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quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Encantamento e ressignificação: reflexões sobre os primeiros dias de governo

Os primeiros dias de um mandato têm uma energia singular, marcada por um deslumbramento que desafia até Freud. Líderes carregam o brilho da vitória, equipes estão motivadas, e a população deposita esperanças em um governo que promete transformar a realidade. É um período onde tudo parece possível, uma fase que muitos chamam de "lua de mel". Nesse momento, Executivo e Legislativo costumam estar alinhados, pesquisas refletem alta aprovação, e o otimismo prevalece. Contudo, como toda lua de mel, essa também tem um fim. A realidade, com seus desafios e limitações, começa a se impor, exigindo que o governo transcenda o encantamento inicial e se transforme em ação concreta.  

Em meus 20 anos de experiência na gestão pública – como prefeito por oito anos e secretário em diversas cidades por outros oito –, vivenciei essa transição repetidas vezes. Por mais idealizado que seja o início de um mandato, o encantamento inevitavelmente chega ao fim. Secretários, assessores e servidores que pareciam exemplares durante a campanha começam a mostrar limitações. O próprio prefeito, frequentemente visto como uma figura quase onipotente, descobre que seu poder e controle são mais limitados do que imaginava. Para alguns, essa desilusão é desanimadora; para outros, é uma oportunidade de ressignificar e reconstruir. A grande questão é: diante desse cenário, desistimos ou transformamos a desilusão em força para seguir adiante?  

O deslumbramento inicial precisa acabar. Governar é muito mais do que ocupar um cargo; é assumir a responsabilidade de dar respostas concretas aos anseios da sociedade. Não há espaço para ilusões prolongadas quando o que está em jogo são as necessidades reais da população. Nesse sentido, a liderança pública exige abandonar o brilho superficial do poder e focar na entrega de resultados, reconhecendo que o verdadeiro impacto de um governo está na capacidade de agir com eficácia e empatia diante dos desafios que surgem.    


Tancredo Neves em Brasília-DF / Foto: Daniel Quoist 


Tancredo Neves, um dos maiores líderes da história política brasileira, costumava repetir uma frase que carregava grande sabedoria: "A política é a arte do possível." Atribuída a Otto von Bismarck, essa expressão reflete a essência do governar. Para Tancredo, governar era transformar limitações em avanços concretos, com pragmatismo e sensibilidade. Ele compreendia que a política não é feita de sonhos inalcançáveis, mas da habilidade de encontrar soluções reais dentro das condições dadas. Essa visão, que unia idealismo e realidade, permanece uma inspiração para todos que acreditam na capacidade transformadora da liderança pública.  

Tony Blair, ex-Primeiro-Ministro do Reino Unido, trouxe uma reflexão que ilustra bem essa realidade. Em agosto de 2023, no Congresso do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), realizado em Belém do Pará, ele compartilhou uma experiência reveladora de sua trajetória. Blair contou que, no início de seu mandato, acreditava que sua assinatura em um documento seria suficiente para resolver problemas ou implementar políticas públicas. Com o tempo, porém, percebeu que isso nem sempre era verdade. “Things simply don’t happen, and it’s staggering” (as coisas simplesmente não acontecem, e é espantoso), afirmou ele, surpreso com a resistência da realidade diante de suas decisões. Se isso ocorre com um líder de uma das maiores potências globais, imagine o que não acontece com um prefeito de uma cidade no interior do Brasil, lidando com recursos escassos, burocracia e limitações estruturais.    


 Tony Blair no Pará — Foto: Reginaldo Gonçalves/TV Liberal


Esse momento de transição não é apenas sobre a desconstrução de idealizações. É também sobre amadurecimento – da equipe, do líder e do próprio conceito de gestão. Governar exige enfrentar limitações de todos os tipos: orçamentárias, burocráticas e humanas. Como bem apontou Max Weber, o exercício da liderança política demanda um “longo e obstinado trabalho” para transformar o possível em real. Essa perseverança é o que diferencia líderes que desistem ao primeiro sinal de dificuldade daqueles que conseguem inspirar suas equipes e transformar a adversidade em aprendizado.  

No entanto, esse período pode ser emocionalmente exaustivo. Muitos membros da equipe, especialmente aqueles na linha de frente, tendem a desanimar ao perceberem que o prefeito não é tão infalível quanto imaginavam, ou que as mudanças prometidas exigem um esforço gigantesco para serem concretizadas. Contudo, esse é o momento em que a fraqueza pode se transformar em fortaleza. Reconhecer que ninguém é perfeito – nem o prefeito, nem os secretários, nem os servidores – é o primeiro passo para construir uma relação mais autêntica, baseada no respeito mútuo e na confiança na capacidade de crescer juntos.  

Mais do que isso, é preciso unir esforços além da equipe interna. Como afirmou Hannah Arendt: "O poder é o que mantém a existência da esfera pública, o espaço potencial de aparência entre homens que agem e que falam. [...] O poder surge entre os homens quando eles agem juntos e desaparece no momento em que se dispersam" (Arendt, 1965, p. 200). A gestão pública só se fortalece verdadeiramente quando há uma conexão entre a classe política, a sociedade e os diversos atores que compõem a vida pública. O isolamento ou a fragmentação entre esses grupos enfraquece o mandato e compromete o objetivo maior de atender às demandas coletivas.  

A "lua de mel" característica dos primeiros meses de mandato é um marco inicial valioso, mas transitório. Sua efemeridade reforça o verdadeiro sentido da gestão pública: transcender o entusiasmo inicial para construir uma admiração sólida e duradoura. Quando o brilho superficial se dissipa, emerge o desafio de ressignificar o governo, substituindo o encantamento por um respeito fundamentado na ética, na resiliência e na disposição para enfrentar desafios coletivamente.  

Os primeiros dias de um mandato são um rito de passagem – um período em que ilusões dão lugar ao realismo, mas também à possibilidade de construir algo mais autêntico e duradouro. É nesse momento que o governo deixa de ser uma promessa e se transforma em ação. Apesar das limitações individuais, é no esforço conjunto que reside a força necessária para fazer a diferença.  

A lua de mel acaba. O encantamento passa. Mas é na ressignificação, no reencontro com o propósito e na valorização da humanidade que um governo encontra sua verdadeira grandeza. Afinal, a política não é a arte do impossível; é a arte de fazer entregas, mesmo enfrentando limitações - e, mesmo assim, construir, dia após dia, uma realidade mais digna e justa para todos.  


Referências  

ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 1965.  

ARENDT, Hannah. Ich will verstehen. LUDZ, Ursula (Ed.). München: Piper, 1996.   

WEBER, Max. Economia e sociedade. Brasília: UnB, 1999.

domingo, 9 de abril de 2023

Amígdalas inflamadas e leituras murilianas: Tudo é graça nesta vida agonizante *

Semana santa e feriado prolongado a partir de quinta-feira para nós que ousamos, ainda, exercer o múnus público. Costumeiramente, utilizo esses quatro dias para três finalidades: estudar, exercitar e refletir sobre a religiosidade e a transcendência. Fico no meu lugar de sempre: Itaguara, casa de mãe e avós. Meu habitat histórico-espiritual.

O que eu não contava era que este ano uma amigdalite fortíssima me acometeria justamente na quarta-feira santa, um dia antes de viajar para o retiro pascal itaguarense. Numa consulta na noite de quarta-feira, a médica foi categórica: “viaje quando melhorar, não beba ou fume e mantenha o repouso”. Um dos três propósitos, o exercício físico (as trilhas e/ou longas caminhadas) estava prejudicado, então restava-me dedicar a ler e refletir. Mas tudo eu costumo viver sem altos reclames porque como nos ensinou Santa Teresinha do Menino Jesus: “Tudo é graça”. Melhorei um pouquinho e vencida momentaneamente a febre, na quinta-feira mesmo, à tardezinha, mentalizei o Salmo 140, pedi a proteção à Nossa Senhora do Livramento e parti para Itaguara. Àquela altura, eu já havia lido, entre quarta à noite e quinta pela manhã, mais da metade de um denso livro filosófico.

Ao chegar em casa materna, a garganta tornara a incomodar, mas não a ponto de afastar o meu propósito. Entre a febre que retrocedia e voltava ciclicamente, decidi fugir das leituras que havia me proposto inicialmente (relatórios gerenciais, estudos tributários e dois livros filosóficos para o doutorado). “Preciso de literatura brasileira, mineira, além de uma obra filosófica e talvez algumas crónicas”, disse a mim mesmo. Foi então que optei por me dedicar a três livros: um de Luís Fernando Veríssimo, uma tese de doutorado sobre a teoria democrática em Habermas e Honneth (que já havia começado a ler na noite anterior) e o que mais me motivava: a antologia de Murilo Rubião.

Nunca leio exclusivamente uma obra. Gosto de ler três ao mesmo tempo (e de gêneros diferentes) para descansar e instigar a mente. Quando a leitura filosófica fica pesada, vou de crônica. Quando as crônicas se tornam maçantes, fio-me nos contos. E por aí vai...

Entre crônicas, teses filosóficas e contos, preciso falar de Rubião. Acabo de terminar as suas “Obras completas”. Foi uma (re)leitura mágica, doce, transcendente – não poderia ter feito escolha melhor para esta semana santa. Eu já havia lido uns cinco ou seis contos do Murilo, mas não me aventurara, até então, a ler as obras completas e posso dizer que fiquei no mais completo êxtase ao fazê-lo.

Logo ao terminar a leitura muriliana, ontem mesmo, após horas e horas de compenetração, enviei uma mensagem para um fraterníssimo amigo que estuda Letras na prestigiosa FALE, na UFMG, dizendo do meu entusiasmo com Rubião. Como um balde de água fria, ele me disse: “Eu gosto muito, mas sinto uma tristeza por saber que ele é praticamente um desconhecido nas faculdades de letras”. “Como assim!?”, pensei sobressaltado! Trocamos mais uma dezena de mensagens e fiquei refletindo: como pode um autor mineiro tão inovador ser desconhecido? Do grande público ainda vá lá porque nossos tempos de massificação cultural são mesmo aterradores, mas até dos estudantes de letras em Minas Gerais!?

E por qual motivo Murilo Rubião (1916-1991), não pode ser desconhecido? Dentre outras razões, porque o autor mineiro foi o grande precursor da literatura fantástica no Brasil e na América Latina, antes mesmo do célebre trio mágico surgir: Gabo, Cortázar e Borges. Murilo possui um estilo literário muito original, além de ser metódico, cirúrgico, um verdadeiro escultor de palavras. Dentro do propósito que traçou para a sua literatura: a narrativa baseada na extraordinariedade, a capacidade de ser disruptivo sem promover rupturas, isto é, de naturalizar o absurdo na tessitura de um encadeamento textual peculiar. Comparado a Kafka, o escritor mineiro disse numa entrevista que sua influência viera mesmo de Machado de Assis e que sequer havia lido o escritor de língua alemã antes de publicar seus primeiros textos.


Murilo Rubião em Ilustração por Rafael Rubião


Um dos contos de que mais gosto é ‘O Pirotécnico Zacarias’, publicado em meados dos anos 1970. Nele, o narrador-defunto escancara, por meio de várias situações e diálogos cotidianos, o absurdo da condição humana. Atualíssima é a conclusão a que chega o personagem, após observar a sociedade e refletir sobre a sua condição quase nada incômoda de vivo-morto ou de morto-vivo, a depender do ponto de vista: “Só um pensamento me oprime: que acontecimentos o destino reservará a um morto se os vivos respiram uma vida agonizante? E a minha angústia cresce ao sentir, na sua plenitude, que a minha capacidade de amar, discernir as coisas, é bem superior à dos seres que por mim passam assustados”.

Murilo não foi um escritor prolífico, apesar de sua obra ser rica e complexa. Produzia pouco para produzir bem, talvez por isso mesmo a sua literatura seja tão potente e tangível em sua intangibilidade. Sua obra é muito necessária na atualidade, diante da complexidade que as relações humanas passaram a representar em nosso momento histórico, uma era tão absurda quanto alguns dos contos do próprio Murilo, embora em nossa realidade distópica esteja ausente a irreverente genialidade do escritor mineiro. Em seu lugar, há uma massificação de tudo, uma hegemonização cultural empobrecedora.

Além de seus predicados literários, Murilo Rubião dirigiu a rádio Inconfidência, foi oficial de gabinete do governador Juscelino Kubitschek e chefiou o Escritório de Propaganda e Expansão Comercial do Brasil na Espanha. Sua vida dividiu-se, portanto, entre as burocracias do múnus público e os afazeres literários. Rubião precisa se fazer presente, não para adornar qualquer mineirismo rançoso, mas para o devido reconhecimento de sua obra magistral, fertilizadora de caminhos novos e, claro, para o deleite de todos aqueles que privilegiam uma literatura autêntica.

Eu vejo e sinto: Rubião está presente. Que tenhamos olhos de vê-lo e sensibilidade em lê-lo, a fim de, pelo menos, tentarmos romper com essa “vida agonizante” de nosso tempo, incapaz de “amar e discernir as coisas”.


*  Texto originalmente publicado no site Sagarana Notícias em abril de 2023

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

AMIG lança reedição de livro sobre história da mineração em Itabira


Alisson Diego com a obra de Clodoveu
Oliveira em Itabira - 01/12/22 

A Associação dos Municípios Mineradores de Minas Gerais e do Brasil (AMIG), lançou nesta quinta-feira (01/12), uma edição fac-símile do livro “A concessão Itabira Iron - A origem da Vale e os primórdios da indústria da mineração no Brasil”. A obra foi publicada originalmente em novembro de 1934 pelo mineralogista Clodomiro Augusto de Oliveira, professor e diretor da Escola de Minas de Ouro Preto no biênio 1930/31 e traz um relato sobre a exploração do minério de ferro nas ricas jazidas de Itabira, situada na região Central de Minas Gerais. O lançamento aconteceu na Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (Av. Carlos Drummond de Andrade, 666 - Centro, Itabira).

A cidade de Carlos Drummond de Andrade, com cerca de 121 mil habitantes, vive há 80 anos a dependência econômica da atividade minerária. Sua história e desenvolvimento praticamente se confundem com a da exploração mineral, cujo fim, segundo previsões da Vale, será em 2031. “Itabira tem sido, mais uma vez, um laboratório para a mineração de Minas Gerais e do Brasil, já que a cidade vê o fim da exploração mineral cada vez mais próximo. E, por isso, a construção de uma almejada independência financeira se faz importante e urgente.” A diversificação econômica deve ser perseguida todos os dias, como saúde e educação”, diz o consultor de Relações Institucionais e Econômicas da entidade, Waldir Salvador.

Segundo o prefeito de Itabira, Marco Antônio Lage, a dependência econômica da mineração é o maior problema que o município tem a resolver. “Era assim há décadas e continua hoje. Pelo menos 80% do orçamento de Itabira é proveniente de receitas da mineração. Seja da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (Cfem), que chegou a 30% da receita total em 2021, ou das demais fontes diretamente impactadas pela atividade, como o ICMS e o ISS. Isso sem falar, claro, do quanto as atividades econômicas do município estão atreladas à mineração: comércio, indústria e outras. Temos um cenário de inegável dependência”, pontua.

Alisson Diego, atualmente secretario municipal de Fazenda de Nova Lima, esteve no evento representando o prefeito nova-limense, João Marcelo Dieguez. Diego destacou que Nova Lima é uma das principais cidades mineiras que também dependem economicamente da exploração mineral. "É uma honra voltar a Itabira, cidade onde tive a oportunidade de auxiliar na gestão do prefeito Marco Antônio Lage como assessor de projetos e chefe de Gabinete. A reedição desta obra histórica do professor Clodoveu nos alerta, mais uma vez, para a nossa tarefa histórica: diversificar a economia das cidades mineradoras e construir ativos que perpassam a educação, a cultura e a proteção ambiental, afinal de contas como bem lembrou o presidente da República mineiro Arthur Bernardes: 'o minério não dá duas safras'. Esse tesouro de safra única não pode ser utilizado apenas em seu contexto exploratório de maneira desordenada e sem estratégia. Tem que deixar um legado para as cidades mineradoras e para o nosso país. Tenho convicção de que o novo governo federal vai se atentar a isso", pontuou Diego.


Prefeito Marco Antônio Lage, Alisson Diego,
Maurício Mendes e Dulce Citi na FCCDA. 01/12/22

*Com informações e textos da Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Itabira