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domingo, 30 de janeiro de 2022

Vilma Guimarães Rosa: lepidez e luminosidade

Vilma Guimarães e Alisson Diego durante a Semana de Arte e Cultura
do Museu Sagarana em 2014. Acervo Prefeitura de Itaguara


Meu primeiro contato com Vilma Guimarães Rosa aconteceu no segundo semestre de 2009, no primeiro ano de mandato como prefeito de Itaguara, logo após o Ministério da Cultura (mais especificamente, o IPHAN) aprovar o projeto de criação do Museu Sagarana (Musa), no edital "Mais Museus", que tinha como um de seus principais objetivos a ampliação da rede museológica brasileira. Vilma, já haviam me advertido, possuía a fama de geniosa e fui aconselhado a ser esmerado no trato com ela. Um conhecido chegou a me dizer:  "Não entre em contato agora, é muito prematuro, faça isso quando iniciarem as obras do Museu". 

Seria, no mínimo, descortês e pouco ousado se eu não informasse a octogenária filha itaguarense de João Guimarães Rosa sobre as minhas intenções em construir um museu inspirado em Sagarana, obra que possui notável influência da Itaguara dos anos 1930. Com naturalidade, fiz uma ligação que durou cerca de 20 minutos. Ela ficou empolgadíssima e eu mais ainda. Já naquela primeira conversa, marcamos um encontro no Rio de Janeiro.

Alisson Diego e Vilma em 2014. Acervo pessoal.


Desde o início, Vilma se mostrou muitíssimo amável e entusiasmada com o projeto do Musa. A partir daí, desenvolvemos uma belíssima relação de amizade. Entre o segundo semestre de 2009 e abril de 2012, quando o Museu Sagarana foi finalmente inaugurado, foram centenas de ligações, dezenas de cartas, vários cartões-postais (sempre que viajava ao exterior, ela fazia questão de enviar postais aos amigos próximos) e alguns encontros presenciais. 

Inauguração do Museu Sagarana em abril de 2012

Vilma e Peter, seu esposo falecido em agosto de 2021, tornaram-se amigos muito próximos. Não vinham a Minas Gerais sem me avisar. Nunca deixamos de nos encontrar pelo menos uma vez ao ano desde 2009. Cheguei, inclusive, a comemorar um aniversário no Rio de Janeiro com um almoço em Copacabana acompanhado do casal. Entre um gole de vinho branco e um camarão, planejamentos sobre o Musa e demoradas conversas sobre Minas Gerais e as histórias familiares do Doutor João e de Dona Lígia.

Há 22 dias, liguei para Vilma, estava com voz firme e tom vivaz. Chegamos a combinar um almoço na capital fluminense. Marcamos até a data: segunda semana de fevereiro. Mas o destino, traiçoeiro que só, não permitiu que esse encontro acontecesse, não me proporcionou um abraço de despedida. Sônia Márcia, sobrinha de Vilma, ligou-me há pouco para dizer que a luminosa "Vilminha" (como amigos e familiares a chamavam) havia partido após sofrer três paradas cardíacas no hospital onde estava internada. Um baque. Tirou-me a voz, ceifou-me o verbo.

Sou tomado, agora, no calor dessa notícia da passagem de Vilma (ela odiava as palavras morte e falecimento, agradava-lhe a expressão inglesa pass away), por um duplo sentimento: uma tristeza profunda por sua perda, mas ao mesmo tempo uma imensurável gratidão por tê-la conhecido e por ter desfrutado de sua convivência tão amável ao longo desses anos.

A emoção me faz relembrar, neste instante, de um dos encontros inesquecíveis com Vilma Guimarães Rosa e Peter Reeves. Aconteceu em fevereiro de 2012, no Iate Clube do Rio de Janeiro. Marcelo Costa, curador do Museu Sagarana naquela ocasião, e eu estávamos muito ansiosos porque, apesar das amabilidades telefônicas, o contato pessoal sempre traz um quê de surpresa. Era o primeiro almoço. Além do mais, Vilma nutria a fama de ser muito supersticiosa e, se não se sentisse bem com alguma companhia, simplesmente encerrava o colóquio e ia embora, sem cerimônias (exatamente assim diziam as pessoas que alimentam análises de personalidades alheias).

Fomos afortunados. Para a nossa sorte, Vilma se emocionou logo ao me ver e disse, após um abraço apertado, que sentiu a presença do pai em minha face arredondada e adornada pelos óculos meio abaulados. "Embora essas hastes sejam mais finas, o formato do rosto e esses óculos me lembraram muito o papai". Perguntou minha idade, elogiou minha aparência, indagou sobre as mudanças em Itaguara e o gelo estava quebrado. Passamos a tarde inteira no Iate Clube. Aquele dia significou uma aproximação mágica da filha com a sua terra, do passado distante com um presente alvissareiro. Vilma me confidenciou, ao final daquele encontro, que, naquela fase da vida, estava cada vez mais saudosista e tinha a necessidade de se sentir pertencida aos laços originários, se sentir itaguarense "de verdade". Embora já tivesse ido à sua cidade em outras três ocasiões, nas décadas de 70, 80 e 90 respectivamente, Vilma pouco tinha "sentido a sua terra".

Foi na distante Itaguara, ainda distrito de Itaúna, onde Vilma Guimarães Rosa nasceu, em 05 de junho de 1932, sob as copiosas lágrimas do pai - aquelas lágrimas foram o seu primeiro banho, relatara anos depois na obra "Relembramentos: João Guimarães Rosa, meu pai", livro obrigatório para os admiradores do escritor. Naquela calorosa tarde carioca de 2012, com emotividade de sobra, as origens foram relembradas e os laços reatados. Foram horas de uma terníssima conversa que abordou o pai, a mãe (a jovem professora Lígia Cabral Pena nos anos 30), os avós Chiquitinha e Fulô,  que também moraram em Itaguara nos anos 60, o tio-escritor Vicente Guimarães, o tio-médico-prefeito Antônio Geraldo de Oliveira e a tia Isa e, claro, falamos muito das perspectivas para o Musa, um projeto comum que fazia os nossos olhos brilharem.

No fim do almoço, ela ainda me disse que Itaguara possuía uma importância lírica grandiosa na obra do pai e que poucas pessoas ainda tinham se atentado para isso. "Ele se perguntou, várias vezes durante a vida, se deveria mesmo ter saído de Itaguara; pensava que, se tivesse vivido como médico ali, a sua vida literária poderia ter sido ainda mais profícua". Outra revelação de Vilma naquele almoço também me comoveu: "Papai me disse, alguns meses antes de morrer, que queria se aposentar do Itamaraty e se mudar para Itaguara, onde iria construir uma fazendola cercada por muros altos para evitar visitas desagradáveis e se dedicar em paz a escrever e admirar o céu de Itaguara". 

Almoço no Rio de Janeiro em fevereiro de 2012

A amizade e os projetos comuns renderam frutos. Vilma fez várias doações para o Musa e tive a oportunidade de ser anfitrião dela e de Peter algumas vezes em Itaguara. Em abril de 2012, Vilma passou cinco dias na cidade por ocasião da inauguração do Museu Sagarana. Foram dias sublimes de emoções fortes para todos nós, sobretudo para ela. Emocionou-se muito e, durante vários momentos deixava com que as lágrimas rolassem, o que também nos impelia ao choro. Relembrava o tempo das histórias que ouvira sobre quando seus avós moraram na cidade. Apesar de ter se mudado de Itaguara ainda criancinha, Vilma dizia que havia crescido ouvindo casos da cidade.

Possivelmente, uma das maiores emoções vivenciadas por Vilma em Itaguara tenha se dado numa visita à comunidade de Pará dos Vilelas, em abril de 2013, o cenário que inspirou o jovem doutor Guimarães Rosa a escrever Sarapalha, o conto mais triste de Sagarana e, que, segundo consta, o escritor menos gostava. Vilma me contou que, na realidade, o pai gostava sim de Sarapalha, mas o fato de aquela triste história realmente ter acontecido o incomodava bastante. 

Pará dos Vilelas em abril de 2013

Vilma foi uma das pessoas mais surpreendentes que conheci até hoje em meu percurso existencial, fazendo jus, durante toda a sua vida, às adjetivações que seu pai lhe atribuíra ainda criancinha: "lépida, límpida e luminosa". Com o passar desses anos, deixou de ser a filha do escritor que eu admirava desde a infância para se tornar uma verdadeira amiga.

Em todas as visitas que fez a Itaguara, incluindo a inauguração do Museu Sagarana, ela sempre agradecia a oportunidade do contato restabelecido com as suas origens e dizia que a aproximação com a sua terra foi um grande presente no fim da vida. Em perspectiva, posso dizer que Vilma é que foi uma dádiva na vida comunitária itaguarense e, particularmente, uma sublimidade para mim. 

Vilma, conterrânea, amiga fraterníssima e dileta mestra, descanse em paz. Daqui seguiremos, com muitas saudades, o seu legado e o compartilhamento de sua memória e da genialidade literária de seu pai, nosso Cervantes das Gerais. Cordisburgo e Itaguara estão de luto. O céu está em festa, os Rosa se reencontraram: Doutor João, Dona Lígia, Agnes e Vilma agora se abraçam sob um céu mais que azul, ouvindo os cantos das andorinhas, tal qual faziam no distrito conquistano há quase um século. 

De tudo, restarão as memórias, o afeto e a gratidão.

Os relembramentos hão de existir porque a morte não deve ser o fim.

terça-feira, 24 de agosto de 2021

Homenagem à Maria Geralda Costa

A seguir, compartilho texto escrito para um livro organizado pela presidente da Casa de Dona Dorica, Maria Luiza da Silveira, e pelo bispo da Diocese de Oliveira-MG, Dom Miguel Ângelo Freitas Ribeiro, em homenagem à educadora itaguarense Maria Geralda Costa.


O maior legado é a inspiração *


Lançamento de O Tempo e as Estrelas em 2014

Era um friorento anoitecer de um sábado julino em Itaguara. O ano era 2001 e, naquela época, acontecia o I Festival de Inverno. Aos 16 anos de idade, eu atuava, como membro do Grupo Municipal de Teatro Vidas em Artes, em uma peça teatral que retratava aspectos pitorescos da vida de João Guimarães Rosa em Itaguara. A autora do roteiro era justamente Maria Geralda Costa.    O local escolhido para a encenação não havia sido o mais adequado: uma tenda simples e sem fechamentos laterais, instalada na parte de cima da Praça da Matriz. Além de a acústica não favorecer, havia uma competição sonora entre nossas vozes e os múltiplos ruídos dos bares.

Por essa razão, tivemos, todos os participantes daquela peça, de aumentar consideravelmente o nosso tom de voz, de modo que precisávamos quase gritar para que fôssemos ouvidos pelo público. Por força do destino ou forçada coincidência, a personagem que eu interpretava era o meu bisavô, João Batista da Silveira, que havia sido amigo e paciente do jovem Doutor Rosa nos anos 30. Um homem de poucas e assertivas palavras, um contemplador de silêncios – assim o conheci, uma paradoxal imagem da interpretação que eu imprimi ao personagem naquele sábado. 

Dona Maria Geralda Costa, que estava assistindo àquela apresentação, não gostou nada do que testemunhou e teceu críticas veementes, tanto ao corpo de atores quanto à prefeitura. Lembro bem de suas palavras: “O seu bisavô jamais esbravejaria como você nesta peça. Era um homem que falava baixo e educadamente. Vocês todos estão mais para uma banda de rock do que para um grupo de teatro. Deveriam refazer essa apresentação.

Alguns reclamaram do tom da crítica, mas eu a levei como uma observação construtiva. O prefeito Bira e a secretária de Cultura, Terezinha Mary, ouviram também as críticas e interpretaram-nas como uma necessária correção de rota daquele festival. Eventos teatrais não poderiam, de fato, rivalizar com bares e precisariam de local e horários mais apropriados.

A peça foi reapresentada dias depois, no Salão Paroquial, ainda dentro das programações daquele pioneiro festival. Ao fim da reapresentação, as palavras de Dona Maria foram: “Agora ficou ótimo. Atores calmos e falas serenas. Vocês retrataram muito bem as personagens e o tempo histórico. Honraram a alma de Guimarães Rosa, João Batista, Pedro Silva, Antônio Moraes e os demais personagens. Estou muito orgulhosa de vocês. Eu sei ser crítica, mas também sei ser elogiosa”.

Havia muitas maneiras de homenagear a Maria Geralda Costa, mas quis contar essa história porque ilustra muito bem a personalidade forte ladeada pela generosidade compreensiva que ela possuía. Jamais elogiava por elogiar, mas jamais deixava um elogio sincero passar. Era mulher de fé, de caráter sóbrio, de alma rara, de coração puro e de posições firmes. Sobre sua fé cristã, Maria Geralda jamais a desvencilhou de sua existência. Sua atuação comunitária é, até hoje, um inequívoco exemplo para toda a Diocese de Oliveira. Lembro-me de encontrar com ela, já octogenária, algumas vezes, aguardando o ônibus para Oliveira, a fim de conversar com o Dom Miguel assuntos referentes à Pastoral da Criança. Do mesmo modo, participei, ao lado dela e de Maria Luiza, de dezenas de reuniões e celebrações na Casa de Dona Dorica. Onde houvesse um bom projeto filantrópico e humanista, lá estava Dona Maria Geralda Costa.

Dos tempos em que fui vereador e prefeito, guardo ainda muitas recordações de Dona Maria, como quando me presenteou com um livro: A Doutrina Social da Igreja; o regalo veio acompanhado de uma longa conversa a respeito dos descaminhos políticos de nosso tempo e do individualismo que corroía as relações sociais e dinamitava o sentimento de comunidade. Diagnósticos feitos, compartilhávamos de uma mesma certeza: apesar de tudo, não poderia haver espaço para o pessimismo. Construir uma cidade e um mundo melhores dependiam de nossa ação na Terra e era isso o que deveríamos fazer até o fim de nossos dias. Foi exatamente isso o que ela fez.

Maria Geralda Costa deixou o maior legado que se pode deixar neste planeta: a inspiração.


* Alisson Diego Batista Moraes  

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

A voz das urnas: um olhar analítico e algumas constatações

Urna eletrônica é embalada para uso durante as eleições, na Escola Judiciária Eleitoral do Rio de Janeiro
- 26/09/2018 Mauro Pimentel/AFP


Passadas as eleições municipais, é momento de se debruçar sobre os resultados eleitorais e decodificar, com racionalidade, a voz das urnas. Não é tão simples, como podem sugerir alguns especialistas, analisar, com a devida contextualização, os resultados de um processo eleitoral, sobretudo num país tão extenso, plural e complexo como o nosso. Requer frieza e afastamento das passionalidades. Este artigo se propõe a fazer uma breve análise, com uma abordagem a mais clara e objetiva possível. 

Pode-se dizer que os grandes vencedores deste pleito foram os partidos representantes do famigerado “centrão” - esta é a primeira constatação proveniente das urnas dos municípios. As agremiações partidárias PP, DEM, Republicanos e PL, algumas das principais representantes da centro-direita, tiveram crescimentos relevantes, tanto no número de prefeitos, quanto de vereadores. Essa tendência foi observada no Brasil e em Minas Gerais, onde os partidos tradicionais também perderam espaço: MDB, PSDB e PT reduziram significativamente o número de prefeitos eleitos em comparação com as últimas eleições. 

Desde a redemocratização, essa foi a primeira vez que nenhum partido elegeu mais de cem prefeitos em nosso estado – o que caracteriza outra significativa característica deste pleito municipal, tanto em Minas Gerais, como em todo o território nacional: a pulverização partidária – eis a segunda constatação. As grandes agremiações partidárias (MDB, PSDB e PT, principalmente) perderam espaço para legendas mais novas (PSD, Podemos, Solidariedade e Avante, por exemplo). Em Minas Gerais, assim como no Brasil, o MDB permanece na liderança como a legenda que mais elegeu representantes no Executivo municipal, mas a queda foi considerável. Em 2020, foram 98 prefeitos eleitos em Minas Gerais – 61 a menos que nas eleições de 2016, quando a sigla obteve 159. Em seguida aparecem: PSDB (86 prefeitos), DEM (84), PSD (78), PP (65) e Avante (50).

Quando se analisa a população governada, o PSD é o partido que governará o maior número de habitantes no estado (4,5 milhões), seguido por DEM (1,9 milhões), PT (1,8 milhões), PP (1,7 milhões) e PSDB (1,6 milhões). Os números deixam claro que o PSD é o grande vencedor em Minas Gerais, sobretudo por ter levado a capital com a reeleição histórica de Alexandre Kalil com  63,36% dos votos válidos. Já as vitórias do PT no segundo turno em Juiz de Fora (Margarida Salomão) e Contagem (Marília Campos) recolocaram o partido no mapa eleitoral mineiro e evitaram um declínio ainda maior. 

A terceira constatação diz respeito às abstenções neste pleito em tempos pandêmicos. O Brasil registrou uma abstenção de 23,14% (34,2 milhões de eleitores deixaram de votar), o que representa a maior taxa dos últimos 20 anos em eleições municipais. Na eleição mais recente, a presidencial de 2018, a abstenção no primeiro turno ficou em 20,33%. Nos pleitos anteriores, o não comparecimento ficou em 17,6%, em 2016, e 16,9% em 2012 (números do primeiro turno). Os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro apresentaram os maiores índices de abstenção de eleitores no primeiro turno das eleições municipais, 27,3% e 28%, respectivamente. Em Minas Gerais, a taxa de abstenção foi de 23%. 

Uma questão absolutamente relevante é a taxa de reeleição dos prefeitos brasileiros. O percentual de chefes locais do executivo que conquistaram um segundo mandato é o maior desde 2008. Cerca de 63% dos candidatos que tentaram a reeleição foram exitosos. Em 2016, o percentual de reeleição foi o menor da história, desde que foi aprovada a reeleição no país (47%). Nos 853 municípios mineiros, 346 prefeitos foram reeleitos, o que corresponde a 40,63% do total – um crescimento significativo também no estado, quando se compara com as eleições passadas cuja taxa de reeleição foi de 24%. A quarta constatação, portanto, é o aumento da taxa de reeleição. 

Derrota dos grandes partidos, pulverização partidária, aumento da abstenção e alta taxa de reeleição são quatro importantes constatações desse pleito, mas ainda nos resta mencionar pelo menos outros dois sinais emitidos pelas urnas municipais: a derrota de Bolsonaro e o impacto para as eleições presidenciais de 2022 (ao final deste artigo ainda mencionarei a histórica sub-representação em nossa democracia). 

O presidente Bolsonaro, mesmo sem partido, participou ativamente de algumas candidaturas a prefeito e o fez por meio das suas icônicas “lives” semanais transmitidas por suas redes sociais. Ele apoiou abertamente 63 candidatos em todo o país: 18 a prefeito, 1 a senador (em Mato Grosso, houve eleição suplementar) e 44 a vereador. Apenas 11 candidatos a vereador e 5 a prefeito foram eleitos – um deles é o mineiro Gustavo Nunes (PSL), prefeito eleito de Ipatinga, no Vale do Aço. As principais derrotas bolsonaristas se deram nas capitais de São Paulo e do Rio de Janeiro. Celso Russomanno (PRB), começou a campanha liderando as pesquisas de intenção de voto para a Prefeitura de São Paulo, mas quando recebeu o apoio formal do presidente, despencou nas pesquisas e terminou o pleito apenas em quarto lugar. O bispo da Igreja Universal e atual prefeito do Rio, Marcelo Crivella (REP), conseguiu chegar ao segundo turno, mas foi derrotado de maneira acachapante, obtendo apenas 35,93% dos votos, ante 64,07% de Eduardo Paes (DEM). O declínio do bolsonarismo é a quinta constatação dessas eleições municipais.

Cientistas políticos e analistas convergem acerca da derrota eleitoral sofrida pelo presidente e o consequente enfraquecimento do radicalismo e do discurso de ódio propalados por ele. Há, no entanto, uma indagação decorrente dessas constatações: quais os impactos para as eleições de 2022? Vislumbra-se uma derrota de Bolsonaro daqui a dois anos? 

A sexta e última constatação a respeito das eleições municipais, portanto, associa-se justamente ao futuro da quarta maior democracia do planeta, que estará em jogo nas próximas eleições. Se é verdade que Bolsonaro foi um dos grandes derrotados no pleito municipal, disso não decorre que, necessariamente, ele perderá as eleições em 2022. “Ninguém chega ao poder por acaso”, lembra sempre o ex-presidente FHC em suas análises sobre a vitória de Bolsonaro em 2018. O capitão presidente é fruto de um amplo movimento de extrema-direita mundial que emergiu em várias nações nos últimos anos – consequência também de descontentamentos das populações com a corrupção e a economia vacilante, incapaz de promover prosperidade e oportunidades. Assim como não “surgiu do nada”, mas como fruto de um amplo, avassalador e complexo processo, o bolsonarismo não desaparecerá num estalar de dedos e não está liquidado, mesmo após o seu fraquíssimo desempenho nas eleições municipais (analogamente, podemos dizer que o trumpismo não acabou com a derrota de Trump nos EUA). 

Com o declínio de Donald Trump e os claros sinais emitidos contra o radicalismo nas eleições municipais brasileiras, o enfraquecimento do bolsonarismo e de tudo o que ele representa é uma constatação irrefutável. Não se pode, entretanto, subestimar o presidente que, em alguma medida, conseguiu “dialogar” e convencer o eleitorado brasileiro em 2018, ainda que se valendo de métodos nada convencionais e fortemente incivilizados – a máquina “eficiente” que gerou e disseminou milhões fatos distorcidos e incitou o radicalismo ainda está no poder. 

Conta a favor de Bolsonaro, ainda, o fato de que não há, hoje, um nome que seja capaz de unificar nem a esquerda, nem a centro-direita. “O tempo urge e a Sapucaí é grande”, relembra o velho bordão dos sambistas cariocas, atentando-se para o fato de que para atravessar a arena do samba é preciso ter ritmo e “correr contra o tempo”. Para esta analogia, o tempo conta a favor do presidente capitão. Para vencê-lo daqui a dois anos, será necessária uma dificultosa união em torno de uma frente antibolsonarista. A sexta constatação destas eleições se resume em uma frase: Bolsonaro perdeu a batalha, o bolsonarismo está em declínio, mas a guerra ainda não acabou. 

Itaguara e região 

Passemos agora a uma breve análise em nível regional. Itaguara possui uma evidente tradição em reeleger seus prefeitos. Desde 1997, quando foi aprovado o instituto da reeleição no Brasil, todos os chefes do Executivo local que se recandidataram, venceram as eleições. Foi assim com Bira, em 2004, comigo, em 2012, e com Donizete Chumbinho (PSDB) em 2020. O único prefeito não reeleito foi Rui Lara, que poderia ter sido candidato em 2000, mas optou por não se recandidatar.

Chama a atenção no pleito de 2020, em Itaguara, a expressiva votação obtida pelo atual prefeito. Muitos podem argumentar que não houve disputa contra um adversário competitivo (de fato, a comparar com as eleições de 2000, 2008 e 2012 isso é um fato), mas essa argumentação se fragiliza, uma vez que o comparecimento às urnas foi maciço , mesmo diante da pandemia. Ou seja, os itaguarenses saíram de casa, neste ano, para votar maciçamente em Chumbinho, que alcançou uma vitória absolutamente maiúscula. 

Em meus cálculos, Chumbinho foi o segundo prefeito mais votado de todo o estado de Minas Gerais, com 91,62% dos votos válidos (10,40% votaram nulo, 8,38% votaram em Bruno Cartier e 6,39% votaram branco), perdendo apenas para o prefeito de Serra do Salitre, na região do Alto Paranaíba, que alcançou 92,26% dos votos válidos de sua cidade, contra 7,74% de seu único adversário. 

Na cidade de Piracema, por outro lado, a tradição consiste em não reeleger prefeitos. No município vizinho, o ex-prefeito, Adílson Greco, perdeu as reeleições de 2008 e de 2016. O ex-prefeito piracemente, Cássio Melo, por sua vez, foi derrotado ao tentar a reeleição em 2012 e o atual prefeito, Antônio Osmar (PSDB), perdeu a reeleição em 2020. 

Outro município que faz divisa com Itaguara e que chama a atenção nestas eleições é Carmo do Cajuru. Pela primeira vez na história, o município teve candidato único, o atual prefeito, Edson Vilela (PSB), que conseguiu a reeleição com 9.427 votos. A abstenção foi de 20,41% (3.692 eleitores). Dos 79,59% que foram votar, 34,51% anularam ou votaram em branco e 65,48% escolheram o prefeito reeleito.

A sub-representação é uma grave disfuncionalidade de nossa democracia refletida em nossa região: mulheres e negros são a maioria da população brasileira, mas a minoria na política. Seguindo a tendência nacional, ainda é muito baixa a representatividade política feminina em nossa região. Registre-se que, dentre as cidades limítrofes de Itaguara, foram eleitas apenas seis vereadoras: Jaqueline, em Carmópolis de Minas, Débora, em Carmo do Cajuru, Adriana e Rose, em Itatiaiuçu, Luzia e Carol em Rio Manso. Itaguara, Crucilândia, Cláudio e Piracema não elegeram nenhuma mulher para o parlamento municipal. Nosso índice regional é abaixo de 10% de mulheres no legislativo, considerando as 74 vagas nas câmaras municipais das oito cidades. Dentre os 16 prefeitos e vices eleitos, apenas uma é mulher: Aline Bruna Greco, vice-prefeita eleita de Piracema.

Dentre os mais de 5,4 mil prefeitos eleitos, cerca de 1,7 mil se declararam pretos ou pardos, o que corresponde a 32% do total. O número é superior a 2016, quando 29% dos candidatos eleitos eram negros, ainda assim, a proporção é distante dos 56% que esse grupo representa na população brasileira. Nenhum dos oito prefeitos e vices das cidades citadas se declarou preto ou pardo e a minoria dos vereadores também se identificou dessa maneira. Há cidades da nossa região que não elegeram sequer um vereador preto ou pardo. Vale mencionar Itaguara que, se não possui nenhuma mulher no parlamento municipal, ao menos elegeu 4 vereadores pretos ou pardos.

Por fim, entremeio análises circunspectas, faz bem trazer uma curiosidade: o prefeito mais velho brasileiro é um mineiro. Aos 95 anos, José Braz (PP) comandará a prefeitura de Muriaé, na Zona da Mata, a partir de janeiro. Quando fui eleito prefeito, em 2008, um dos mais jovens do país, José Braz, naquela mesma eleição, foi reeleito prefeito de Muriaé e já figurava como um dos mais idosos do Brasil. Inclusive, ambos concedemos entrevistas para o programa MGTV, da Rede Globo, naquela oportunidade, falando sobre os desafios de administrar nossas cidades. Como vencer as eleições, o nonagenário José Braz não conta, mas o segredo da longevidade ele revela: "A idade não me pesa, graças a Deus! Tenho muita saúde, muita determinação. Bebo muito pouco, nunca fumei, como bem pouco e só como coisas boas para a saúde. Meu pai e minha mãe viveram muito, minha mãe viveu 105 anos”. 

É isso. 

* Alisson Diego Batista Moraes, advogado, bacharel em Filosofia (UFMG), MBA em Gestão de Empresas pela FGV, mestrando em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Foi prefeito de Itaguara-MG entre 2009 e 2016 e vereador entre 2005 e 2008. // Artigo publicado na edição de dezembro de 2020 no Jornal Cidades, editado em Itaguara/MG.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Reflexões necessárias: quatro anos depois

Posse como prefeito de Itaguara-MG, em janeiro de 2009,
aos 23 anos de idade. O mais jovem prefeito da esquerda brasileira
naquela ocasião e um dos 10 prefeitos mais jovens do Brasil.


Ainda hoje, algumas pessoas indagam-me sobre as razões que me fizeram desfiliar do Partido dos Trabalhadores, conjecturando se houve mágoas, dissensos ou rancores. Passados mais de quatro anos desde o meu desligamento da legenda, acredito que já é hora de falar sobre o assunto, o qual, para mim, jamais foi considerado tabu. 

Quem acompanhou de perto a minha vida pública sabe que sempre manifestei discordâncias em relação à direção nacional do Partido dos Trabalhadores que, em vez de estabelecer punições exemplares aos filiados e mandatários comprovadamente envolvidos em casos de corrupção (com a expulsão sumária nas situações mais graves), optou pelo caminho da autopreservação de seus quadros, o que gerou, gradualmente, a rejeição da ampla maioria da população brasileira e fortaleceu o moralismo verborrágico patrocinado oportunisticamente pela autoproclamada  “nova direita”. 

Com a reeleição da ex-presidenta Dilma Rousseff (a qual apoiei dedicadamente em 2014) e o agravamento da crise econômica, política e social, as contradições, antes submersas diante dos êxitos das políticas públicas e econômicas, emergiram notoriamente. O fato era que, naquele momento, em fins de 2014 e início de 2015, o Brasil estava diante de dois polos assombrosos. De um lado, veio à tona o estelionato eleitoral patrocinado por Dilma (tampando o sol com a peneira sobre a real situação econômica do país, escondendo a crise ao passo que optava por uma mambembe ortodoxia econômica). De outro lado, estava o golpismo de Aécio, que passou a conspirar contra a democracia desde o dia em que sua derrota foi selada nas urnas. 

Diante desse impasse tártaro, minha angústia chegou aos níveis mais elevados possíveis e apenas não tomei a decisão de deixar o PT logo após os primeiros descaminhos de Dilma no segundo governo, por absoluto respeito e lealdade aos companheiros e companheiras do PT de Itaguara e pela sordidez e velhacaria que compunham as forças antidilmistas. 

Rememoro ainda que, apesar de o segundo governo Dilma ter sido acentuadamente frustrante, como prefeito à época e como liderança do partido, manifestei-me abertamente contra o impeachment, uma vez que inexistia crime que o justificasse e como bem lembrara o Ciro Gomes: “Impeachment não pode ser remédio contra governo ruim”. 

Aquela seria uma boa hora de o PT fazer uma autocrítica e se dirigir ao povo brasileiro com transparência e humildade, propondo uma mudança estrutural, tanto do partido quanto do sistema político perverso que engendrou o presidencialismo de coalização nas últimas décadas (o presidencialismo de coalização foi capaz de trazer conquistas importantes para a sociedade brasileira - controle inflacionário e diminuição da desigualdade social, mas o modelo se esgotou com o loteamento de cargos, o fisiologismo reinante e a corrupção como consequência sistêmica). Dilma e o PT, entretanto, prefeririam se entrincheirar e nada de novo foi proposto. Infelizmente. 

Muitos correligionários, naquele momento e ainda hoje, advogavam a tese segundo a qual o PT teria sido apenas vítima de um consórcio nefasto da elite brasileira e que o Poder Judiciário foi o protagonista de uma união com setores políticos com o único objetivo de encarcerar Lula e perseguir o PT. Nunca concordei integralmente com essa tese e o puro vitimismo de ocasião, aliado ao messianismo lulista implodiram as minhas esperanças em vislumbrar uma reforma sistêmica do partido no qual iniciei minha militância ainda na adolescência. 

Se, por um lado, pode-se afirmar a existência, em algum grau, de lawfare (uso do sistema jurídico como parte de uma estratégia contra adversários — o que está claro com a Vaza-Jato, graças ao trabalho jornalístico investigativo do The Intercept), por outro, não se pode admitir que todos os escândalos e processos possam ser enquadrados como práticas de lawfare. Aconteceram desvios graves que ensejariam uma autocrítica sincera e um pedido de desculpas ao povo brasileiro para, a partir daí, iniciar uma reconstrução partidária com bases éticas e participativas. Bases que, no início do partido, fizeram com que intelectuais respeitados como Paulo Freire, Maria Victória Benevides, Paul Singer, Marilena Chaui, Frei Betto, Sandra Starling, Francisco de Oliveira, Francisco Weffort, Plínio de Arruda Sampaio e Florestan Fernandes estivessem ao lado de trabalhadores, membros da Igreja Católica, sindicalistas, representantes de inúmeros movimentos sociais, setores progressistas e tantos outros setores esquecidos e/ou marginalizados, para a criação de um histórico movimento de inclusão e integração da sociedade brasileira. 

Ao cenário distópico e desesperançado dos anos de 2014/2015, somou-se um fato importante: como estava encerrando o mandato como prefeito, fui aconselhado a não manter filiação partidária por um tempo, uma vez que haveria a possibilidade de que eu trabalhasse com agentes públicos dos mais variados partidos na instituição financeira à qual sou vinculado. Após deliberações com o banco, optou-se por realizarmos uma cessão funcional a um ente público. Assim, assumi, em janeiro de 2017, a direção-geral do SAAE Itaúna, uma das 20 maiores autarquias municipais de saneamento básico de Minas Gerais - como se tratava de uma função eminentemente técnica, não caberia também filiação partidária, ao menos naquele momento. 

Após a derrota da legenda em Itaguara nas eleições de 2016, fui acusado de ter “boicotado o partido” naquele processo eleitoral (o que teria incitado, inclusive, um suposto processo disciplinar). Isso não é verdade! É descabido se falar em boicote. A grande questão era que eu, enquanto prefeito reeleito, tinha uma cidade para governar num ano terrivelmente problemático e afetado pela crise econômica com quedas recordes de arrecadação municipal. Diante deste cenário, não haveria condições de me envolver satisfatoriamente no processo eleitoral e meu objetivo precípuo era encerrar bem a gestão que se iniciara em 2009. E encerramos muito bem, afinal, com mais de 80% de aprovação por parte da comunidade itaguarense, com dinheiro em caixa e a prefeitura saneada. Quanto a essas injustas acusações de “boicote”, jamais contra-ataquei. Ao contrário, ponderei, pois entendi ser algo do “calor do momento” e, de coração, relevei em nome de uma longa e bela história que selou primorosas amizades, acima de quaisquer discordâncias ou distintas visões de mundo. 

É importante dizer de maneira inequívoca que a história do Partido dos Trabalhadores em Itaguara é profícua, com relevantes serviços prestados à comunidade itaguarense. Quando se fala do PT de Itaguara (deixando de lado as questões nacionais), fala-se, majoritariamente, de gente de bem, que sempre se envolveu com as questões comunitárias por genuíno senso de responsabilidade ético-social. Assim é quando se mencionam estes nomes: Hércules, Edileno, Marcilene e família Vilaça, José Geraldo, Gislande e família, Anésio, Geraldo Manoelino (o Bal), José Antônio de Castro, Camilo Leão, Nilo e Nilo Jr, Bete, Renaldo, Dalva e família, Maria Antônia, Tácio e família, José Maurício e família, Pedro Cássio, Madalena, Maria Rita, Elton Borges, Bruno, Gegê, Sônia Gonçalves, Jesus Moura, Glauco Ramos, Donizete Moura, Totonho e José Penido (os dois últimos in memorian) e pessoas que deixaram o partido, mas que registraram as suas contribuições na construção do projeto coletivo como o professor Cassinho, o Anderson Sansão, o Pedro Ribeiro, o Oliveiros Vilela, a Fabiana, a Karla, a Ceci Maria, a Sandra Freitas, o Marcelo, o Geovanni, dentre outros valorosos quadros (peço perdão a quem me esqueci de mencionar - este artigo foi escrito num átimo de inspiração, entremeio aulas do mestrado e conferência de artigos, e, fatalmente, de alguém devo ter esquecido). 

Por fim, rememoro as lições de vida e de governança do ex-presidente uruguaio e agora ex-senador, José “Pepe” Mujica, que acaba de se retirar da vida pública, após décadas de trabalho coletivo. Aos políticos brasileiros, sobretudo aos “lá de cima”, têm faltado a grandeza, a sabedoria e a humildade de Mujica, que passou de combatente tupamaro a um dos maiores estadistas de nosso tempo, referência democrática e líder da nação uruguaia na construção de um estado de bem-estar social, sem abrir mão da conciliação nacional. 

Pepe, mesmo quando era o líder de sua nação, jamais cedeu ao espírito perdulário, à ganância e às fatuidades do poder. Sempre viveu na simplicidade de sua gente, nunca se apegou às benesses da vida pública e fez de sua existência o retrato fiel de suas convicções. Sorte dos uruguaios. Mujica deixa um legado imensurável na política! Em sua última manifestação no Senado uruguaio, ele disse: “No meu jardim, há décadas não cultivo o ódio. Aprendi uma dura lição que a vida me impôs. O ódio acaba deixando as pessoas estúpidas. Passei por tudo nessa vida, fiquei seis meses atado por um arame, com as mãos nas costas, fiquei dois anos sem ser levado para tomar banho e tive que me banhar com um copo. Já passei por tudo, mas não tenho ódio de ninguém e quero dizer aos jovens que triunfar na vida não é ganhar, mas sim se levantar toda vez que cair.” Que aprendamos a nos levantar, sempre! E que miremos no exemplo pacificador e solidário de Pepe.


* Alisson Diego Batista Moraes.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

135 anos do nascimento de Arthur Vilaça: Um grande benemérito de Minas Gerais


Há 135 anos nascia um dos grandes ícones de nossa história regional. Nosso papel é relembrar todos aqueles que ajudaram na construção das nossas sociedades, afinal sabemos que somos frutos de uma rede de momentos históricos e herdeiros da história.

A história de Itaguara, Crucilândia e Itaúna são muito próximas - disso já sabemos. Mas algumas personagens digamos emblemáticas, aproximaram ainda  mais as nossas histórias. As três cidades beneficiaram-se da trajetória de Artur Vilaça e se orgulham de sua profícua existência. A seguir, compartilhamos texto de autoria do saudoso amigo e intelectual itaunense Guaracy de Castro Nogueira:

Prefeito itaunense e grande benemérito

Conhecido como Coronel Arthur Contagem Vilaça. Não o considero “coronel” segundo a antiga versão política, pois foi um inovador. Nesta biografia, pretendo dar-lhe o verdadeiro reconhecimento, já que temos uma perspectiva histórica para julgá-lo, longe das paixões políticas e daqueles que teceram comentários sobre sua presença marcante em nossa cidade. Quero de início, relatar um episódio raro de sua conduta, como líder autêntico.

Desde 1922, o Brasil vinha sendo sacudido por um verdadeiro frenesi revolucionário. Em Minas, Antônio Carlos estabeleceu o voto secreto, fundou a Universidade e liderou um grande movimento de renovação. Em Itaúna, os políticos tradicionais apoiavam o presidente Washington Luiz, saudado na convenção que o elegeu pelo brilhante deputado federal por Minas, o itaunense Dr. Mário Matos. A política do coronelismo oficial, em 1929, já havia escolhido, como candidato e futuro presidente, Júlio Prestes, que vinha fazendo boa administração em São Paulo, apoiado pelos governadores de 17 Estados. Antônio Carlos articulou a candidatura de Getúlio Vargas, tendo como seu companheiro de chapa João Pessoa, presidente da Paraíba. Surgiu a Aliança Liberal com o triângulo Minas, Rio Grande e Paraíba, para enfrentar o governo federal e os outros estados. Como de costume, os coronéis fraudaram a eleição em favor do candidato oficial. Aconteceu a Revolução de 1930. Em Belo Horizonte o 12.º R.I., depois de vários dias de luta, rendeu-se à Polícia Mineira.

Em Itaúna, Arthur Vilaça ficou ao lado das forças revolucionárias, organizou com jovens políticos locais, ente eles o Dr. Lima Coutinho, Juca Santos e Dr. Hely Nogueira, um pelotão para combater as forças tradicionais da República Velha. Minas colocou-se de pé. Surgiram a “Coluna Libertadora”, os Batalhões “Antônio Carlos”, “Olegário Maciel”, “Raul Soares”, “Mario Brant” e “Artur Bernardes”. Vilaça hipotecou apoio a Getúlio Vargas e como ato significativo denominou nossa praça principal de João Pessoa, assassinado em Recife. Em 24 de outubro Washington Luiz foi deposto e a 3 de outubro empossado Getúlio Vargas. Foi o fim do regime instituído em 1891. Registre-se que Artur Vilaça, anteriormente, foi vereador no período de 1.º de maio de 1912 a 1.º de janeiro de 1916 e, depois, Presidente da Câmara e Agente Executivo para o mandato que se iniciou em 17 de maio de 1927, com apoio das forças tradicionais do Partido Republicano Mineiro (nos municípios os nomes dos partidos tinham coloração local), praticamente único partido oficial, que dominava a política itaunense desde os tempos do Dr. Augusto Gonçalves de Souza Moreira. Nessa legislatura, os demais vereadores do município eram Dr. Mário Matos, Dr. Dario, Dr. Lincoln e Zezé Lima e havia mais quatro vereadores dos distritos.

Com a vitória da Revolução, Olegário Maciel continuou no governo do Estado e nomeou Artur Vilaça como o primeiro Prefeito Municipal com este título. Continuou administrando o município com isenção, dignidade e operosidade, sem usar dos poderes que tinha nesse período revolucionário, respeitando os direitos inalienáveis de cada cidadão. Os que perderam seu mandato se sentiram traídos; este acontecimento foi um divisor de águas na política local. Vilaça exerceu o mandato por 9 anos, 6 meses e 11 dias; permaneceu no cargo até 28 de janeiro de 1936, quando foi exonerado, a seu pedido, pelo Governador Benedicto Valadares. Getúlio que prometera reconstitucionalizar o país em 1936, implantou o Estado Novo em 1937, governando como ditador. Artur Vilaça, amigo dos antigos membros da Aliança Liberal, os que se tornaram signatários do famoso “Manifesto dos Mineiros”, entre eles Pedro Aleixo, Jonas Barcelos Corrêa, Bueno Brandão, Mário Brant e tantos outros, entrou no partido de oposição, UDN, que provocou a queda do regime e deu uma Constituição Democrática ao País, em 1946.

Artur Vilaça nasceu em Dom Silvério, hoje Crucilândia, na época pertencente a Bonfim, em 20 de agosto de 1885, filho de Henrique Ferreira Vilaça e Francisca Álvares de Abreu e Silva. Estudou no Colégio Dom Bosco, de Cachoeira do Campo e no Colégio Azevedo, de Sabará. Diplomou-se em farmácia pela tradicional Faculdade de Farmácia de Ouro Preto, em 5 de dezembro de 1903. Era descendente da famosa Joaquina de Pompéu, tronco de ilustres personalidades mineiras, sua trisavó. Faleceu em Itaúna, terra que muito amou, em 18 de maio de 1955.

Casou-se, em 30 de maio de 1906, em Itaguara com Maria das Dores de Oliveira Campos, a Dona Dorica. Ao final de suas vidas se tornariam grandes beneméritos em Itaúna e em Itaguara, terra natal de Dorica. No mesmo ano de seu casamento, Vilaça transferiu-se para Itaúna, estabelecendo-se com uma farmácia que dirigiu por mais de vinte anos.

Como Prefeito, Vilaça embasou seus mandatos no trinômio: comunicação, saúde e educação. Concluiu o importante serviço de abastecimento de água potável e a rede de esgotos, iniciados na administração anterior. Introduziu melhoramentos nos serviços telefônicos, bem como investiu na melhoria do aspecto urbano da cidade, com a construção dos jardins do antigo Largo da Matriz, em conformidade com projeto técnico do alemão Steinmetz, inaugurados em outubro de 1929. A conservação e a construção de estradas vicinais, ligando a sede aos povoados do município, mereceram sua especial atenção. Ampliou e reformou escolas.

Em sua administração, em 1928, inaugurou-se a primeira agência bancária em Itaúna, do antigo Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais, vendido ao Nacional. Foi um dos fundadores do Banco Industrial de Minas Gerais, depois vendido ao Banco Mercantil. Instalou uma agência de seu Banco em Itaúna e deu a Crucilândia sua primeira agência bancária.

Foi o Presidente da Sociedade Anônima que construiu o prédio da Escola Normal. Em 1930, graças aos esforços de sua administração, com o apoio do deputado federal Mário Matos, conseguiu sua oficialização. O deputado foi cassado pela Revolução e seu mandato estenderia até 1932. Como Arthur Vilaça apoiou Getúlio, Mário Matos jamais o perdoou, o que motivou a desoficialização da Escola Normal em 1938. “Valadares tinha no seu governo, na Diretoria da Imprensa Oficial do Estado, justamente Mário Matos que, automaticamente, começou a comandar politicamente o Município de Itaúna, bem como a exercer expressiva influência sobre a estratégia governamental praticada por Benedicto Valadares”.

Arthur e Dorica não tiveram filhos, mas dedicaram todo seu afeto à família, amparando sobrinhos e parentes. Criou em sua casa a sobrinha Zoé Vilaça Lara, que se casou com Severino de Paula Lara, de cujo enlace nasceu dois filhos: Artur Lúcio e Magda Lúcia. Artur Lúcio Lara, nascido em 1945, casou-se com sua conterrânea Idalina Dornas Diniz Lara, de tradicional família itaunense. Tiveram duas filhas: Tatiana e Larissa, residentes em Bocaiúva. Tatiana casada com Cláudio Antônio Caldeira Meira são os pais de Ana Cláudia e Artur. Idalina ficou viúva em decorrência do trágico acidente de automóvel que vitimou seu marido, ainda jovem, em 1976.

Magda Lúcia Lara Rocha, nascida em Itaúna sob o teto de Arthur Vilaça, em 1943, casou-se com Antônio de Oliveira Rocha Filho. Reside em Brasília, onde é extremamente requisitada pelos seus extraordinários dotes musicais. De seu casamento nasceram três filhos: Carmem Lúcia (falecida); João Paulo Lara Rocha, nascido e residente em Brasília, é analista de sistemas; Arthur Fernando Lara Rocha, itaunense de nascimento, casado com Raquel Montenegro de Oliveira Lara Rocha, residentes em Goiás. Ele é Piloto de Caça, Major-Aviador em Anápolis, onde pilota os velocíssimos “Mirage”; pais do neto de Magda Lúcia Lara Rocha: Arthur Fernando Lara Rocha Filho.

Desde quando chegara a Itaúna, o padre José Ferreira Neto queria instituir uma entidade para o ensino de meninos carentes, a Granja Escola São José. Pediu terras a três prósperos fazendeiros: José de Cerqueira Lima, Astolfo Dornas e Arthur Contagem Vilaça. Somente este anuiu ao seu pedido, disponibilizando-lhe dois alqueires. Mas o padre precisava de cinco e o sonho foi temporariamente adiado.

Antes de falecer, Arthur Vilaça solicitou à esposa, Dorica, que honrasse o seu compromisso com o Pe. José Neto. A generosa viúva, espelhada no exemplo de vida do esposo, foi mais além: doou 13 alqueires de seu melhor terreno e parte de sua fortuna, tornando-se instituidora da Fundação Granja Escola São José. Do gesto inicial de Arthur Vilaça sobrevive hoje a Granja Escola São José, instituição modelar, que acolhe dezenas de jovens estudantes tirados da rua, transformados em homens livres, plenos de cidadania, os líderes de amanhã, na Itaúna de nossos sonhos!

REFERÊNCIAS:Texto: Guaracy de Castro Nogueira (In memoriam)
Pesquisa: Charles Aquino, Patrícia Gonçalves Nogueira.
Organização: Charles Aquino
Acervo: Instituto Cultural Maria Castro Nogueira
Fotografia: Adilson Nogueira

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Biblioteca Pública Municipal Guimarães Rosa: 50 anos construindo aprendizados

Recebo uma incumbência da curadoria de nossa Biblioteca Pública Guimarães Rosa em Itaguara: escrever um texto em comemoração aos 50 anos de existência deste nobre espaço cultural. Ei-lo:

Quando penso em nossa Biblioteca, recordo, dentre outras ternas lembranças, dos ensaios que lá fizemos com o Grupo de Teatro Vidas em Artes. Eu era um guri de apenas 16 anos de idade e a Biblioteca representava o espaço mágico da leitura e da representação. Era como se os livros ganhassem vida plena em nossas interpretações teatrais. Aprendi, desde aquela época, que uma biblioteca é muito mais do que um mero espaço onde se guardam e se emprestam livros. É, em essência, um ambiente de generoso convívio sociocultural.

Bibliotecas são lugares onde as ideias não aceitam grilhões. São espaços do tríplice diálogo: com o livro, com nós mesmos e com o outro. São redutos dos pensamentos, das reflexões, das pesquisas, das transformações do sujeito. Uma biblioteca é, em essência, o ambiente da autonomia do raciocínio e da aprendizagem em sua multiplicidade de significados.

Percebo uma biblioteca como um voo da imaginação humana pelos infinitos céus do conhecimento - e como não há biblioteca sem educação, ao celebrar os 50 anos de nossa célebre Biblioteca Pública Guimarães Rosa, que jamais nos esqueçamos da necessidade de uma educação pública cada vez mais emancipadora. Lutar por isso é um dever que nos cabe a todos.

Às vezes, alguns futurólogos proclamam o fim dos livros físicos e a supremacia dos livros digitais, o que poderia significar o fim de bibliotecas e livrarias. Estou convicto de que isso não ocorrerá, mas ainda que aconteça, jamais significará o fim das bibliotecas, dentre outras razões, porque uma biblioteca nunca foi e nunca será um mero depósito de letras encadernadas. A Biblioteca representa, ao lado das escolas e de nosso museu, um templo vivo de convivência, de memória, de cultura, de educação e de nossa incessante formação ao longo de toda a existência. Neste sentido, ensinou-nos Paulo Freire: “não é possível ser gente senão por meio de práticas educativas. Esse processo de formação perdura ao longo da vida toda, o homem não para de educar-se, sua formação é permanente e se funda na dialética entre teoria e prática”.

Em tempos nos quais se celebram a ignorância e a tosquice, a Biblioteca é um valoroso símbolo de nobre resistência ao proclamar o amor ao conhecimento, à literatura e à humanidade. Não vamos ser derrotados pela ignorância. Não! Não aceitamos isso porque temos em nosso sangue a resiliência dos cataguás e a força de nosso padrinho que nomeia o espaço: João Guimarães Rosa, o imortal mestre da metafísica do sertão.

Por falar no Rosa, dentre as milhares de geniais frases dele que podem ser citadas nesta ocasião jubilosa, fico com uma quase clichê, mas singularmente elucidativa: “O homem nasceu para aprender, aprender tanto quanto a vida lhe permita”. Onde há vida, há cultura, formação e aprendizado. Onde houver uma biblioteca, haverá esperança na humanidade!

Pensando em leitura e educação como pontes para a libertação da humanidade, lembro-me de uma canção do Zé Geraldo (Voar, Voar). Numa das estrofes, diz o poeta mineiro:

“Descobrir o que há por trás do muro
O presente já é quase passado
Voar pra buscar futuro
Voar, voar, voar”.

Não há analogia mais profícua para a leitura. Ler é voar, descortinar horizontes, superar o presente que nos oprime e buscar futuros. Vida longa à nossa memorável Biblioteca Pública Municipal Guimarães Rosa!

Pública! Rosiana! Emancipadora!

Alisson Diego Batista Moraes, 35, advogado, bacharel em Filosofia pela UFMG, MBA em Gestão de Empresas pela FGV. Foi prefeito de Itaguara entre 2009 e 2016 e, atualmente, ocupa a função de Secretário de Mobilização do Diretório Estadual do Partido Verde.

* Artigo publicado no Jornal Cidades em maio de 2020.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Andrà Tutto Bene

É coronavírus pela manhã, Covid-19 à tarde e pandemia à noite. O assunto domina 24 horas por dia das nossas vidas nas últimas semanas. A temática subordina a pauta mundial como nunca antes visto. É verdade que outras pandemias ocorreram no planeta e muito mais letais do que a atual, como, por exemplo, a gripe espanhola que dizimou cerca de 50 milhões de pessoas no início do século passado, tendo entre as suas vítimas fatais mais ilustres o presidente do Brasil, Rodrigues Alves. Outra pandemia, a Peste (como ficou conhecida a pandemia de peste bubônica, na Idade Média), teria provocado a morte de cerca de 100 milhões de pessoas, de acordo com as estimativas mais conservadoras, em meados do século XIV.

Esta pandemia atual, contudo, mesmo possuindo letalidade menor do que as supracitadas, assusta-nos, sobremaneira, porque é a primeira grande pandemia na era da informação e economia globalizadas. Alguns dirão que a H1N1 também assustou no início da década passada. Lembro-me de que estava no primeiro ano como prefeito de Itaguara, quando a pandemia de H1N1 assombrou a humanidade. Fizemos um comitê de enfrentamento à pandemia, reunimos com autoridades sanitárias e adotamos todos os procedimentos orientados pelo Ministério da Saúde (não se cogitou, em momento algum, fechamento de comércio ou isolamentos sociais). Não me lembro se Itaguara registrou algum caso naquela oportunidade, mas consultando os dados oficiais, percebe-se que comparar a Covid-19 com a H1N1 não é adequado. Em apenas três meses, a Organização Mundial de Saúde (OMS) registrou 14.652 casos fatais pela Covid-19, enquanto a pandemia de H1N1, em 16 meses, matou 18.449 pessoas . Somente a Itália, já registrou mais de 11 mil mortes ocasionadas pelo novo coronavírus.

Escrevo em 30 de março e os dados para a Covid-19 para o Brasil são :  4.579 casos confirmados e 159 mortes. No que concerne à taxa de letalidade do novo coronavírus, estima-se que varia de 2% a 3%, enquanto a da H1N1 foi estimada em cerca de 0,02%. Definitivamente, não é razoável comparar esses dois momentos pandêmicos. Estamos, incontestavelmente, vivenciando um momento histórico.

Este jornal, provavelmente, terá em sua capa o coronavírus e trará matérias verdadeiras sobre as consequências para a nossa região. A imprensa, em todo o mundo, tem cumprido o seu importante papel de informar e conscientizar a população neste momento crítico. Tenho lido e visto matérias corretas, mas também presenciei reportagens inverossímeis. Algumas sem qualquer fundamento científico. Pior ainda é observar as redes sociais. De cada 100 postagens que recebo, 95 são Fake News. Pessoas, que neste momento, criam essas notícias falsas deveriam ser presas. Quem as espalha, conscientemente, também deveria responder judicialmente. A imensa maioria, no entanto, apenas as recebe e acaba sendo vítima de mentiras ardilosamente arquitetadas.

Cada vez mais, precisamos de veículos de comunicação sérios e comprometidos com a apuração honesta dos fatos. Infelizmente, grande parte da imprensa, por razões várias, tem perdido a sua credibilidade. Apesar disso, registre-se que recente pesquisa  mostra que a população, diante do reinado de Fake News, confia majoritariamente em programas jornalísticos de TV (61%) e nos jornais impressos (56%). Rádio e site de notícias aparecem em seguida, com 50% e 38% de confiança, respectivamente. As redes sociais, WhatsApp e Facebook, estão com baixíssima reputação em meio à crise pandêmica. Apenas 12% das pessoas consultadas confiam nas informações compartilhadas nessas plataformas.

Então, o que devemos fazer diante desse cenário complexo e confuso? Resta-nos assumir uma postura verdadeiramente crítica, pesquisar a fundo, checar as informações em fontes confiáveis, ouvir os especialistas (há boas referências até mesmo nas redes), além de nos atentar aos comunicados da OMS e do Ministério da Saúde. Hora ou outra, o comércio abrirá e nossas vidas voltarão à normalidade. Precisamos, no entanto, continuar vigilantes, evitar contatos físicos até que essa pandemia seja debelada e reforçar, definitivamente, os nossos hábitos de higienização.

No mais, é preciso manter a calma (preservando a nossa saúde mental), agir com absoluta cautela, proteger nossas famílias e nossos idosos e confiar que tudo passará. É momento também de pensarmos na vida que temos levado, o que temos feito de nossa existência, como temos nos relacionado com nossa família, amigos e a sociedade, o quanto temos consumido e quais são os valores que norteiam a nossa vida.

Os italianos são, até agora, o povo mais atingido pela pandemia, mas eles não perderam as esperanças e se mantêm resilientes. Que o lema que mais se vê na península itálica, “Andrà Tutto Bene!” (vai ficar tudo bem), seja capaz de nos tranquilizar a alma e esperançar nossos corações.

Sim, tudo vai ficar bem!

* Alisson Diego Batista Moraes, advogado, MBA em Gestão Empresarial e Bacharel em Filosofia pela UFMG. Foi prefeito de Itaguara entre 2009 e 2016.

** Artigo publicado pelo Jornal Minas, Itaguara, março/abril de 2020.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

A sentimentalidade poética disruptiva de João da Cruz

Por mais que minha fé, por vezes, seja fragilmente cambaleante e o agnosticismo insista em guiar-me a razão, fato é que possuo um respeito absolutamente “oblato” à Semana Santa e ao que se reverencia nesta data: a caminhada rumo à morte de cruz e gloriosa ressureição de Nosso Senhor Jesus Cristo, o ungido salvador de toda a humanidade. 

Neste sentido, quero compartilhar um hábito que tenho mantido ao longo dos últimos 18 anos (desde que participei de uma encenação teatral na Semana Santa): na sexta-feira da paixão, dedico-me à leitura de poemas “religiosos” e “transcendentais”. 

Independentemente da crença em si, ou mesmo da estética poética, debruço-me sobre esse gênero poético para sentir, pois são, via de regra, composições bastante carregadas de uma singular sentimentalidade. O que chamo atenção aqui é o rito, os versos desejantes e a manifestação humana do sagrado. 

Um dos constantes poetas desse dia marcante tem sido o célebre espanhol São João da Cruz (nascido João de Yepes em 1542 e morto em 1591), considerado “doutor místico” pela Igreja Católica (assim proclamado pelo Papa Pio XII em 1926). 

Sua vida foi marcada, por um lado, pela dor infligida-lhe pela dura realidade externa, e por outro pela alegria da descoberta crescente de uma vasta e luminosa realidade interior. 

Para São João da Cruz, não se pode “explicar com palavras o que com palavras não se pode exprimir”. Ele sente de uma maneira comovente e se vale dessa sentimentalidade disruptiva para compor versos arrebatadores. 

Não é fácil compreender os versos místicos dele sem acompanhamento de comentadores, mas ouso compartilhar aqui uma composição (para se ter a ideia da força transcendental-semântica): “Chama de Amor Viva” - “Canções da alma na íntima comunicação de união de amor com Deus” (Granada 1582- 1584): 

1. Oh! chama de amor viva 
Que ternamente feres 
De minha alma no mais profundo centro!  
Pois não és mais esquiva, 
Acaba já, se queres, 
Ah! Rompe a tela deste doce encontro. 

2. Oh! cautério suave! 
Oh! regalada chaga! 
Oh! branda mão! Oh! toque delicado 
Que a vida eterna sabe, 
E paga toda dívida! 
Matando, a morte em vida me hás trocado. 

3. Oh! lâmpadas de fogo 
Em cujos resplendores 
As profundas cavernas do sentido, - 
Que estava escuro e cego – 
Com estranhos primores 
Calor e luz dão junto a seu Querido! 

4. Oh! quão manso e amoroso  
Despertas em meu seio 
Onde tu só secretamente moras:  
Nesse aspirar gostoso, 
De bens e glória cheio, 
Quão delicadamente me enamoras! 

Chama de Amor Viva – Fonte: SCIADINI, Patrício.(Org.). Obras completas. 7. ed., Petrópolis: Vozes, 2002, p. 37 e 38. A fotografia: Escultura de São João da Cruz, na Igreja das Carmelitas Descalças, em Sevilla, na Andaluzia. Obra de Pedro Roldán.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Itaguara: 75 anos de emancipação política



Hoje comemoramos um aniversário muito especial. Itaguara, essa jovem e altiva senhora, completa, neste derradeiro dia de 2018, 75 anos de emancipação política. Data simbólica porque sabemos que uma cidade é a soma de toda a sua história - dos cataguás até nós.

Nestes versos escritos há cinco anos e que compartilho agora, homenageio nossa terra, identificando um traço comum em todos os itaguarenses: a itaguarescência, a soma do itaguarescer e do itaguarizar - da abstração e da corporeidade, do visível e do que sentimos - aquilo que faz muito do que somos.

A itaguarescência está contida na mineiridade - inescapáveis identidades nossas.

Parabéns, Itaguara!

Itaguarescência
(Alisson Diego)

O pertencimento solidário
Geógrafa identidade
Certidão de inserir-se mineiro

Gente que nasce e se fazendo se torna
O próprio lugar da gente

Pelas vertentes centrais do centro-oeste metropolitano de Minas
Há Itaguara
O lugar, o povo, o céu, as águas e os pores de sol
Singular peculiaridade no mundo

Itaguarescer
É labutar sem sono
Suar sem reclamos
E ainda agradecer

Itaguarescer Também é se dar aos pequenos prazeres
Que colorem o existir de sentido e flores
O céu estrelado, as muitas árvores multiformes
Os sons do mato, as andorinhas a rodear faceiras a torre da igreja

Itaguaresço-me
Ao escutar as noites de luares hemiciclos
E as chuvas com cheiro tímido de verde-natureza
É a fantástica magia da realidade simples
É Minas deveras Gerais gentes arraigadas

Itaguaresço-me
Quando contemplo os pores-de-sol
Multicoloridos de canto a canto da Conquista
Quando ouço os mugidos sinfônicos das criações
Os farfalhares, chilreares, berros, grasnados, cantares, uivos e assobios

Num canto nobre da alma Itaguarescida
Escuta-se os cantos entranháveis dos cataguas, sapucaias
Amyipagûana

O itaguarense Sertanejo-citadino-universal
Adjetiva-se de mineiridades inescusáveis

É o café
O leite
O pão de queijo
O queijo
A broa de fubá
O gado
A lida
A fé
A botina, o canivete, o chapéu e o pito de palha escondido
no fundo do bolso raso da calça gastada mas remendada caprichosamente
(porque o desperdício não pode)
A conversa, o banquinho, o convite, a visita:
_ Senta!
_ A demora é pouca.
_ Almoça!
_ Uai...

É o pai, o avô,
O bisavô e o tataravô
Tradição
Mamãe, vovó, bisavó
Sensíveis tradições e humildades herdadas

É recusar agradecendo e desejando
Aceitar recusando
E agradecer muito

Itaguarizar-se
Para seguir na estrada,
Tocar a lida

Itaguarizo-me
Na pataca
Na serrinha
Nas estradas poeirentas bonitas
Pelas ruas simples de magia e gentes
Nas conversas despretensiosas demoradas na venda do Zé Ananias
Entre fumos de rolo, velas de santo e livros de filosofia antiga

Itaguarizo-me
Quando amanheço após noite  de turbulento sonho
Cruz-credo

O itaguarense
Transcende palavras
Fala por sorrisos aquiescentes e olhares exprobos
Mantém a fé na humanidade e a desconfiança em si próprio
E ora
Sem esperar milagres
Mas acreditando que os impossíveis se fazem quando se merece
Ou é tudo mistério do Deus
Supremos inexplicáveis

É preciso confiar no manto
Da santa que sofre e chora a dor da perda do filho
Que por acaso é Deus

Ser Itaguarense
É exceder-se algumas vezes
para equilibrar-se para o todo até o fim

Ser itaguarense é não ser melhor
Nem pior
É só ser
Ente

Ser itaguarense
É superar itaguarices
E Itaguarescer-se
Itaguarizar-se

É ter um pé no interior e outro na capital
E conservar a alma no interior

É viajar pensando em voltar
E sorrir sozinho despistado
quando a serra de Itaguara se descortina em pontinhos de luz:
Alá ó, Itaguara!

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Personagens da História Itaguarense: João Luis de Oliveira Campos

Tenente Coronel João Luis
de Oliveira Campos

João Luis de Oliveira Campos (*1834  + 1914) hoje é o nome de uma das cinco equipes de ESF (Estratégia de Saúde da Família) de Itaguara-MG. Ele faleceu há 114 anos, mas a sua história não pode ser esquecida e, por isso, compartilhamo-na aqui neste espaço (autoria da professora Maria Geralda Costa):

                                                                          *  *  *

O Tenente Coronel João Luís de Oliveira Campos foi dono da Fazenda da Mata, cuja sede é hoje residência de D. Eneida de Oliveira Malta. A casa sofreu reformas, mas guarda a mesma estrutura. A parte de cima era a residência da família e a de baixo a senzala. Ele possuía muitos escravos. Embora fosse tido como “bom senhor de escravos”, meu avô, seu filho, dizia guardar tristes lembranças do tempo da escravatura. Lamentava ter vivido nessa época.

Ele casou-se em primeiras núpcias com Mariana Francisca de Paula, filha dos antigos donos da Fazenda do Pará. Portugueses, Coronel João Luis e D. Mariana tiveram os seguintes filhos: ­­

- Cipriana Vilela de Oliveira Campos, nascida em 1871, esposa de Teotônio Rodrigues Pereira;

- Bárbara Vilela de Oliveira, esposa do primo, Coronel Joaquim Vilela Frazão, homem de muitos bens; não tiveram filhos. Seu testamento recomendava bens para construção de uma escola. É a nossa escola Coronel Frazão.

- Antônio Luis de Oliveira Vilela, esposo de Gabriela Luisa de Oliveira. Ele foi delegado, é o personagem "Major Anacleto", na obra de Guimarães Rosa. É tataravô do ex-prefeito Alisson Diego Batista de Moraes.

- Luis Vilela de Oliveira Campos (meu avô) cuja esposa Arminda Luisa de Oliveira era irmã de Gabriela.

- José Luis de Oliveira Vilela que se casou com Francisca Dias de Oliveira Leite, natural de Congonhas (avós de D. Hélia de Oliveira Vilela).

- Maria das Dores de Oliveira Campos (D. Dorica – patrona da casa de D. Dorica) esposa do farmacêutico Arthur Contagem Vilaça, natural de Crucilândia.

- Maria do Carmo Vilela Oliveira (bisavó da curadora do Musa - Maria Rita) , casada com Antônio Rodrigues de Oliveira.

O título de Tenente Coronel lhe foi conferido pelo Império. A patente e a espada doadas na época que recebeu o título estão com descendentes seus. A espada, com bisneto de Coronel Antônio Luis e a patente, com um bisneto de D. Cipriana.

Naquela época por aqui não havia médico e nem farmacêutico. Coronel João Luis cuidava da saúde de nosso povo (havia outros que faziam o mesmo). Dizem que seus remédios eram bem acertados. Quando alguém insistia querendo um diagnóstico, sua resposta era categórica. “Pode ser que seja e pode ser que não seja”! Conhecemos em Oliveira, D. Amanda que dizia ter sido curada por ele. Ela sofria algo nos olhos que muito a incomodava. Ele deu uma picada no seu dedo e com seu próprio sangue a curou! D. Amanda era uma velha ex-escrava.

Ele procurava estudar. Um de seus livros, Guia Pratico da Saúde, editado pela “Casa de Publicação Brasileira” de São Paulo, ainda existe e pertence hoje ao veterinário Fábio de Oliveira Ribeiro (bisneto). Tem-se a impressão que seu amor à medicina passou aos seus descendentes. São 24 os médicos de sua descendência .

Dezessete deles descendem do casal Cipriana e Teotônio. Também João Rodrigues que desempenhou cargos importantes na Arquidiocese de Belo Horizonte era filho deles. Os netos do Coronel João Luis e D. Mariana os chamavam de pai João (parecendo mais "Pajão") e Mãe da Mata .

O Coronel João Luis ficou viúvo em 02/02/1906. D. Mariana morreu aos 67 anos. D. Dorica ainda era solteira. Foi entregue pela mãe à irmã mais velha Cipriana. Era desejo de sua mãe vê-la casada com farmacêutico Arthur Contagem Vilaça, sete anos mais novo. Desejo realizado! D. Dorica era moça prendada. No colégio da tia Lilita em Oliveira, aprendera piano, pintura, etc.

Em julho, cinco meses após o falecimento da sua esposa, Coronel João Luis contraía novas núpcias com Belmira Ana de Oliveira, menina moça de 13 anos. Segundo recordações de familiares, ela possuía muitas jóias. Parece que o velho de 72 anos se encantara com a jovenzinha esposa!

Coronel João Luís adquiriu, no arraial, uma casa pertinho da matriz, onde hoje é pizzaria da praça. Ali viveu os seus últimos anos de vida. A casa passou a ser da viúva, D. Belmira. Faleceu aos 80 anos e foi sepultado no dia 10/12/1914 em Rio do Peixe, hoje Piracema. Não havia cemitério aqui. Os mais próximos eram os de Pará dos Vilelas e Piracema.

Dados colhidos no Livro: Genealogia de Carmo de Cajuru, de Oswaldo Diomar, lembranças de parentes e amigos. Em todos os lugares a palavra Luis apareceu com s e sem acento. Págs. 660 - 661

Maria Geralda Costa
Itaguara, 14 de outubro de 2013.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Sobre amizades improváveis, aprendizagens e história

A seguir, compartilhamos o artigo escrito para o Jornal Cidades, edição agosto/2018, que circula em Itaguara-MG e região.

Rui Lara, presente! 

O ex-prefeito, Rui Alberto Lara, em 2012.
Foto: Lílian Nascimento
A primeira vez que conversei com Rui Lara foi em 2001, levado pela professora Dunalva Galgani. Eu era um jovem estudante do ensino médio, muito interessado em política e ávido por ouvir histórias de minha terra. Acabara de regressar a Itaguara, juntamente com a minha família, após uma década fora da cidade.

Eram tempos tão marcantes que estão vívidos para mim: eu tinha apenas 16 anos de idade, frequentava a Renovação Carismática Católica, era "âncora" de um programa de rádio ao lado do amigo Antônio Júnior (o polêmico "Café com Leite"), fazia teatro no Grupo Vidas em Artes, tocava teclado na banda do Anderson Sansão (eventualmente, nas missas dominicais), atuava como goleiro do Galla (nosso time de futsal foi vice-campeão naquele ano) e estudava muito, muito mesmo porque queria ser diplomata.

Rui já era um senhor de 65 anos, bastante conhecido pelo temperamento forte, pelas palavras diretas e também por ter sido um prefeito honesto e que sabia dizer "não" sem dar voltas. Nossos perfis e idades eram bastante diferentes, logo uma amizade sincera e próxima era muito improvável. Mas, na vida, o improvável acontece todos os dias para nos provar que a existência em si é a improbabilidade encarnada. Rui e eu nos tornamos, então, fraternos amigos.

A verdadeira amizade é aquela construída pelo tempo, testada pelas intempéries e forjada pelas circunstâncias – independente das idades dos amigos. Nestes 17 anos de convivência próxima, muita coisa aconteceu. Recebi, honradamente, o seu apoio nas três eleições em que disputei (vereador em 2004, prefeito em 2008 e prefeito novamente em 2012). Vencemos juntos os três pleitos. Mas nossa amizade jamais se limitou à política. Rui era conselheiro em todos os âmbitos, inclusive em meus trágicos namoros. E, como em todo autêntico relacionamento de amizade, Rui e eu também passamos por momentos de desentendimentos e acaloradas discussões, o que serviu para fortalecer-nos enquanto amigos. Maria Rita que o diga – ela é testemunha disso tudo.

Uma característica como governante que me chamava a atenção em Rui Lara era o seu carinho com as comunidades rurais. Ele dizia que a zona rural demonstrava a eficiência ou a ineficiência de um prefeito. “Cuidar da cidade é mais fácil, mas cuidar das comunidades rurais exige que se priorize as pessoas, exige planejamento adequado, exige bom governo”, aconselhou-me certa vez. Aprendi isso e muitas outras coisas com ele.

Rui se indignava com a podridão reinante na política nacional. Nutriu uma descrença profunda pelo sistema político nos últimos anos - o que também comentávamos sempre. Diante disso, ele rememorava uma célebre frase de seu homônimo baiano, o Rui Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Se não podíamos fazer muito pelo país, já que lá no alto a bandidagem tomava conta, era necessário que fizéssemos algo aqui na base – concordávamos ambos. É nosso dever, enquanto gestores públicos locais, deixarmos uma comunidade melhor para os que virão. Quem sabe um dia os de cima possam aprender... Tínhamos consenso sobre esta visão de mundo e sabíamos qual era o nosso papel. Não é preciso ser prefeito, governador ou deputado para trabalhar pela comunidade, é preciso ter espírito público, compromisso comunitário e senso de coletividade.

A história itaguarense registrará para sempre a contribuição deste singular gestor público e homem de comunidade. Rui Lara está eternamente presente na história de Itaguara como um abnegado administrador e, na vida de cada um de seus amigos e familiares, como um ser humano ímpar.

Se nos resta uma frase, esta deve ser: Obrigado, Rui; Itaguara lhe é eternamente grata!

Alisson Diego Batista Moraes, 33, advogado e gestor público. Foi prefeito de Itaguara-MG entre 2009 e 2016. Atualmente, exerce o cargo de secretário de Planejamento e Governo de Itaúna-MG.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Adeus, comandante

Rui Lara e Alisson Diego - janeiro de 2015
Eu o chamava carinhosamente de comandante. Não sei bem onde criei esse “apelido”, logo eu, que nunca fui muito afeito a apelidos. Mas essa alcunha, em especial, era uma genuína deferência, coisa de amigos mesmo. Devo tê-la criado num de nossos tantos encontros regados a muitas histórias e algum uísque.

Aprendi muito com Rui Alberto Lara, não só sobre política, mas sobre Itaguara e sobre a vida. Foram muitos anos de uma inesquecível convivência que se tornou uma bela e sincera amizade. A garganta deu um nó quando soube da notícia e as palavras fugiram todas do repertório do poeta.

Há apenas tristura grande na minha alma, dessas de amargar o tempo. Há também um vácuo que, sei, não será suprido. Resta a mais plangente dor e a mais terna lembrança. Rui Lara está eternamente presente na história de nossa Itaguara como um abnegado gestor público e na história de cada um de seus amigos como um ser humano ímpar. Ímpar!

Até um dia, comandante!

domingo, 17 de dezembro de 2017

Alisson Diego concede entrevista ao Jornal Cidades

Compartilhamos a seguir entrevista concedida por Alisson Diego ao Jornal Cidades, sediado em Itaguara e com distribuição nas cidades adjacentes. A entrevista foi publicada na 47.ª edição do periódico em dezembro de 2017. 


“No Brasil, o novo já nasce velho. É preciso que o novo seja realmente novo. Precisamos de uma verdadeira renovação no Congresso Nacional” 

Alisson Diego. Foto: Ascom Granbel - maio de 2017.

Há quase um ano, Alisson Diego Batista Moraes encerrou o seu segundo mandato como prefeito de Itaguara (o terceiro mandato eletivo consecutivo). Deixou a prefeitura itaguarense com elevada aprovação (segundo pesquisa vista por este veículo de comunicação em fins de 2016).

Em janeiro deste ano, assumiu a direção geral do SAAE Itaúna, uma das maiores autarquias de saneamento básico do estado de Minas Gerais. Organizou as finanças da autarquia, retomou as obras da ETE Itaúna e implantou um modelo de gestão baseado na legalidade e eficiência.

Em julho, Diego se tornou “o homem forte do governo itaunense" (nas palavras de um cidadão de Itaúna) ao assumir a secretaria municipal de Planejamento e Governo, responsável pela articulação política e o planejamento municipal.

Diego nos recebeu no gabinete da Secretaria Municipal de Governo de Itaúna numa entrevista que foi realizada em dois encontros, um em meados de agosto e outro na última semana. Vamos à entrevista:

JC - Como está a gestão municipal de Itaúna? Como tem sido a experiência?

AD - Quero ressaltar desde o início que concedo esta entrevista em caráter pessoal e não como secretário de Governo. Pois bem, vamos à reposta: Itaúna, como a maioria das cidades médias do país, enfrenta uma crise econômica gravíssima, mas a atual gestão comandada pelo prefeito Neider tem conseguido sanear as contas públicas e está arrumando a casa. Houve muito trabalho em 2017 e haverá em 2018 muito também por semear. Em 2019 e 2020, o povo de Itaúna colherá bons frutos. Sobre a experiência, tem sido muito relevante e desafiador para a minha vida pública e também profissional comandar uma pasta tão importante como a SEGOV de Itaúna, uma cidade referência no estado de Minas Gerais e até nacionalmente em políticas urbanas (Itaúna ganhou recentemente uma premiação nacional como a 11ª cidade mais inteligente do país e a 2ª do interior de MG, de acordo com a Connected Smart Cities, da Urban System).

JC - Como você avalia a política nacional atualmente e o Governo Temer?

AD - A política de maneira geral está totalmente desacreditada. Vivemos tempos sombrios. Mas vejo algo importante também: estamos desnudando a forma como se faz política no país em décadas. A podridão foi colocada para fora para conhecimento de todos. Isso é importante. Mas se não houver uma profunda reforma política no Brasil, não melhoraremos a representação no Congresso Nacional e nas Assembleias Legislativas. Sobre o governo federal, ele é ilegítimo para patrocinar essas reformas. Não há dúvida de que precisamos de reformas no estado brasileiro, mas não protagonizadas por um governo que não foi eleito para esta finalidade. Um governo que usurpou o poder, fruto de um golpe.

JC - O que deve ser modificado no sistema eleitoral em sua opinião?

AD - Particularmente, não acredito no sistema presidencialista brasileiro. O dito "presidencialismo de coalizão" ruiu. Precisamos repensar todo o sistema. Vou dar algumas propostas concretas: adotar sistema distrital misto (os eleitores teriam dois votos legislativos: um para candidatos no distrito e outro para os partidos - deveríamos ter um distrito de nossa região e votar em um deputado federal e estadual daqui, cobrando ações efetivas), o financiamento público de campanha, o fim das coligações, a cláusula de barreira limitando o número de partidos políticos, preservando os partidos ideológicos, como o PV e o PSOL, pro exemplo. Isso já melhoraria muito o sistema.

JC - Você venceu a sua primeira eleição há 13 anos. Você mudou muito desde então?

AD - Ah sim, seguramente. O tempo me fez mais temperante, equilibrado, aguçou a minha visão de mundo e da política e, claro, trouxe-me mais conhecimento. Algumas pessoas reclamam do tempo e desejam ser eternamente jovens. Estou cada vez mais convicto de que os anos melhoram muito o ser humano. Todavia, posso dizer também que a essência de minha motivação a ingressar na política não mudou: vislumbrar a política como instrumento para melhorar a sociedade, tornando-a mais justa, ética e fraterna.

JC - Você será candidato a deputado na eleição de 2018?

AD - O Brasil vive, inegavelmente, um momento novo. É preciso aproveitar este momento de grave crise para que o país mude, amplie horizontes, qualifique a democracia e renove a política nacional. Tenho conversado muito com lideranças partidárias e também de várias regiões de Minas Gerais. Não tenho nenhuma ambição pessoal em ser deputado; mas, dentro de um projeto maior, em prol de uma renovação qualitativa na política, tenho participado de vários debates neste sentido. Ressalto que não possuo qualquer decisão  tomada, tampouco sou movido por qualquer sentimento de vaidade.

JC - Como você avalia a atual administração municipal de Itaguara?

AD - O primeiro ano de mandato costuma ser de ajuste e ambientação, principalmente, diante do atual cenário complexo que vive o país. Lembro que, no meu primeiro ano como prefeito, em 2009, fizemos muitas coisas, dentre elas sete novas pontes, o desassoreamento do Ribeirão Conquista, algumas contenções importantes como a do Bairro Lindorifo, iniciamos a renovação da frota com aquisição de vários veículos (inclusive uma nova van para os pacientes de hemodiálise) já naquele ano, dentre outras ações estruturantes. Mas isso é raro. Nas gestões municipais, fato é que, o primeiro ano de mandato, via de regra, é muito difícil. Quero dizer que estou na torcida por Itaguara e sempre disposto a ajudar ao município quando solicitado. Este é o meu papel como cidadão itaguarense comprometido com o município. Não é porque não tenho mais mandatos que não tenho compromisso com a cidade, pelo contrário, estou sempre à disposição de Itaguara e dos itaguarenses.

JC - Você ficou com alguma mágoa do PT ou algum membro do partido?

AD - De forma alguma. Tenho fraternos amigos no partido. Visões distintas da política, da economia, do desenvolvimento, dentre outras não podem ser vistas como adversidades pessoais. Principalmente em Itaguara onde quase todos os membros do partido são meus amigos pessoais e continuarão sendo, Ademais, no município convergimos muito mais do que divergimos.

JC - É possível mudar a política ou o Brasil é um país condenado à corrupção?

AD - Óbvio que há esperanças. Está nas mãos do povo. Gandhi já dizia: “seja a mudança que você quer ver no mundo”. Precisamos dizer que a nossa representação política é o reflexo do nosso povo. O Congresso não é composto por alienígenas, mas por brasileiros, votados por brasileiros. Por isso, não basta mudar políticos, precisamos mudar todos de postura e construir uma nova concepção de cidadania, com bases éticas, pensando no futuro e na sustentabilidade. Muita gente no ano que vem pregará renovação, mas enganará o povo. Que renovação? São políticos falsamente novos. No Brasil, o novo já nasce velho. O congresso, em sua maioria, tem a mesma cara há décadas ou até séculos. É preciso que o novo seja realmente novo. Precisamos de uma verdadeira renovação no Congresso. Percebo que, mesmo nos municípios, base da federação, a maioria ingressa na política sem nem saber o porquê. Há os que são políticos por dinheiro, outros por poder, outros para ajudar sua empresa ou defender o seu ramo de atuação (interesses corporativos), outros ainda por vaidade, orgulho, dentre outros motivos, digamos, pouco nobres. É muito triste isso, mas a verdade é que são pouquíssimas as pessoas que ingressam na política por vocação, para realmente fazer um trabalho para a comunidade, trabalhar pelo coletivo, com sinceridade, a fim de melhorar efetivamente a vida da população, oferecendo oportunidades para todos. Raros os que pensam a política como ferramenta de emancipação social, humana, moral e cultural do povo. Mas ressalto que o filtro é o voto. É o povo que decide quem sai ou quem entra ou fica. Insisto: é preciso ser a mudança que queremos no mundo, é preciso que o povo se inspire em Gandhi.

JC - Deixe uma mensagem final para os nossos leitores.

AD - Quero agradecer a oportunidade dessa entrevista e me colocar à disposição de todos os itaguarenses e todas as pessoas de nossa região; digo isso sem quaisquer inspirações eleitorais. Aproveito, ainda, que está chegando a época natalina para desejar um natal de muita paz, amor e solidariedade a todas as famílias e um 2018 de muitas conquistas. Que o exemplo de Jesus Cristo nos seja inspiração.