domingo, 30 de janeiro de 2022

Vilma Guimarães Rosa: lepidez e luminosidade

Vilma Guimarães e Alisson Diego durante a Semana de Arte e Cultura
do Museu Sagarana em 2014. Acervo Prefeitura de Itaguara


Meu primeiro contato com Vilma Guimarães Rosa aconteceu no segundo semestre de 2009, no primeiro ano de mandato como prefeito de Itaguara, logo após o Ministério da Cultura (mais especificamente, o IPHAN) aprovar o projeto de criação do Museu Sagarana (Musa), no edital "Mais Museus", que tinha como um de seus principais objetivos a ampliação da rede museológica brasileira. Vilma, já haviam me advertido, possuía a fama de geniosa e fui aconselhado a ser esmerado no trato com ela. Um conhecido chegou a me dizer:  "Não entre em contato agora, é muito prematuro, faça isso quando iniciarem as obras do Museu". 

Seria, no mínimo, descortês e pouco ousado se eu não informasse a octogenária filha itaguarense de João Guimarães Rosa sobre as minhas intenções em construir um museu inspirado em Sagarana, obra que possui notável influência da Itaguara dos anos 1930. Com naturalidade, fiz uma ligação que durou cerca de 20 minutos. Ela ficou empolgadíssima e eu mais ainda. Já naquela primeira conversa, marcamos um encontro no Rio de Janeiro.

Alisson Diego e Vilma em 2014. Acervo pessoal.


Desde o início, Vilma se mostrou muitíssimo amável e entusiasmada com o projeto do Musa. A partir daí, desenvolvemos uma belíssima relação de amizade. Entre o segundo semestre de 2009 e abril de 2012, quando o Museu Sagarana foi finalmente inaugurado, foram centenas de ligações, dezenas de cartas, vários cartões-postais (sempre que viajava ao exterior, ela fazia questão de enviar postais aos amigos próximos) e alguns encontros presenciais. 

Inauguração do Museu Sagarana em abril de 2012

Vilma e Peter, seu esposo falecido em agosto de 2021, tornaram-se amigos muito próximos. Não vinham a Minas Gerais sem me avisar. Nunca deixamos de nos encontrar pelo menos uma vez ao ano desde 2009. Cheguei, inclusive, a comemorar um aniversário no Rio de Janeiro com um almoço em Copacabana acompanhado do casal. Entre um gole de vinho branco e um camarão, planejamentos sobre o Musa e demoradas conversas sobre Minas Gerais e as histórias familiares do Doutor João e de Dona Lígia.

Há 22 dias, liguei para Vilma, estava com voz firme e tom vivaz. Chegamos a combinar um almoço na capital fluminense. Marcamos até a data: segunda semana de fevereiro. Mas o destino, traiçoeiro que só, não permitiu que esse encontro acontecesse, não me proporcionou um abraço de despedida. Sônia Márcia, sobrinha de Vilma, ligou-me há pouco para dizer que a luminosa "Vilminha" (como amigos e familiares a chamavam) havia partido após sofrer três paradas cardíacas no hospital onde estava internada. Um baque. Tirou-me a voz, ceifou-me o verbo.

Sou tomado, agora, no calor dessa notícia da passagem de Vilma (ela odiava as palavras morte e falecimento, agradava-lhe a expressão inglesa pass away), por um duplo sentimento: uma tristeza profunda por sua perda, mas ao mesmo tempo uma imensurável gratidão por tê-la conhecido e por ter desfrutado de sua convivência tão amável ao longo desses anos.

A emoção me faz relembrar, neste instante, de um dos encontros inesquecíveis com Vilma Guimarães Rosa e Peter Reeves. Aconteceu em fevereiro de 2012, no Iate Clube do Rio de Janeiro. Marcelo Costa, curador do Museu Sagarana naquela ocasião, e eu estávamos muito ansiosos porque, apesar das amabilidades telefônicas, o contato pessoal sempre traz um quê de surpresa. Era o primeiro almoço. Além do mais, Vilma nutria a fama de ser muito supersticiosa e, se não se sentisse bem com alguma companhia, simplesmente encerrava o colóquio e ia embora, sem cerimônias (exatamente assim diziam as pessoas que alimentam análises de personalidades alheias).

Fomos afortunados. Para a nossa sorte, Vilma se emocionou logo ao me ver e disse, após um abraço apertado, que sentiu a presença do pai em minha face arredondada e adornada pelos óculos meio abaulados. "Embora essas hastes sejam mais finas, o formato do rosto e esses óculos me lembraram muito o papai". Perguntou minha idade, elogiou minha aparência, indagou sobre as mudanças em Itaguara e o gelo estava quebrado. Passamos a tarde inteira no Iate Clube. Aquele dia significou uma aproximação mágica da filha com a sua terra, do passado distante com um presente alvissareiro. Vilma me confidenciou, ao final daquele encontro, que, naquela fase da vida, estava cada vez mais saudosista e tinha a necessidade de se sentir pertencida aos laços originários, se sentir itaguarense "de verdade". Embora já tivesse ido à sua cidade em outras três ocasiões, nas décadas de 70, 80 e 90 respectivamente, Vilma pouco tinha "sentido a sua terra".

Foi na distante Itaguara, ainda distrito de Itaúna, onde Vilma Guimarães Rosa nasceu, em 05 de junho de 1932, sob as copiosas lágrimas do pai - aquelas lágrimas foram o seu primeiro banho, relatara anos depois na obra "Relembramentos: João Guimarães Rosa, meu pai", livro obrigatório para os admiradores do escritor. Naquela calorosa tarde carioca de 2012, com emotividade de sobra, as origens foram relembradas e os laços reatados. Foram horas de uma terníssima conversa que abordou o pai, a mãe (a jovem professora Lígia Cabral Pena nos anos 30), os avós Chiquitinha e Fulô,  que também moraram em Itaguara nos anos 60, o tio-escritor Vicente Guimarães, o tio-médico-prefeito Antônio Geraldo de Oliveira e a tia Isa e, claro, falamos muito das perspectivas para o Musa, um projeto comum que fazia os nossos olhos brilharem.

No fim do almoço, ela ainda me disse que Itaguara possuía uma importância lírica grandiosa na obra do pai e que poucas pessoas ainda tinham se atentado para isso. "Ele se perguntou, várias vezes durante a vida, se deveria mesmo ter saído de Itaguara; pensava que, se tivesse vivido como médico ali, a sua vida literária poderia ter sido ainda mais profícua". Outra revelação de Vilma naquele almoço também me comoveu: "Papai me disse, alguns meses antes de morrer, que queria se aposentar do Itamaraty e se mudar para Itaguara, onde iria construir uma fazendola cercada por muros altos para evitar visitas desagradáveis e se dedicar em paz a escrever e admirar o céu de Itaguara". 

Almoço no Rio de Janeiro em fevereiro de 2012

A amizade e os projetos comuns renderam frutos. Vilma fez várias doações para o Musa e tive a oportunidade de ser anfitrião dela e de Peter algumas vezes em Itaguara. Em abril de 2012, Vilma passou cinco dias na cidade por ocasião da inauguração do Museu Sagarana. Foram dias sublimes de emoções fortes para todos nós, sobretudo para ela. Emocionou-se muito e, durante vários momentos deixava com que as lágrimas rolassem, o que também nos impelia ao choro. Relembrava o tempo das histórias que ouvira sobre quando seus avós moraram na cidade. Apesar de ter se mudado de Itaguara ainda criancinha, Vilma dizia que havia crescido ouvindo casos da cidade.

Possivelmente, uma das maiores emoções vivenciadas por Vilma em Itaguara tenha se dado numa visita à comunidade de Pará dos Vilelas, em abril de 2013, o cenário que inspirou o jovem doutor Guimarães Rosa a escrever Sarapalha, o conto mais triste de Sagarana e, que, segundo consta, o escritor menos gostava. Vilma me contou que, na realidade, o pai gostava sim de Sarapalha, mas o fato de aquela triste história realmente ter acontecido o incomodava bastante. 

Pará dos Vilelas em abril de 2013

Vilma foi uma das pessoas mais surpreendentes que conheci até hoje em meu percurso existencial, fazendo jus, durante toda a sua vida, às adjetivações que seu pai lhe atribuíra ainda criancinha: "lépida, límpida e luminosa". Com o passar desses anos, deixou de ser a filha do escritor que eu admirava desde a infância para se tornar uma verdadeira amiga.

Em todas as visitas que fez a Itaguara, incluindo a inauguração do Museu Sagarana, ela sempre agradecia a oportunidade do contato restabelecido com as suas origens e dizia que a aproximação com a sua terra foi um grande presente no fim da vida. Em perspectiva, posso dizer que Vilma é que foi uma dádiva na vida comunitária itaguarense e, particularmente, uma sublimidade para mim. 

Vilma, conterrânea, amiga fraterníssima e dileta mestra, descanse em paz. Daqui seguiremos, com muitas saudades, o seu legado e o compartilhamento de sua memória e da genialidade literária de seu pai, nosso Cervantes das Gerais. Cordisburgo e Itaguara estão de luto. O céu está em festa, os Rosa se reencontraram: Doutor João, Dona Lígia, Agnes e Vilma agora se abraçam sob um céu mais que azul, ouvindo os cantos das andorinhas, tal qual faziam no distrito conquistano há quase um século. 

De tudo, restarão as memórias, o afeto e a gratidão.

Os relembramentos hão de existir porque a morte não deve ser o fim.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Paulo Freire e a construção de uma ética ambiental para o nosso tempo

Há cerca de três anos, escrevi um projeto de mestrado na área de educação cujo enfoque era a interface entre o pensamento do educador brasileiro Paulo Freire e o saber ambiental. Não cheguei a concluir a inscrição naquele programa de pós-graduação porque optei por enveredar-me pela área das ciências sociais, todavia guardei as cerca de vinte páginas escritas naquela ocasião em minha gaveta.  

Tempos depois, por sugestão de uma afetuosa amiga, a historiadora e mestre em Educação, Luiza Parreiras, decidi desengavetar aqueles escritos e, em coautoria com ela mesma e com outra educadora, a Jossui Basílio, inspiramo-nos naquele projeto para escrevermos um artigo, que foi transformado transformou em um capítulo de um livro publicado no final do ano passado com o título: Esperançar Freiriano. Já nosso capítulo foi intitulado: "À sombra de uma árvore freiriana: reflexões a partir da epistemologia de Paulo Freire".

Capa do livro editado pela Ed. Pedro & João

Assim a professora doutora Dilara Rubia Pereira, supervisora de Ensino da Secretaria Municipal de Educação de Atibaia SP e autora do prefácio do livro Esperançar Freiriano, descreveu o nosso trabalho: “Em tempos de desvalorização da ciência, de pérfidos ataques às relações humano-ambientais e de precarização da vida, deparamo-nos com os escritos de Alisson Diego Batista Moraes, Jossui Basílio Mendonça Maia e Luíza Rabelo Parreira, ‘À sombra de uma árvore freiriana: reflexões a partir da epistemologia de Paulo Freire’, que refletem a questão humano-ambiental de forma transdisciplinar. É proposta uma investigação filosófica, crítica e reflexiva, pautada por uma ética ambiental em uma perspectiva antropológica e humanista, em uma dimensão política de inquebrantável solidariedade mundo-homem. Defendem a condição ético política ambiental ultrapassando os limites de uma disciplina e alcançando as perspectivas de Direitos (Humano, Social, Individual, Coletivo, Difuso, Ambiental), de Cidadania, de Filosofia das Cosmovisões, de Educação, de Ecosofia e da ética biocêntrica”.  

Dilara sintetizou bem o espírito do que propusemos fazer em nosso capítulo: trazer para o plano da reflexão ético-filosófica, questões sensíveis de nosso tempo, como o saber ambiental, entremeio uma era de incertezas e muitas crises (social, econômica, climática, ambiental, política, moral etc), a partir de uma base epistemológica freiriana. Sim, porque Paulo Freire e seu pensamento são mais do que atuais, são absolutamente necessários, sobretudo para a defesa da vida e a edificação de uma ética da sustentabilidade. Afinal, se vivemos uma era de crises, esta também nos oferece oportunidades de trilharmos caminhos novos e, juntos, fazermos a travessia para um novo tempo, no qual deve imperar a consciência ecológica, a autonomia e a solidariedade. Para isso, urge dialogar com a obra de Paulo Freire. Ela pode ser a bússola capaz de nos guiar rumo a uma nova racionalidade.  

Ao convidar você, estimado(a) leitor(a), a ler o livro Esperançar Freiriano, compartilho um inspirador excerto que dá a ideia dos pressupostos éticos defendidos pelo imorredoiro educador Paulo Freire, cujo centenário celebramos no ano passado e cuja obra celebraremos para todo o sempre: “Não renunciamos ao nosso dever de deixar este mundo um pouco melhor do que o encontramos. Esse deveria ser o sonho de todos. Não haveria nada de humano em nós se este não fosse nosso maior propósito".  

Uma vida sem propósito é vazia. Paulo Freire nos oferta a reflexão necessária para deixarmos como maior legado humano um mundo melhor (o que, hoje, significa disseminar uma ética ambiental, a ecologia integral). Não podemos perder tempo, nem a oportunidade.  


* Alisson Diego Batista Moraes, 36, advogado, bacharel em Filosofia e mestrando em Ciências Sociais. É membro do Diretório Nacional do Partido Verde e Secretário de Projetos Estratégicos da Prefeitura de Itabira. Este e outros artigos podem ser lidos no site: www.alissondiego.com.br. 

** Artigo publicado na edição de janeiro de 2022 do Jornal Cidades, Itaguara/MG.


PS: A obra foi publicada pela editora paulista Pedro & João e a versão virtual pode ser baixada gratuitamente por meio deste link: https://pedroejoaoeditores.com.br/site/wp-content/uploads/2021/12/Esperancar-Freiriano.pdf.