com isso. Você não pode ficar vindo para a Prefeitura de bicicleta, tem que se dar ao respeito. Eu não acreditei no que ouvi! Olhei espantado para o sujeito. Nem consegui responder e ele emendou: Se for preciso mando te buscar todo dia em casa de carro, porque desse jeito, imagina se vem alguém de fora, um empresário e te vê assim?”, descreve nervoso no post Alisson, que declara que poderia ter feito um sermão sobre mobilidade urbana, meio ambiente, esporte ou discorrer sobre os malefícios dos combustíveis fósseis ou levantar centenas ou milhares de argumentos, mas que preferiu ficar calado e virar as costas. “Minha melhor resposta naquele momento foi o meu silêncio e o meu caminhar”, diz o Prefeito que perde o voto, o colega, mas não abandona a sua companheira bicicleta.
postado em 25/09/2014 / Jornal Barroso em Dia - site: http://barrosoemdia.com.br/pedalando-e-driblando-preconceitos/

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Poesia e Política: A última crônica de 2014

Artigo escrito para a Revista Viva Grande BH - edição janeiro de 2015.

Poesia e Política: meu quebra-cabeça surrealista *

O político



Há quem diga que sempre fui político - no bom sentido da política, compreendida como instrumento de transformação social e meio de melhorar a vida da pólis. Meus colegas me lembraram que na pré-escola eu questionava a diferença dos calçados dos alunos e queria entender o porquê inclusive que alguns iam descalços. Nunca bastava para mim  a explicação usual: "a família dele é pobre e não tem condições". Ainda me martelavam os porquês.

Ate hoje, em muitos momentos, nunca me achei político, apenas me reconheci desde menino um questionador inquieto e ansioso por ver uma comunidade com melhorias. A partir da juventude, os porquês se transformaram em desejos imensuráveis de ser útil, uma vontade quase obrigacional de poder servir ao meu povo e quem sabe até mudar o mundo - naquele momento quis fazer de minha vida um existir verdadeiramente proficiente para a comunidade - justificar a minha existência deixando algum legado para a minha aldeia.

Os anos se passaram e muitas coisas aconteceram de lá para cá. Acho que, de certa forma, pude contribuir para melhorar a vida de minha comunidade, mesmo não tendo conseguido "mudar o mundo". Mais consciente após três mandatos eletivos e à beira dos 30, hoje vejo que não possuo os requisitos básicos para o exercício da política tal qual ela tem sido praticada em nossos dias. Não sei tergiversar; não consigo abrir mão de alguns princípios; é para mim muito difícil ter de omitir opiniões e pensamentos para não ferir apoiadores ou um grupo social; jamais aceitei negociar cargos ou ter de fazer acordos em nome da governabilidade. Outro ponto é que jamais acreditei no maniqueísmo político - nunca enxerguei adversários como rivais a serem combatidos dia-a-dia e sob qualquer pretexto. Para mim, o combate sempre foi pelo bem comum e no plano das ideias.

Mesmo numa cidade pequena, manter-se alheio a essas práticas usuais da política hodierna costuma ser letal para a manutenção do cargo político. Mantive-me alheio até agora, pago algum preço, mas durmo sob o meu travesseiro leve, que me conduz a sonos tranquilos e calmos.


O poeta
 Mas insisto: não sou político! Não consigo passar deste estágio. Prefeito de Itaguara é para mim um compromisso com minha aldeia. Acima disso, seria desrazoável. Claro que sei que existem políticos corretos, íntegros, honestos e sérios e eu mesmo conheço 
vários. Mas sei o quanto eles sofrem por serem como são e não sei como sobrevivem num ambiente tão inóspito. Não digo "nunca" até porque esses tais "nuncas" costumam queimar feio a boca de quem os profere, mas digo mineiramente: "quero não", pelo menos agora não.

Neste sentido, me reafirmo a cada dia mais poeta. Não o poeta dos escritos geniais, mas o versejador simples do cotidiano; que contempla e repara a vida e a interpreta em versos, quando a inspiração me é favorável.

Jamais quererei ser o imortal poeta da estrelada Academia Literária, nem o poeta dos salões pomposos e das recepções glamorosas. Mas sim o poeta que lança seus livros como quem liberta um pássaro da gaiola. Quem o faz, não espera que o pássaro volte e lhe dedique seus chilreares para o seu bel prazer. O libertador de pássaros se felicita tão somente com a liberdade do bichinho.

Poesia e política para muitos é algo perfeitamente conciliável. Para Neruda, o grande poeta das Américas, amor, arte, política, engajamento e versos eram harmoniosamente complementares. Para mim, já não sei. Após 10 anos de vida pública e três mandatos consecutivos, ainda estou aprendendo a juntar essas peças todas e formar esse quebra-cabeça bastante surrealista.

* Alisson Diego Batista Moraes

sábado, 11 de outubro de 2014

Poesia do cotidiano, do céu e do tempo: O Tempo e as Estrelas é lançado na FNAC

O Tempo e as Estrelas - poesia estelar,
temporal e cotidiana
 
Escrever em versos tem sido uma forma de comunicação e arte para o homem desde os tempos primevos. Arnaldo Antunes escreveu sobre a origem da poesia:

"A origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem. Talvez fizesse mais sentido perguntar quando a linguagem verbal deixou de ser poesia. Ou: qual a origem do discurso não-poético, já que, restituindo laços mais íntimos entre os signos e as coisas por eles designadas, a poesia aponta para um uso muito primário da linguagem (...) Mas a integridade entre nome e coisa trazida pela linguagem poética foi separada no decorrer da história pelo tempo e pelas culturas do homem civilizado".
  
Livro lançado: os versos agora "são livres"
De linguagem primitiva a arte da linguagem, a poesia percorreu um longo caminho.

Passando pelos vedas indianos há 1700 anos antes de Cristo, pelos trovadores e cancioneiros, pelos épicos poemas que contavam sagradas histórias das nações e até das religiões. De Zoroastro e Homero até nossos dias, muitos versos foram escritos, mas o que há de comum entre eles? Não é apenas a forma da linguagem. É a sensibilidade artística de contar uma história ou se expressar em versos. 

Poderíamos citar ou declamar tantos e tantos poetas ao longo da história. Poderíamos nos deliciar com belos poemas que nos fariam chorar, rir, refletir, enraivecer... Sentiríamos todos os sentimentos possíveis pelos versos de outrem. O poeta é esse outro que nos faz ver o mundo com o seu olhar peculiar.

Mas, voltemos ao Tempo e as Estrelas. Voltemos ao "Tempo de Alisson Diego" como foi publicado nesta semana pelo Jornal O Tempo. O caderno Magazine do Jornal publicou uma nota sobre este lançamento exatamente com este título: "O Tempo de Alisson Diego". Qual é o tempo de Alisson Diego? É o nosso tempo. É o tempo presente. E o que é a sua poesia? É o cotidiano. "Os poemas buscam refletir sobre o cotidiano com originalidade e transcendência", disse o jornalista d'OTempo. 

Noite de amizade, poesia, música e versos na FNAC
O que fez o poeta buscar inspiração no céu? Diego não diz. Mas seus poemas dizem. "Nenhum grande poema fará o poeta que olha para o chão, pensando rasteiramente nos problemas medíocres". Continua Diego em Poeira de Estrela: "Apenas o céu é capaz de transmudar mediocridades em versos.”.

Já, o tempo... Bom, o tempo somos nós. É o tempo que nos envelhece, nos amadurece, nos faz trabalhar, crescer, morrer, viver...

Somos fruto do Tempo. Sem o tempo não somos. Só vivemos o tempo. Somos porque há o tempo e deixamos de ser porque há o tempo.

O lançamento oficial de O Tempo e as Estrelas aconteceu na noite desta quinta-feira (09) na FNAC, no BH Shopping e contou com a presença de cerca de 300 pessoas. Lançado pela editora Novo Século - Selo Novos Talentos da Literatura Brasileira - o livro conta com ilustrações do artista plástico Francisco Rivero e está à venda nos sites das principais livrarias brasileiras.

O jovem músico Bruno Fittipaldi musicou alguns poemas
de O Tempo e as Estrelas
Sobre o livro, disse o poeta Diego a amigos e a um jornalista que cobria o evento: "Só fazem sentido esses momentos se forem compartilhados com os amigos. Eu os agradeço de coração por prestigiarem este lançamento. Gratidão! Aproveito para dizer também que este livro já não me pertence mais. A partir deste lançamento ele sai dos meus domínios. Falo isso sem almejar qualquer reconhecimento, falo porque estes versos agora são livres".

Diego disse ainda que prepara uma coletânea de artigos e crônicas que deve ser lançada em meados de 2015.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Meus encontros com Ernest Hemingway

Em Havana e Paris com Hemingway

Sempre fui fã do Ernest Hemingway. Fã de verdade. Acho um escritor diferente e peculiar. Gosto de seus livros e textos e gosto ainda mais de sua figura. A sua imponente originalidade impacta os formalistas. Seus críticos envergonham-se diante de sua coragem literária e de seu senso criativo de repórter-poeta-escritor-genial. 

Para além das agruras, fantasias e dores em frases retratadas, #Hemingway foi homem. Estupidamente, originalmente, melancolicamente, sisudamente, poeticamente, categoricamente Homem.

Hoje é aniversário dele. 115 anos de nascimento! Que pena que ele não está mais aqui. Não está "em tese", porque para mim está e ninguém me prova o contrário.


Quando estive em Cuba, em 2012, tive a honra inesquecível de provar o drinque que ele mais gostava, o tal do #daiquiri. Pra ser sincero, gostei pouco do drinque, mas bebi com Hemingway e aquilo foi plenitude (foto). Sim, bebi com o cara! Conversei com ele e escutei com atenção discipular os seus conselhos mudos. "Viver, independente da felicidade, viver, independente de razões, viver", disse-me naquela tarde quente de inverno em #Havana. 


Mr Ernest e eu, no bar La Floridita em Havana, 2012.
Escutei ainda alguns conselhos literários ("para escrever é preciso coragem", me advertiu) e falamos de muitas coisas naquela tarde. Muitas das quais irreveláveis. Sim, alguns dirão que estou louco ao escrever isso. Não estou! É preciso sensibilidade para escutar além das vozes. A fonética e as silabações são imprecisas e vazias. A razão é imprecisa e incompleta. A vida é imprecisa. Há vozes para além das palavras escritas ou faladas. Sim, há. Há o vento, há o mar, há o homem e suas histórias, houve Hemingway naquela tarde. Houve sim, ouvi-o.

Dois anos e alguns meses depois daquele encontro em #LaHabana, reencontrei-o em #Paris, cidade que amava e que aprendi a admirar amorosamente também por ele. Paris é uma festa sim Hemingway! E como foi bom reencontrá-lo naquele boreal fim de inverno inusual para os meus costumes tropicais.

Este segundo e último encontro foi ainda mais inesquecível. Na última noite de minha estadia em Paris, meu aquecedor estragou. Fazia muito frio e não quis ligar na recepção do hotel para reclamar ou buscar alguma solução. Ao invés disso, vesti meu velho casaco amarrotado, saí do hotel e caminhei pelas margens do Sena. Fazia ainda mais frio ali. Ventava estranho nas margens do la Seine.









Hemingway apareceu novamente. Nem assustei. Cavalheirescamente, trocamos cumprimentos cordiais e caminhamos sem palavras. Estava um tanto quanto formal para seus padrões. Mas até acendeu o seu charuto lentamente, levando as mãos aos cabelos meio encanecidos e me disse em tom profético e tranquilo: "Escreva sobre isso, jovem. Ainda que ninguém acredite, escreva. Seja fábula, seja bravo, seja insano e escreva". Parecia tudo muito estranho, mas incrivelmente real. "Write about it, young man. Write about everything".

Está aqui my dear friend Mr. Ernest. Escrito. 

A propósito, parabéns pelos seus 115 anos!

Alisson Diego Batista Moraes.


* * *

PS: Algumas de suas frases demonstram seu gênio a sua forte personalidade de escritor de punho cerrado e coração aberto (algumas frases em diferentes textos e contextos):

-> "Escreve, se puderes, coisas que sejam tão improváveis como um sonho, tão absurdas como a lua-de-mel de um gafanhoto e tão verdadeiras como o simples coração de uma criança."

-> "Aos que trazem muita coragem a este mundo, o mundo quebra a cada um deles e alguns ficam mais fortes nos lugares quebrados. Mas aos que não se deixam quebrar, o mundo os mata. Mata os muito bons, os muito meigos, os muito bravos – indiferentemente.
Se não pertenceis a nenhuma dessas categorias morrereis da mesma maneira, mas então não haverá pressa alguma em matá-lo".

-> "Algumas pessoas quando ouvem um eco, pensam que deram origem ao som."

-> "São precisos dois anos para aprender a falar e sessenta para aprender a calar."

-> "É sempre assim. Morre-se. Não se compreende nada. Nunca se tem tempo de aprender. Envolvem-nos no jogo. Ensinam-nos as regras e à primeira falta matam-nos."

-> "Um idealista é um homem que, partindo de que uma rosa cheira melhor do que uma couve, deduz que uma sopa de rosas teria também melhor sabor."

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Quase 30

Meu aniversário é daqui algumas horas. O 29 não bate à porta, já chega invadindo. Abaixo, um texto que escrevi para a ocasião:


Quase 30
Alisson Diego *

De fato, não faço 30 anos em 2014. Mas há pouco mais de um ano do famigerado trintenário, deparei-me, inevitavelmente, pensando sobre a idade e, inspirado num artigo do escritor e jornalista Michael Laub, decidi escrever sobre o tema. 

Fazer 29 anos é...

- Conformar-me com os cabelos brancos (e aceitar que, em bem pouco tempo, eles podem ser maioria – faz parte das tradições genéticas da família).

- Sentir-me verdadeiramente adulto, independente e livre.

- Tentar manter o idealismo, apesar de tantos motivos para decepção.

- Ter a maioria dos antigos colegas de escola casados (e as colegas quase todas já com filhos).

- Ter vergonha dos amores e poemas da adolescência e mais vergonha ainda por tê-los publicado.

- Ainda acreditar na política, crendo menos nos partidos.

- Não ter vergonha do passado e temer o futuro.

- Viajar sozinho e aproveitar a vida.

- Entrar bem menos nas redes sociais.

- Saber que temos mais de nossos pais em nós do que poderíamos pensar.

- Envergonhar-me por não ter assistido/lido alguns clássicos do cinema e da literatura.

- Não mais entrar em discussões levianas por futebol, religião e política.

- Diminuir os copos de cerveja porque barriga saliente incomoda. Fumar raramente só pra não perder o costume, e apenas nos acampamentos, para espantar os insetos inconvenientes.

- Comer menos se quiser me manter frequente nas peladas da turma. Continuar a frequentar, pelo menos duas vezes por semana, a academia para me esconder do sedentarismo.

- Não precisar fazer mais tanta média com as pessoas e ser menos polido quando for preciso.

- Dormir menos, comer menos e ter menos noitadas.

- Comparar-me com o colega mais jovem que ficou rico e sentir-me meio fracassado.

- Reconsiderar antigas inimizades.

- Emocionar-me menos com a morte.

- Continuar amando a literatura e os estudos.

- Criticar menos os Estados Unidos e repensar os meus conceitos sobre Cuba e o socialismo (na verdade já faço isso desde os 25).

- Deixar a barba crescer menos porque um ou outro fio cinza espessamente insiste em aparecer precoce.

- Ficar feliz por não ter entradas de careca (teoria do mal menor: prefiro os cabelos brancos à calvície).

- Afastar-me das religiões, aproximar-se do humanismo.

- Saber que o MBA não me fez melhor e nem o mestrado e o doutorado me farão.

- Ouvir menos Los Hermanos e Raul Seixas. Continuar ouvindo Pink Floyd e Chico Buarque.

- Continuar fã dos Beatles, mas não mais idolatrar o Paul McCartney.

- Lamentavelmente ou não, sentir-me mais conhecedor do mundo, não adaptado, mas conscientemente um ser vivente.

- Continuar sonhando com coisas e pessoas que incomodam.

- Ter orgulho imenso em ter todos os avós vivos.

- Ter tristeza por saber que não dei um neto a meu pai e sentir saudade imensurável dele.

- Pensar na possibilidade de casar e ter filhos.

- Seguir bebendo vinho e apreciando cada dia mais a bebida celestial.


- Constatar que o velho clichê “a vida passa rápido” é uma terrível verdade, apesar de continuar sendo um clichê brega.

- Não ter mais vergonha de ir ao cinema em estreias de filmes de animação.

- Lamentar até hoje a  arbitragem na final do campeonato brasileiro de 99 e a grande fase do goleiro Dida naqueles dois jogos.

- Ter raiva eterna da atuação do Galo contra o Raja Casablanca.

- Acreditar pacienciosamente no amor, ou viver feliz sem um.

- Projetar-me despretensiosamente sábio na velhice.

- No domingo, 02 de março, é meu aniversário. Posso me iludir que estou na melhor fase da vida (pode ser mesmo uma ilusão, ou não, pode ser a verdade) ou esperar para que ela brevemente chegue.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Sobre Barroso, Eduardo Pinto, Antônio Claret e a Política

Estive em São João del-Rei neste final de semana para receber uma motoniveladora para Itaguara. Aproveitei, visitei Barroso, flertei com o passado e vislumbrei futuros. Escrevi essa crônica com o coração cimentado por sentimentalidades barrosenses e imaginando o que virá. 

Um café e uma cerveja:
o passado, o futuro e a política

Alisson Diego Batista Moraes *

Dudu até que era um pivô regular, não era rápido com a bola nos pés, mas era habilidoso e ocupava bem os espaços da quadra. Fez alguns gols sob as traves que defendi. Eu era um goleiro mediano, pegava bolas difíceis e tomava alguns gols por completa distração. Mas lembro que vencemos o time do Dudu, da sétima série, no principal campeonato que disputamos naquele ano: os Jogos da Primavera, que aconteceram no CECLANS, coordenados pelo nosso entusiasta professor-radialista Galdino Silva.

Missa de Formatura da 8ª série do CSJ em Barroso, 1999
Já o Antônio, flamenguista de carteirinha, jogou no meu time. Jogava na frente, não gostava de marcar, mas batia com os dois pés, e embora não pudesse ser chamado de talentoso, era bom jogador para os nossos padrões. O que fazia dele um atacante respeitado, entretanto, era a camisa vermelha do Milan, que sempre gostava de usar. Aquilo nos invejava porque ninguém da turma tinha uma camisa oficial de um time estrangeiro. Ainda mais o Milan, da Itália, do Leonardo!

Dudu sonhava em jogar no Cruzeiro, Antônio no Flamengo e eu, no Galo. Claro, tudo como mandava o script infanto-juvenil no fim da década de 90 e com trilha sonora do Skank, que por sinal, tinha lançado É Uma Partida de Futebol, mais ou menos naquela época.

O tempo passou. Chegou a “adultice”. Eu não me tornei goleiro do Atlético, apesar de ter insistido até os 15 anos com o futebol. Antônio abandonou a bola e investiu na guitarra. Tampouco Dudu se tornou craque celeste. Tornamo-nos, os três, políticos. E não era algo impensável há uma década e meia atrás que nos tornássemos jovens políticos. Sempre fomos líderes de turma, envolvidos com grêmio estudantil e organizadores das festas escolares.

Neste final de semana, em visita a Barroso (cidade a 40 km de São João del-Rei, onde morei de 1995 a 2000), encontrei os dois ex-colegas de futebol e amigos para a vida inteira. Dudu, jovem e promissor vereador barrosense, foi eleito no último pleito, um dos mais votados da cidade. Já o Antônio, é mestre em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro e trabalha com políticas sociais no governo do estado. Quanto a mim, tornei-me prefeito de Itaguara, depois de ter sido vereador.

Após anunciar, por telefone, a minha repentina visita, recebi o convite do amigo Dudu para um café na Câmara Municipal. Agradável o café e mais agradável a conversa. Falamos do atual cenário político mineiro, lembramos saudosistas dos tempos de Colégio São José e conjecturamos bastante sobre o futuro. Foi bom demais ter revisto o amigo Dudu, que apesar das agruras porque passa como edil, demonstra um sublime e contagiante entusiasmo com a política enquanto ferramenta de transformação social.

Logo depois, fui convidado pelo Antônio a beber uma cerveja naquele fim de tarde de sol muito forte, num bar perto da rodoviária. Lá, a conversa fluiu remansada, como as águas do Rio das Mortes. Como é bom conversar com o Antônio. Os assuntos são tão variados que dá gosto! Economia, esportes, filosofia, poesia, astronomia e até política. Antônio fala com aprazimento sobre as possibilidades que a política tem de mudar para melhor a vida das pessoas.

Antônio é do PSDB. Dudu é do PV. E eu, do PT.  Mas as siglas pouco importam. Se divergimos nos métodos, o objetivo é o mesmo: queremos uma realidade melhor para as nossas cidades, nosso estado e nosso país. E é por isso que, apesar de tantos motivos para desesperança, ainda acreditamos na política.

Confesso que Barroso tem a capacidade de me revigorar. Reacende em mim aquela velha centelha no coração que diz que a política ainda tem jeito. Antônio, Dudu e essas lembranças me motivam a seguir em frente.

No fundo, somos os mesmos moleques encantados por futebol, apaixonados por nossas cidades e ansiosos por fazer da política algo muito melhor do que ela tem significado nos últimos tempos.


* Alisson Diego Batista Moraes, 28 anos, advogado e poeta. Exerce pelo segundo mandato a função de prefeito de Itaguara (cidade a 90 km de BH, na Região Metropolitana). É cidadão honorário de Barroso (com muito orgulho), funcionário licenciado do Banco do Brasil e possui MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas.