segunda-feira, 12 de abril de 2021

Deus (ainda) é brasileiro?

Crédito editorial: Shawn Eastman Photography / Shutterstock.com


Quando criança, cansei de escutar dos adultos que Deus era brasileiro (hoje, ainda falam isso, mas acho que o auge dessas afirmações foram os anos 70, 80 e 90 – faltam-me evidências para aprofundar nesta questão que, certamente, tem potencial para engendrar um ótimo ensaio sociológico). Nunca consegui compreender, contudo, o porquê de os adultos daquela época dizerem isso com tamanho entusiasmo ufanista. Eles explicavam, de um jeito meio estranho e impreciso, que nestas terras não havia terremoto, furacões e outras catástrofes naturais, também não havia guerras e aparentes conflitos étnicos – então, concluíam eles, Deus só poderia ter nascido aqui ou, na pior das hipóteses, ter escolhido estas terras como as Suas preferidas dentre Seus infinitos domínios universais.

Fui crescendo e aperfeiçoando o meu espírito mineiro desconfiado, passando a questionar fortemente esses dogmas, meio ufanistas e meio jocosos, dos adultos a respeito da Terra Brasilis. Eu devia ter uns onze anos de idade quando surgiu uma canção do autêntico axé baiano que me ajudou a questionar a brasilidade divina. A música fez muito sucesso em meados dos anos 90 e se chamava “Deus É Brasileiro” do grupo Terra Samba. O compositor da referida canção provocava ritmadamente:

“Ônibus lotado, povo apertado / Será que na vida tudo é passageiro / Um calor danado, povo sem dinheiro / Tenho lá minhas dúvidas se Deus é brasileiro / Deus não pega ônibus, nem lotação / Mas deve ouvir pedidos e reclamação / Não tem cor nem sexo nem estado civil / Coitado se ele for o gerente do Brasil”.     

Quem disse que um bom axé da Bahia não nos pode impelir a reflexões menos rasas? Como se não bastasse o Criador não ser brasileiro, o compositor ainda lamentava: “Coitado, se Deus for o gerente do Brasil”.

Podíamos não ter, historicamente, trágicas guerras e catástrofes naturais em solo brasileiro, mas sempre tivemos violência, fome, desigualdades aberrantes, serviços públicos ineficientes, políticos medíocres e criminalidade em proporções descomunais Continuamos tendo esses mesmos problemas socioestruturais, agora com dois pesados agravantes: 1) a pandemia (líderes mundiais lançaram, nos últimos dias, um comunicado afirmando que a pandemia de Covid-19 é o maior problema da humanidade desde a Segunda Guerra Mundial); 2) o governo de Jair Bolsonaro, considerado o pior do mundo na gestão da pandemia (não entrando em outras idiossincrasias).

A pandemia, há mais de um ano, nos devasta econômica, social e politicamente, além de escancarar muitas de “nossas” mazelas históricas como a desorganização governamental e a crônica dificuldade em cumprir regras sociais. Os problemas são “nossos” sim (faço questão de salientar isso), porque o governo nada mais é do que o reflexo de seu povo – gostemos ou não dessa frase, ela reflete a dura realidade.

Apenas dois países, Brasil e Estados Unidos, dentre as cerca de 200 nações do planeta, ultrapassaram a marca de mais de 3 mil mortes por dia em decorrência do Coronavírus. Somam-se quase 340 mil mortes por Covid no Brasil, quase 30 mil mortes em Minas Gerais e mais de 20 mortes em solo itaguarense, pessoas que conhecíamos e com as quais convivíamos. De acordo com o respeitado cientista Miguel Nicolelis, podemos chegar a 500 mil brasileiros mortos pelo vírus até meados do ano se não houver uma gestão federal mais efetiva. Definitivamente, não há como não reconhecer a gravidade, atestada pelos números assombrosos da Covid-19 em solo pátrio. Os EUA corrigiram a rota ao elegerem Joe Biden, que investiu maciçamente em vacinas e num ousado projeto de recuperação econômica. Por aqui, seguimos a ver navios...

O jornalista e ex-deputado Fernando Gabeira (PV) sintetizou muito argutamente a situação atual do país, em um artigo publicado pelo jornal “O Estado de São Paulo”, no dia 02/04: “Um presidente incapaz, entregue no campo político à voracidade dos seus aliados do Centrão, buscando de todas as maneiras sabotar a luta contra a pandemia – tudo isso compõe um cenário desolador, sobretudo porque a sociedade está reduzida, no momento, a protestos virtuais.” Gabeira termina o seu artigo sentenciando: “Cedo ou tarde, julgaremos Bolsonaro.” Espero que Gabeira esteja certo e que o presidente seja julgado, tanto pelas instâncias judiciais quanto políticas, uma vez que, pela História, o julgamento embora tarde, nunca falha. Não custa lembrar que, na Eslováquia, o primeiro-ministro Igor Matovic e seu governo populista caíram em decorrência da gestão desastrosa da pandemia. Matovic foi o primeiro líder mundial derrubado pela gestão incompetente diante do vírus.

Luiz Gama, Darcy Ribeiro, Maria Quitéria, Juscelino Kubitschek, Tarsila do Amaral, Rui Barbosa, Dom Pedro II e outros tantos brasileiros engajados lutaram intensamente para que se cumprisse a profecia do “país preferido por Deus”, dedicando suas vidas pela soberania e pela grandeza dessa nação. Hoje, eles sentiriam vergonha pelo que se passa nesta terra.

Cristão mediano otimista que quase sou, não quero terminar este artigo com tons desesperançados. Ainda acredito que Deus possa ter um olhar generoso e misericordioso para com o Brasil, afinal de contas, continuamos a ser a nação com a maior biodiversidade do planeta e isso só pode ser graça divina. Por outro lado, creio que alguns dos problemas terrenos, sobretudo os sociais, precisam mesmo ser resolvidos diretamente pelos seres humanos. Penso, inclusive, que Deus espera isso de nós, afinal, dotou-nos da graça do livre arbítrio, temática belíssima e vastamente explorada pela filosofia de Santo Agostinho.

Quiçá, o primeiro dos problemas que devamos resolver por aqui seja aprendermos a escolher melhor os nossos governos. Espero que aprendamos. Outubro de 2022 é logo ali. A depender dos resultados eleitorais, pode ser que o Criador desista de vez de Sua nacionalidade brasileira e destine Seus olhares gentílicos para a Austrália, por exemplo, um país livre da pandemia há dois meses, onde há um governante competente e um povo que cumpre regras.    

* Alisson Diego Batista Moraes, 36, advogado, MBA em Gestão Empresarial pela FGV, bacharel em Filosofia pela UFMG e mestrando em Ciências Sociais pela PUC Minas. Foi prefeito de Itaguara entre 2009 e 2016. Atualmente, é membro da diretoria executiva do Partido Verde de Minas Gerais e assessor de projetos estratégicos da Prefeitura de Itabira-MG.  


** Artigo publicado no Jornal Cidades, edição de abril de 2021 - Itaguara/MG. 

quarta-feira, 3 de março de 2021

Novos desafios e aprendizagens * *

Prefeitura de Itabira: Créditos Ascom Pref. Itabira
 

    Fui eleito vereador aos 19 anos de idade, mas comecei a minha militância política bem antes, aos 13, envolvendo-me com grêmio estudantil e liderança escolar, isso ainda no ensino fundamental. Lá se vão mais de 20 anos de envolvimentos comunitários e 17 anos desde a primeira eleição da qual participei.

    No mais, a minha trajetória é amplamente conhecida pela grande maioria dos leitores deste jornal e pelos estimados conterrâneos itaguarenses: fui prefeito aos 23, reeleito aos 27, diretor do SAAE de Itaúna aos 31 e secretário de governo e planejamento de Itaúna aos 32, cargo que ocupei até os 34. Apesar dos recém completos 36 anos e a idade ainda me conferir alguma juventude, olho para trás e vejo uma caminhada longuíssima de trabalho e múltiplas experiências. Algumas positivas, outras nem tanto. De todo modo, todas as vivências garantiram-me, até aqui, uma gama de aprendizagens.

    Decidi “dar um tempo” tanto da política, quanto da gestão pública para voltar ao Banco do Brasil em meados de 2019. Fiquei no Banco por mais de um ano, até que recebi um convite irrecusável: auxiliar na elaboração de um ousado planejamento estratégico em Itabira, sobretudo com a exaustão do mineiro de ferro nos próximos anos (convite técnico, feito a partir de meu currículo e não por qualquer indicação partidária).

    A missão da gestão municipal itabirana, neste momento, consiste em estruturar um plano de diversificação e autossuficiência econômica para fazer frente ao rombo estrutural que poderá abalar a cidade com a saída da Vale S.A., a maior multinacional brasileira e uma das principais fontes de arrecadação do município. Itabira é uma das 10 maiores economias do estado, uma das 25 maiores cidades de Minas Gerais (populacionalmente), além de ser a terra do mineiro que mais admiro: Carlos Drummond de Andrade, o poeta maior. Fazer parte do primeiro escalão do governo itabirano é, pois, motivo de imensa honra e inestimável júbilo. De Itaguara para Itabira, são muitas histórias acumuladas nestas quase duas décadas. De Itaguara, guardo a mais terna gratidão e, de Itabira, nutro a mais sincera esperança: é preciso encontrar soluções e implementar mudanças para melhorar a governança pública e, teleologicamente, construir uma sociedade mais justa, fraterna, ecológica e desenvolvida.

    De vez em quando, perguntam-me se eu ainda não me decepcionei com a política ou com a gestão pública (gestão pública e política podem parecer a mesma coisa, mas não são, definitivamente) e eu respondo sonoramente que sim! Meu Deus do céu, como me decepcionei nesta longa caminhada! Quantas vivências com pessoas nefastas, egoístas e “estranhas”. A cada grande decepção, perseguia-me uma gigantesca e angustiante indagação: desistir de vez e cuidar apenas da minha vida ou insistir nos trabalhos coletivos? Houve momentos nos quais decidi, de fato, cuidar de minha existência, quase que de modo ensimesmado. Outras vezes, porém, realinhei as expectativas e decidi voltar a trabalhar pelo coletivo, isso porque a vida, para mim, jamais se reduzirá à mera satisfação de meus desejos e interesses individuais.

    A existência plena e autêntica, diz-nos Aristóteles e tantos outros pensadores notórios, impõe-nos uma atuação na cena pública. Afinal de contas, não vivemos sozinhos e é apenas em comunidade que nos aperfeiçoamos enquanto seres humanos.

* Alisson Diego Batista Moraes, 36, advogado, MBA em Gestão de Empresas pela FGV, bacharel em Filosofia pela UFMG e mestrando em Ciências Sociais pela PUC Minas. Foi prefeito de Itaguara entre 2009 e 2016, atualmente é membro da diretoria executiva do Partido Verde de Minas Gerais e assessor especial de projetos da Prefeitura de Itabira-MG. 


** Artigo escrito para o Jornal Cidades (Itaguara/MG), edição de março de 2021.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Somos todos filósofos nestes tempos de pandemia?

    O popular escritor, jornalista e palestrante norte-americano, Eric Weiner, publicou um artigo, há algumas semanas, no The Wall Street Journal (WSJ) entitulado “Filosofia para um Tempo de Crises” (livre tradução). Weiner defendeu, categoricamente, nas páginas do WSJ que, devido à pandemia que nos acometeu enquanto humanidade, todos os viventes, de uma maneira ou de outra, tivemos de nos colocar diante de nós mesmos e enfrentar nossos piores medos e angústias individuais e coletivos. Isso, por si só, teria recolocado a filosofia (outrora esquecida e relegada às páginas rotas dos livros acadêmicos) novamente na centralidade da vida humana.

    Afora o exagero e a retórica publicitária (típicos de grande parte dos palestrantes e elementos presentes em diversos momentos no artigo referenciado), a argumentação de Weiner faz algum sentido porque o fato é que não houve um ser humano sequer que não tenha sido afetado de algum modo pelos efeitos psíquicos, econômicos, sociais ou mesmo físicos advindos destes tempos pandêmicos.

    Entretanto, não é qualquer filosofia que deve ser evocada nestes tempos, de acordo com o escritor estadunidense. São os antigos gregos e os existencialistas franceses os possuidores da chave da sabedoria filosófica capaz de abrir nossas mentes fechadas e doentias nestes tempos obnubilados e promover uma “cura lenta”. É a filosofia compreendida como “medicina prática e terapêutica para a alma”. Ou seja, o autor está se referindo ao estoicismo e ao existencialismo - duas das mais conhecidas “correntes filosóficas”, distantes temporalmente e conceitualmente, mas unidas, oportunisticamente, pelo jornalista. 

    Sou tomado de um juízo radicalmente crítico quando assisto aos aproveitadores que tentam amoldar o saber filosófico na vala rasa da auto-ajuda ou nos potes diminutos fabricados pelos parlapatões da “onda coach” (ou seria um tsunami?), mas sou igualmente crítico quando os acadêmicos insistem em isolar a filosofia do povo, das ruas e da realidade, adornando-a com uma aura de transcendentalismo e inalcançabilidade. Se o saber filosófico não é algo simplista (e, de fato, não é mesmo), também não pode ser algo apenas adstrito aos muros da academia. A filosofia, como ensinou muito bem Sócrates, pode e deve ser feita a partir das ruas, vencendo os mitos com o exercício da capacidade crítica – questionarmos nós mesmos e também questionarmos o mundo e a sociedade.

    O artigo do Weiner contém algumas inconsistências relevantes, mas reconheço que possui o mérito de tentar (assim como Mário Sérgio Cortella, Karnal, Pondé e outros tantos o fazem) trazer as reflexões (filosóficas ou não) para perto do povo. Isso, seguramente, é muito melhor do que nos acostumarmos à passividade e ao conformismo acrítico. Se obras como a de Weiner ou de Pondé ao menos instigarem a curiosidade intelectual ou existencial já terão cumprido um bom papel. Ao curioso leitor, caberá decidir se aprofundará na busca pelo libertador conhecimento filosófico ou se deixará agrilhoar pelas amarras sociais e culturais tão confortáveis quanto ilusórias.

    Compartilho um trecho do mencionado artigo que, embora simplista, estimula-nos a refletir sobre o papel da filosofia nos dias de hoje: “A filosofia nos ajuda a desembaraçar as complicadas questões éticas levantadas pela pandemia, mas também pode nos ajudar a responder dilemas muito mais pessoais, mas igualmente urgentes: Como suportar o insuportável? Como encontrar certeza em um universo incerto? A filosofia não oferece respostas fáceis, mas reformula nossas perguntas e altera nossas perspectivas - uma habilidade que é útil durante os bons tempos e inestimável nos tempos ruins”.

    Se é verdade que a filosofia nasce do espanto, como argumentou Aristóteles, a Covid-19 pode, ao nos espantar a todos, ter acendido alguma centelha de instigação filosófica em muitas pessoas. Não deixe essa centelha se apagar. Nutra-a com estudos e reflexões.

    PS: Se você, estimado(a) leitor(a), se interessar em adentar no universo filosófico, não sugiro que leia Weiner, mas sim um livro que há muitos anos entusiasma estudantes de todo o mundo e pode ser encontrado facilmente em qualquer livraria ou mesmo em nossa Biblioteca Pública Guimarães Rosa. O livro se chama “O Mundo de Sofia” e o autor é o Jostein Gaarder. Não importa a sua idade, nível de instrução, ocupação profissional ou posição social, se você quer ser instigado(a) pela filosofia, leia este livro!


* Alisson Diego Batista Moraes, 35, bacharel em Filosofia (UFMG), advogado (UIT), MBA em Gestão Empresarial (FGV) e mestrando em Ciências Sociais (PUC Minas). Artigo escrito para a edição de janeiro de 2021 do Jornal Cidades, Itaguara/MG.

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

A voz das urnas: um olhar analítico e algumas constatações

Urna eletrônica é embalada para uso durante as eleições, na Escola Judiciária Eleitoral do Rio de Janeiro
- 26/09/2018 Mauro Pimentel/AFP


Passadas as eleições municipais, é momento de se debruçar sobre os resultados eleitorais e decodificar, com racionalidade, a voz das urnas. Não é tão simples, como podem sugerir alguns especialistas, analisar, com a devida contextualização, os resultados de um processo eleitoral, sobretudo num país tão extenso, plural e complexo como o nosso. Requer frieza e afastamento das passionalidades. Este artigo se propõe a fazer uma breve análise, com uma abordagem a mais clara e objetiva possível. 

Pode-se dizer que os grandes vencedores deste pleito foram os partidos representantes do famigerado “centrão” - esta é a primeira constatação proveniente das urnas dos municípios. As agremiações partidárias PP, DEM, Republicanos e PL, algumas das principais representantes da centro-direita, tiveram crescimentos relevantes, tanto no número de prefeitos, quanto de vereadores. Essa tendência foi observada no Brasil e em Minas Gerais, onde os partidos tradicionais também perderam espaço: MDB, PSDB e PT reduziram significativamente o número de prefeitos eleitos em comparação com as últimas eleições. 

Desde a redemocratização, essa foi a primeira vez que nenhum partido elegeu mais de cem prefeitos em nosso estado – o que caracteriza outra significativa característica deste pleito municipal, tanto em Minas Gerais, como em todo o território nacional: a pulverização partidária – eis a segunda constatação. As grandes agremiações partidárias (MDB, PSDB e PT, principalmente) perderam espaço para legendas mais novas (PSD, Podemos, Solidariedade e Avante, por exemplo). Em Minas Gerais, assim como no Brasil, o MDB permanece na liderança como a legenda que mais elegeu representantes no Executivo municipal, mas a queda foi considerável. Em 2020, foram 98 prefeitos eleitos em Minas Gerais – 61 a menos que nas eleições de 2016, quando a sigla obteve 159. Em seguida aparecem: PSDB (86 prefeitos), DEM (84), PSD (78), PP (65) e Avante (50).

Quando se analisa a população governada, o PSD é o partido que governará o maior número de habitantes no estado (4,5 milhões), seguido por DEM (1,9 milhões), PT (1,8 milhões), PP (1,7 milhões) e PSDB (1,6 milhões). Os números deixam claro que o PSD é o grande vencedor em Minas Gerais, sobretudo por ter levado a capital com a reeleição histórica de Alexandre Kalil com  63,36% dos votos válidos. Já as vitórias do PT no segundo turno em Juiz de Fora (Margarida Salomão) e Contagem (Marília Campos) recolocaram o partido no mapa eleitoral mineiro e evitaram um declínio ainda maior. 

A terceira constatação diz respeito às abstenções neste pleito em tempos pandêmicos. O Brasil registrou uma abstenção de 23,14% (34,2 milhões de eleitores deixaram de votar), o que representa a maior taxa dos últimos 20 anos em eleições municipais. Na eleição mais recente, a presidencial de 2018, a abstenção no primeiro turno ficou em 20,33%. Nos pleitos anteriores, o não comparecimento ficou em 17,6%, em 2016, e 16,9% em 2012 (números do primeiro turno). Os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro apresentaram os maiores índices de abstenção de eleitores no primeiro turno das eleições municipais, 27,3% e 28%, respectivamente. Em Minas Gerais, a taxa de abstenção foi de 23%. 

Uma questão absolutamente relevante é a taxa de reeleição dos prefeitos brasileiros. O percentual de chefes locais do executivo que conquistaram um segundo mandato é o maior desde 2008. Cerca de 63% dos candidatos que tentaram a reeleição foram exitosos. Em 2016, o percentual de reeleição foi o menor da história, desde que foi aprovada a reeleição no país (47%). Nos 853 municípios mineiros, 346 prefeitos foram reeleitos, o que corresponde a 40,63% do total – um crescimento significativo também no estado, quando se compara com as eleições passadas cuja taxa de reeleição foi de 24%. A quarta constatação, portanto, é o aumento da taxa de reeleição. 

Derrota dos grandes partidos, pulverização partidária, aumento da abstenção e alta taxa de reeleição são quatro importantes constatações desse pleito, mas ainda nos resta mencionar pelo menos outros dois sinais emitidos pelas urnas municipais: a derrota de Bolsonaro e o impacto para as eleições presidenciais de 2022 (ao final deste artigo ainda mencionarei a histórica sub-representação em nossa democracia). 

O presidente Bolsonaro, mesmo sem partido, participou ativamente de algumas candidaturas a prefeito e o fez por meio das suas icônicas “lives” semanais transmitidas por suas redes sociais. Ele apoiou abertamente 63 candidatos em todo o país: 18 a prefeito, 1 a senador (em Mato Grosso, houve eleição suplementar) e 44 a vereador. Apenas 11 candidatos a vereador e 5 a prefeito foram eleitos – um deles é o mineiro Gustavo Nunes (PSL), prefeito eleito de Ipatinga, no Vale do Aço. As principais derrotas bolsonaristas se deram nas capitais de São Paulo e do Rio de Janeiro. Celso Russomanno (PRB), começou a campanha liderando as pesquisas de intenção de voto para a Prefeitura de São Paulo, mas quando recebeu o apoio formal do presidente, despencou nas pesquisas e terminou o pleito apenas em quarto lugar. O bispo da Igreja Universal e atual prefeito do Rio, Marcelo Crivella (REP), conseguiu chegar ao segundo turno, mas foi derrotado de maneira acachapante, obtendo apenas 35,93% dos votos, ante 64,07% de Eduardo Paes (DEM). O declínio do bolsonarismo é a quinta constatação dessas eleições municipais.

Cientistas políticos e analistas convergem acerca da derrota eleitoral sofrida pelo presidente e o consequente enfraquecimento do radicalismo e do discurso de ódio propalados por ele. Há, no entanto, uma indagação decorrente dessas constatações: quais os impactos para as eleições de 2022? Vislumbra-se uma derrota de Bolsonaro daqui a dois anos? 

A sexta e última constatação a respeito das eleições municipais, portanto, associa-se justamente ao futuro da quarta maior democracia do planeta, que estará em jogo nas próximas eleições. Se é verdade que Bolsonaro foi um dos grandes derrotados no pleito municipal, disso não decorre que, necessariamente, ele perderá as eleições em 2022. “Ninguém chega ao poder por acaso”, lembra sempre o ex-presidente FHC em suas análises sobre a vitória de Bolsonaro em 2018. O capitão presidente é fruto de um amplo movimento de extrema-direita mundial que emergiu em várias nações nos últimos anos – consequência também de descontentamentos das populações com a corrupção e a economia vacilante, incapaz de promover prosperidade e oportunidades. Assim como não “surgiu do nada”, mas como fruto de um amplo, avassalador e complexo processo, o bolsonarismo não desaparecerá num estalar de dedos e não está liquidado, mesmo após o seu fraquíssimo desempenho nas eleições municipais (analogamente, podemos dizer que o trumpismo não acabou com a derrota de Trump nos EUA). 

Com o declínio de Donald Trump e os claros sinais emitidos contra o radicalismo nas eleições municipais brasileiras, o enfraquecimento do bolsonarismo e de tudo o que ele representa é uma constatação irrefutável. Não se pode, entretanto, subestimar o presidente que, em alguma medida, conseguiu “dialogar” e convencer o eleitorado brasileiro em 2018, ainda que se valendo de métodos nada convencionais e fortemente incivilizados – a máquina “eficiente” que gerou e disseminou milhões fatos distorcidos e incitou o radicalismo ainda está no poder. 

Conta a favor de Bolsonaro, ainda, o fato de que não há, hoje, um nome que seja capaz de unificar nem a esquerda, nem a centro-direita. “O tempo urge e a Sapucaí é grande”, relembra o velho bordão dos sambistas cariocas, atentando-se para o fato de que para atravessar a arena do samba é preciso ter ritmo e “correr contra o tempo”. Para esta analogia, o tempo conta a favor do presidente capitão. Para vencê-lo daqui a dois anos, será necessária uma dificultosa união em torno de uma frente antibolsonarista. A sexta constatação destas eleições se resume em uma frase: Bolsonaro perdeu a batalha, o bolsonarismo está em declínio, mas a guerra ainda não acabou. 

Itaguara e região 

Passemos agora a uma breve análise em nível regional. Itaguara possui uma evidente tradição em reeleger seus prefeitos. Desde 1997, quando foi aprovado o instituto da reeleição no Brasil, todos os chefes do Executivo local que se recandidataram, venceram as eleições. Foi assim com Bira, em 2004, comigo, em 2012, e com Donizete Chumbinho (PSDB) em 2020. O único prefeito não reeleito foi Rui Lara, que poderia ter sido candidato em 2000, mas optou por não se recandidatar.

Chama a atenção no pleito de 2020, em Itaguara, a expressiva votação obtida pelo atual prefeito. Muitos podem argumentar que não houve disputa contra um adversário competitivo (de fato, a comparar com as eleições de 2000, 2008 e 2012 isso é um fato), mas essa argumentação se fragiliza, uma vez que o comparecimento às urnas foi maciço , mesmo diante da pandemia. Ou seja, os itaguarenses saíram de casa, neste ano, para votar maciçamente em Chumbinho, que alcançou uma vitória absolutamente maiúscula. 

Em meus cálculos, Chumbinho foi o segundo prefeito mais votado de todo o estado de Minas Gerais, com 91,62% dos votos válidos (10,40% votaram nulo, 8,38% votaram em Bruno Cartier e 6,39% votaram branco), perdendo apenas para o prefeito de Serra do Salitre, na região do Alto Paranaíba, que alcançou 92,26% dos votos válidos de sua cidade, contra 7,74% de seu único adversário. 

Na cidade de Piracema, por outro lado, a tradição consiste em não reeleger prefeitos. No município vizinho, o ex-prefeito, Adílson Greco, perdeu as reeleições de 2008 e de 2016. O ex-prefeito piracemente, Cássio Melo, por sua vez, foi derrotado ao tentar a reeleição em 2012 e o atual prefeito, Antônio Osmar (PSDB), perdeu a reeleição em 2020. 

Outro município que faz divisa com Itaguara e que chama a atenção nestas eleições é Carmo do Cajuru. Pela primeira vez na história, o município teve candidato único, o atual prefeito, Edson Vilela (PSB), que conseguiu a reeleição com 9.427 votos. A abstenção foi de 20,41% (3.692 eleitores). Dos 79,59% que foram votar, 34,51% anularam ou votaram em branco e 65,48% escolheram o prefeito reeleito.

A sub-representação é uma grave disfuncionalidade de nossa democracia refletida em nossa região: mulheres e negros são a maioria da população brasileira, mas a minoria na política. Seguindo a tendência nacional, ainda é muito baixa a representatividade política feminina em nossa região. Registre-se que, dentre as cidades limítrofes de Itaguara, foram eleitas apenas seis vereadoras: Jaqueline, em Carmópolis de Minas, Débora, em Carmo do Cajuru, Adriana e Rose, em Itatiaiuçu, Luzia e Carol em Rio Manso. Itaguara, Crucilândia, Cláudio e Piracema não elegeram nenhuma mulher para o parlamento municipal. Nosso índice regional é abaixo de 10% de mulheres no legislativo, considerando as 74 vagas nas câmaras municipais das oito cidades. Dentre os 16 prefeitos e vices eleitos, apenas uma é mulher: Aline Bruna Greco, vice-prefeita eleita de Piracema.

Dentre os mais de 5,4 mil prefeitos eleitos, cerca de 1,7 mil se declararam pretos ou pardos, o que corresponde a 32% do total. O número é superior a 2016, quando 29% dos candidatos eleitos eram negros, ainda assim, a proporção é distante dos 56% que esse grupo representa na população brasileira. Nenhum dos oito prefeitos e vices das cidades citadas se declarou preto ou pardo e a minoria dos vereadores também se identificou dessa maneira. Há cidades da nossa região que não elegeram sequer um vereador preto ou pardo. Vale mencionar Itaguara que, se não possui nenhuma mulher no parlamento municipal, ao menos elegeu 4 vereadores pretos ou pardos.

Por fim, entremeio análises circunspectas, faz bem trazer uma curiosidade: o prefeito mais velho brasileiro é um mineiro. Aos 95 anos, José Braz (PP) comandará a prefeitura de Muriaé, na Zona da Mata, a partir de janeiro. Quando fui eleito prefeito, em 2008, um dos mais jovens do país, José Braz, naquela mesma eleição, foi reeleito prefeito de Muriaé e já figurava como um dos mais idosos do Brasil. Inclusive, ambos concedemos entrevistas para o programa MGTV, da Rede Globo, naquela oportunidade, falando sobre os desafios de administrar nossas cidades. Como vencer as eleições, o nonagenário José Braz não conta, mas o segredo da longevidade ele revela: "A idade não me pesa, graças a Deus! Tenho muita saúde, muita determinação. Bebo muito pouco, nunca fumei, como bem pouco e só como coisas boas para a saúde. Meu pai e minha mãe viveram muito, minha mãe viveu 105 anos”. 

É isso. 

* Alisson Diego Batista Moraes, advogado, bacharel em Filosofia (UFMG), MBA em Gestão de Empresas pela FGV, mestrando em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Foi prefeito de Itaguara-MG entre 2009 e 2016 e vereador entre 2005 e 2008. // Artigo publicado na edição de dezembro de 2020 no Jornal Cidades, editado em Itaguara/MG.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Reflexões necessárias: quatro anos depois

Posse como prefeito de Itaguara-MG, em janeiro de 2009,
aos 23 anos de idade. O mais jovem prefeito da esquerda brasileira
naquela ocasião e um dos 10 prefeitos mais jovens do Brasil.


Ainda hoje, algumas pessoas indagam-me sobre as razões que me fizeram desfiliar do Partido dos Trabalhadores, conjecturando se houve mágoas, dissensos ou rancores. Passados mais de quatro anos desde o meu desligamento da legenda, acredito que já é hora de falar sobre o assunto, o qual, para mim, jamais foi considerado tabu. 

Quem acompanhou de perto a minha vida pública sabe que sempre manifestei discordâncias em relação à direção nacional do Partido dos Trabalhadores que, em vez de estabelecer punições exemplares aos filiados e mandatários comprovadamente envolvidos em casos de corrupção (com a expulsão sumária nas situações mais graves), optou pelo caminho da autopreservação de seus quadros, o que gerou, gradualmente, a rejeição da ampla maioria da população brasileira e fortaleceu o moralismo verborrágico patrocinado oportunisticamente pela autoproclamada  “nova direita”. 

Com a reeleição da ex-presidenta Dilma Rousseff (a qual apoiei dedicadamente em 2014) e o agravamento da crise econômica, política e social, as contradições, antes submersas diante dos êxitos das políticas públicas e econômicas, emergiram notoriamente. O fato era que, naquele momento, em fins de 2014 e início de 2015, o Brasil estava diante de dois polos assombrosos. De um lado, veio à tona o estelionato eleitoral patrocinado por Dilma (tampando o sol com a peneira sobre a real situação econômica do país, escondendo a crise ao passo que optava por uma mambembe ortodoxia econômica). De outro lado, estava o golpismo de Aécio, que passou a conspirar contra a democracia desde o dia em que sua derrota foi selada nas urnas. 

Diante desse impasse tártaro, minha angústia chegou aos níveis mais elevados possíveis e apenas não tomei a decisão de deixar o PT logo após os primeiros descaminhos de Dilma no segundo governo, por absoluto respeito e lealdade aos companheiros e companheiras do PT de Itaguara e pela sordidez e velhacaria que compunham as forças antidilmistas. 

Rememoro ainda que, apesar de o segundo governo Dilma ter sido acentuadamente frustrante, como prefeito à época e como liderança do partido, manifestei-me abertamente contra o impeachment, uma vez que inexistia crime que o justificasse e como bem lembrara o Ciro Gomes: “Impeachment não pode ser remédio contra governo ruim”. 

Aquela seria uma boa hora de o PT fazer uma autocrítica e se dirigir ao povo brasileiro com transparência e humildade, propondo uma mudança estrutural, tanto do partido quanto do sistema político perverso que engendrou o presidencialismo de coalização nas últimas décadas (o presidencialismo de coalização foi capaz de trazer conquistas importantes para a sociedade brasileira - controle inflacionário e diminuição da desigualdade social, mas o modelo se esgotou com o loteamento de cargos, o fisiologismo reinante e a corrupção como consequência sistêmica). Dilma e o PT, entretanto, prefeririam se entrincheirar e nada de novo foi proposto. Infelizmente. 

Muitos correligionários, naquele momento e ainda hoje, advogavam a tese segundo a qual o PT teria sido apenas vítima de um consórcio nefasto da elite brasileira e que o Poder Judiciário foi o protagonista de uma união com setores políticos com o único objetivo de encarcerar Lula e perseguir o PT. Nunca concordei integralmente com essa tese e o puro vitimismo de ocasião, aliado ao messianismo lulista implodiram as minhas esperanças em vislumbrar uma reforma sistêmica do partido no qual iniciei minha militância ainda na adolescência. 

Se, por um lado, pode-se afirmar a existência, em algum grau, de lawfare (uso do sistema jurídico como parte de uma estratégia contra adversários — o que está claro com a Vaza-Jato, graças ao trabalho jornalístico investigativo do The Intercept), por outro, não se pode admitir que todos os escândalos e processos possam ser enquadrados como práticas de lawfare. Aconteceram desvios graves que ensejariam uma autocrítica sincera e um pedido de desculpas ao povo brasileiro para, a partir daí, iniciar uma reconstrução partidária com bases éticas e participativas. Bases que, no início do partido, fizeram com que intelectuais respeitados como Paulo Freire, Maria Victória Benevides, Paul Singer, Marilena Chaui, Frei Betto, Sandra Starling, Francisco de Oliveira, Francisco Weffort, Plínio de Arruda Sampaio e Florestan Fernandes estivessem ao lado de trabalhadores, membros da Igreja Católica, sindicalistas, representantes de inúmeros movimentos sociais, setores progressistas e tantos outros setores esquecidos e/ou marginalizados, para a criação de um histórico movimento de inclusão e integração da sociedade brasileira. 

Ao cenário distópico e desesperançado dos anos de 2014/2015, somou-se um fato importante: como estava encerrando o mandato como prefeito, fui aconselhado a não manter filiação partidária por um tempo, uma vez que haveria a possibilidade de que eu trabalhasse com agentes públicos dos mais variados partidos na instituição financeira à qual sou vinculado. Após deliberações com o banco, optou-se por realizarmos uma cessão funcional a um ente público. Assim, assumi, em janeiro de 2017, a direção-geral do SAAE Itaúna, uma das 20 maiores autarquias municipais de saneamento básico de Minas Gerais - como se tratava de uma função eminentemente técnica, não caberia também filiação partidária, ao menos naquele momento. 

Após a derrota da legenda em Itaguara nas eleições de 2016, fui acusado de ter “boicotado o partido” naquele processo eleitoral (o que teria incitado, inclusive, um suposto processo disciplinar). Isso não é verdade! É descabido se falar em boicote. A grande questão era que eu, enquanto prefeito reeleito, tinha uma cidade para governar num ano terrivelmente problemático e afetado pela crise econômica com quedas recordes de arrecadação municipal. Diante deste cenário, não haveria condições de me envolver satisfatoriamente no processo eleitoral e meu objetivo precípuo era encerrar bem a gestão que se iniciara em 2009. E encerramos muito bem, afinal, com mais de 80% de aprovação por parte da comunidade itaguarense, com dinheiro em caixa e a prefeitura saneada. Quanto a essas injustas acusações de “boicote”, jamais contra-ataquei. Ao contrário, ponderei, pois entendi ser algo do “calor do momento” e, de coração, relevei em nome de uma longa e bela história que selou primorosas amizades, acima de quaisquer discordâncias ou distintas visões de mundo. 

É importante dizer de maneira inequívoca que a história do Partido dos Trabalhadores em Itaguara é profícua, com relevantes serviços prestados à comunidade itaguarense. Quando se fala do PT de Itaguara (deixando de lado as questões nacionais), fala-se, majoritariamente, de gente de bem, que sempre se envolveu com as questões comunitárias por genuíno senso de responsabilidade ético-social. Assim é quando se mencionam estes nomes: Hércules, Edileno, Marcilene e família Vilaça, José Geraldo, Gislande e família, Anésio, Geraldo Manoelino (o Bal), José Antônio de Castro, Camilo Leão, Nilo e Nilo Jr, Bete, Renaldo, Dalva e família, Maria Antônia, Tácio e família, José Maurício e família, Pedro Cássio, Madalena, Maria Rita, Elton Borges, Bruno, Gegê, Sônia Gonçalves, Jesus Moura, Glauco Ramos, Donizete Moura, Totonho e José Penido (os dois últimos in memorian) e pessoas que deixaram o partido, mas que registraram as suas contribuições na construção do projeto coletivo como o professor Cassinho, o Anderson Sansão, o Pedro Ribeiro, o Oliveiros Vilela, a Fabiana, a Karla, a Ceci Maria, a Sandra Freitas, o Marcelo, o Geovanni, dentre outros valorosos quadros (peço perdão a quem me esqueci de mencionar - este artigo foi escrito num átimo de inspiração, entremeio aulas do mestrado e conferência de artigos, e, fatalmente, de alguém devo ter esquecido). 

Por fim, rememoro as lições de vida e de governança do ex-presidente uruguaio e agora ex-senador, José “Pepe” Mujica, que acaba de se retirar da vida pública, após décadas de trabalho coletivo. Aos políticos brasileiros, sobretudo aos “lá de cima”, têm faltado a grandeza, a sabedoria e a humildade de Mujica, que passou de combatente tupamaro a um dos maiores estadistas de nosso tempo, referência democrática e líder da nação uruguaia na construção de um estado de bem-estar social, sem abrir mão da conciliação nacional. 

Pepe, mesmo quando era o líder de sua nação, jamais cedeu ao espírito perdulário, à ganância e às fatuidades do poder. Sempre viveu na simplicidade de sua gente, nunca se apegou às benesses da vida pública e fez de sua existência o retrato fiel de suas convicções. Sorte dos uruguaios. Mujica deixa um legado imensurável na política! Em sua última manifestação no Senado uruguaio, ele disse: “No meu jardim, há décadas não cultivo o ódio. Aprendi uma dura lição que a vida me impôs. O ódio acaba deixando as pessoas estúpidas. Passei por tudo nessa vida, fiquei seis meses atado por um arame, com as mãos nas costas, fiquei dois anos sem ser levado para tomar banho e tive que me banhar com um copo. Já passei por tudo, mas não tenho ódio de ninguém e quero dizer aos jovens que triunfar na vida não é ganhar, mas sim se levantar toda vez que cair.” Que aprendamos a nos levantar, sempre! E que miremos no exemplo pacificador e solidário de Pepe.


* Alisson Diego Batista Moraes.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

As árvores e a vida na Terra

Parque Estadual Nova Baden, Lambari-MG, 2019.

No dia 21 de setembro, comemorou-se o Dia da Árvore em todo o território nacional - data instituída oficialmente na década de 60 em nosso ordenamento jurídico, com o precípuo objetivo de conscientizar a população da importância da preservação das árvores, e o seu papel essencial para a vida no planeta Terra. Esta data foi escolhida para coincidir justamente com a chegada da primavera em nosso hemisfério Sul. A estação das águas, das árvores e da vida.

As árvores estão conectadas com todas as formas de vida na Terra e a sua existência, pode-se dizer, é um dos garantes da nossa existência, bem como a de todos os seres vivos. Isso é algo tão elementar quanto urgente de ser dito: sem as árvores não existiríamos!

Dada a sua essencialidade, as árvores são consideradas o maior símbolo da natureza. Graças a elas, temos o oxigênio, o aumento da umidade e consequente qualidade do ar, a diminuição das erosões e a redução da temperatura. Sem árvores não há água! São as bacias florestais e as zonas úmidas florestais que fornecem 75% da água doce acessível do mundo.

As árvores também são lares para diversas espécies de animais. Dentre os animais arborícolas mais conhecidos, destaque para o bicho preguiça, animal típico das florestas tropicais das Américas Central e do Sul. O preguiça é um amante das árvores Cecropia, que dão os frutos conhecidos como embaúbas, existentes em nossa região.

Além de lares para os animais, desde o início dos tempos em que os homo sapiens habitam sob à Terra, eles se servem das árvores seja para o alimento, seja para proteção e conforto. Mais contemporaneamente, a comunicação escrita também só foi possível graças às árvores: a celulose extraída dos eucaliptos é utilizada para a produção de papel.

Na indústria farmacêutica, as árvores nos forneceram milhares de medicamentos e várias espécies possuem propriedades médicas desconhecidas e podem ser usadas na fabricação de toda sorte de medicamentos. As árvores provavelmente guardam a cura de muitos males que assolam a humanidade.

Apesar de todas as benevolências que nos são ofertadas pela Mãe Natureza por meio das árvores, será que temos as tratado bem? Você que me lê e eu que escrevo sabemos que não. Enquanto você lê este breve artigo, árvores estão em chamas e sendo covardemente cortadas em várias partes do Brasil.

O Pantanal este ano está vivenciando um dos piores senão o pior incêndio de sua história. De acordo com o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), de janeiro até a segunda quinzena de setembro, o Pantanal teve mais de 2,9 milhões de hectares atingidos pelo fogo. As queimadas estão se alastrando com facilidade e há diversos animais carbonizados ou severamente machucados pela chama e árvores totalmente destruídas. São milhões e milhões de vidas perdidas.

O ecossistema de um dos mais importantes biomas do mundo está neste momento em franca devastação. Isso nos afeta a todos os seres humanos e impacta diretamente a vida na Terra. As consequências dessas queimadas já atingiram outras cidades do país. Ou você acha que é por mero acaso que estamos vivendo em 2020 uma das maiores ondas de calor da história? Belo Horizonte registrou nos últimos dias quase 40°C, a maior temperatura da série histórica. O mesmo ocorreu com Cuiabá e Campo Grande.

Mudanças climáticas podem e precisam ser evitadas se quisermos a manutenção da vida no planeta. Para isso, cuidar das árvores é uma obrigação moral da espécie humana.

Se cada um de nós fizermos a nossa parte, a gente consegue melhorar um pouco o nosso ecossistema social e, por consequência, legar um mundo um pouco melhor, mais arborizado e menos caótico para as próximas gerações.

Por fim, vale lembrar que plantar árvores, denunciar as queimadas ilegais e não jogar lixo na rua são ações consideradas muito simples, mas que são capazes de impactar na preservação do local onde vivemos, melhorando a vida de todos os seres que habitam a “Casa Comum” - que é como o Papa Francisco se refere carinhosa e evangelicamente ao nosso planeta. Se a Casa é Comum, cuidemos todos !

Aproveito o ensejo para parabenizar o sublime amigo Camilo Joaquim de Oliveira Rezende, o nosso estimado Professor Camilo Leão, um pioneiro e visionário na preservação ambiental em Itaguara. Precisamos de mais Camilos se quisermos uma cidade melhor, um planeta habitável é um futuro possível.

E não se esqueça do primeiro mandamento da existência planetária: sem árvores, a vida não prospera!


Alisson Diego Batista Moraes, advogado, escritor, bacharel em Filosofia, MBA em Gestão Empresarial, mestrando em Ciências Sociais. Foi prefeito de Itaguara entre 2009 e 2016 e atualmente é secretário estadual de mobilização do Partido Verde de Minas Gerais. Em 2019, lançou o livro “Parques de Minas, Olhares Gerais”, cujo download gratuito pode ser feito neste link: www.nossaminas.com.br/ebook

** Artigo publicado originalmente no Jornal Cidades, editado em Itaguara-MG, em outubro de 2020.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

135 anos do nascimento de Arthur Vilaça: Um grande benemérito de Minas Gerais


Há 135 anos nascia um dos grandes ícones de nossa história regional. Nosso papel é relembrar todos aqueles que ajudaram na construção das nossas sociedades, afinal sabemos que somos frutos de uma rede de momentos históricos e herdeiros da história.

A história de Itaguara, Crucilândia e Itaúna são muito próximas - disso já sabemos. Mas algumas personagens digamos emblemáticas, aproximaram ainda  mais as nossas histórias. As três cidades beneficiaram-se da trajetória de Artur Vilaça e se orgulham de sua profícua existência. A seguir, compartilhamos texto de autoria do saudoso amigo e intelectual itaunense Guaracy de Castro Nogueira:

Prefeito itaunense e grande benemérito

Conhecido como Coronel Arthur Contagem Vilaça. Não o considero “coronel” segundo a antiga versão política, pois foi um inovador. Nesta biografia, pretendo dar-lhe o verdadeiro reconhecimento, já que temos uma perspectiva histórica para julgá-lo, longe das paixões políticas e daqueles que teceram comentários sobre sua presença marcante em nossa cidade. Quero de início, relatar um episódio raro de sua conduta, como líder autêntico.

Desde 1922, o Brasil vinha sendo sacudido por um verdadeiro frenesi revolucionário. Em Minas, Antônio Carlos estabeleceu o voto secreto, fundou a Universidade e liderou um grande movimento de renovação. Em Itaúna, os políticos tradicionais apoiavam o presidente Washington Luiz, saudado na convenção que o elegeu pelo brilhante deputado federal por Minas, o itaunense Dr. Mário Matos. A política do coronelismo oficial, em 1929, já havia escolhido, como candidato e futuro presidente, Júlio Prestes, que vinha fazendo boa administração em São Paulo, apoiado pelos governadores de 17 Estados. Antônio Carlos articulou a candidatura de Getúlio Vargas, tendo como seu companheiro de chapa João Pessoa, presidente da Paraíba. Surgiu a Aliança Liberal com o triângulo Minas, Rio Grande e Paraíba, para enfrentar o governo federal e os outros estados. Como de costume, os coronéis fraudaram a eleição em favor do candidato oficial. Aconteceu a Revolução de 1930. Em Belo Horizonte o 12.º R.I., depois de vários dias de luta, rendeu-se à Polícia Mineira.

Em Itaúna, Arthur Vilaça ficou ao lado das forças revolucionárias, organizou com jovens políticos locais, ente eles o Dr. Lima Coutinho, Juca Santos e Dr. Hely Nogueira, um pelotão para combater as forças tradicionais da República Velha. Minas colocou-se de pé. Surgiram a “Coluna Libertadora”, os Batalhões “Antônio Carlos”, “Olegário Maciel”, “Raul Soares”, “Mario Brant” e “Artur Bernardes”. Vilaça hipotecou apoio a Getúlio Vargas e como ato significativo denominou nossa praça principal de João Pessoa, assassinado em Recife. Em 24 de outubro Washington Luiz foi deposto e a 3 de outubro empossado Getúlio Vargas. Foi o fim do regime instituído em 1891. Registre-se que Artur Vilaça, anteriormente, foi vereador no período de 1.º de maio de 1912 a 1.º de janeiro de 1916 e, depois, Presidente da Câmara e Agente Executivo para o mandato que se iniciou em 17 de maio de 1927, com apoio das forças tradicionais do Partido Republicano Mineiro (nos municípios os nomes dos partidos tinham coloração local), praticamente único partido oficial, que dominava a política itaunense desde os tempos do Dr. Augusto Gonçalves de Souza Moreira. Nessa legislatura, os demais vereadores do município eram Dr. Mário Matos, Dr. Dario, Dr. Lincoln e Zezé Lima e havia mais quatro vereadores dos distritos.

Com a vitória da Revolução, Olegário Maciel continuou no governo do Estado e nomeou Artur Vilaça como o primeiro Prefeito Municipal com este título. Continuou administrando o município com isenção, dignidade e operosidade, sem usar dos poderes que tinha nesse período revolucionário, respeitando os direitos inalienáveis de cada cidadão. Os que perderam seu mandato se sentiram traídos; este acontecimento foi um divisor de águas na política local. Vilaça exerceu o mandato por 9 anos, 6 meses e 11 dias; permaneceu no cargo até 28 de janeiro de 1936, quando foi exonerado, a seu pedido, pelo Governador Benedicto Valadares. Getúlio que prometera reconstitucionalizar o país em 1936, implantou o Estado Novo em 1937, governando como ditador. Artur Vilaça, amigo dos antigos membros da Aliança Liberal, os que se tornaram signatários do famoso “Manifesto dos Mineiros”, entre eles Pedro Aleixo, Jonas Barcelos Corrêa, Bueno Brandão, Mário Brant e tantos outros, entrou no partido de oposição, UDN, que provocou a queda do regime e deu uma Constituição Democrática ao País, em 1946.

Artur Vilaça nasceu em Dom Silvério, hoje Crucilândia, na época pertencente a Bonfim, em 20 de agosto de 1885, filho de Henrique Ferreira Vilaça e Francisca Álvares de Abreu e Silva. Estudou no Colégio Dom Bosco, de Cachoeira do Campo e no Colégio Azevedo, de Sabará. Diplomou-se em farmácia pela tradicional Faculdade de Farmácia de Ouro Preto, em 5 de dezembro de 1903. Era descendente da famosa Joaquina de Pompéu, tronco de ilustres personalidades mineiras, sua trisavó. Faleceu em Itaúna, terra que muito amou, em 18 de maio de 1955.

Casou-se, em 30 de maio de 1906, em Itaguara com Maria das Dores de Oliveira Campos, a Dona Dorica. Ao final de suas vidas se tornariam grandes beneméritos em Itaúna e em Itaguara, terra natal de Dorica. No mesmo ano de seu casamento, Vilaça transferiu-se para Itaúna, estabelecendo-se com uma farmácia que dirigiu por mais de vinte anos.

Como Prefeito, Vilaça embasou seus mandatos no trinômio: comunicação, saúde e educação. Concluiu o importante serviço de abastecimento de água potável e a rede de esgotos, iniciados na administração anterior. Introduziu melhoramentos nos serviços telefônicos, bem como investiu na melhoria do aspecto urbano da cidade, com a construção dos jardins do antigo Largo da Matriz, em conformidade com projeto técnico do alemão Steinmetz, inaugurados em outubro de 1929. A conservação e a construção de estradas vicinais, ligando a sede aos povoados do município, mereceram sua especial atenção. Ampliou e reformou escolas.

Em sua administração, em 1928, inaugurou-se a primeira agência bancária em Itaúna, do antigo Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais, vendido ao Nacional. Foi um dos fundadores do Banco Industrial de Minas Gerais, depois vendido ao Banco Mercantil. Instalou uma agência de seu Banco em Itaúna e deu a Crucilândia sua primeira agência bancária.

Foi o Presidente da Sociedade Anônima que construiu o prédio da Escola Normal. Em 1930, graças aos esforços de sua administração, com o apoio do deputado federal Mário Matos, conseguiu sua oficialização. O deputado foi cassado pela Revolução e seu mandato estenderia até 1932. Como Arthur Vilaça apoiou Getúlio, Mário Matos jamais o perdoou, o que motivou a desoficialização da Escola Normal em 1938. “Valadares tinha no seu governo, na Diretoria da Imprensa Oficial do Estado, justamente Mário Matos que, automaticamente, começou a comandar politicamente o Município de Itaúna, bem como a exercer expressiva influência sobre a estratégia governamental praticada por Benedicto Valadares”.

Arthur e Dorica não tiveram filhos, mas dedicaram todo seu afeto à família, amparando sobrinhos e parentes. Criou em sua casa a sobrinha Zoé Vilaça Lara, que se casou com Severino de Paula Lara, de cujo enlace nasceu dois filhos: Artur Lúcio e Magda Lúcia. Artur Lúcio Lara, nascido em 1945, casou-se com sua conterrânea Idalina Dornas Diniz Lara, de tradicional família itaunense. Tiveram duas filhas: Tatiana e Larissa, residentes em Bocaiúva. Tatiana casada com Cláudio Antônio Caldeira Meira são os pais de Ana Cláudia e Artur. Idalina ficou viúva em decorrência do trágico acidente de automóvel que vitimou seu marido, ainda jovem, em 1976.

Magda Lúcia Lara Rocha, nascida em Itaúna sob o teto de Arthur Vilaça, em 1943, casou-se com Antônio de Oliveira Rocha Filho. Reside em Brasília, onde é extremamente requisitada pelos seus extraordinários dotes musicais. De seu casamento nasceram três filhos: Carmem Lúcia (falecida); João Paulo Lara Rocha, nascido e residente em Brasília, é analista de sistemas; Arthur Fernando Lara Rocha, itaunense de nascimento, casado com Raquel Montenegro de Oliveira Lara Rocha, residentes em Goiás. Ele é Piloto de Caça, Major-Aviador em Anápolis, onde pilota os velocíssimos “Mirage”; pais do neto de Magda Lúcia Lara Rocha: Arthur Fernando Lara Rocha Filho.

Desde quando chegara a Itaúna, o padre José Ferreira Neto queria instituir uma entidade para o ensino de meninos carentes, a Granja Escola São José. Pediu terras a três prósperos fazendeiros: José de Cerqueira Lima, Astolfo Dornas e Arthur Contagem Vilaça. Somente este anuiu ao seu pedido, disponibilizando-lhe dois alqueires. Mas o padre precisava de cinco e o sonho foi temporariamente adiado.

Antes de falecer, Arthur Vilaça solicitou à esposa, Dorica, que honrasse o seu compromisso com o Pe. José Neto. A generosa viúva, espelhada no exemplo de vida do esposo, foi mais além: doou 13 alqueires de seu melhor terreno e parte de sua fortuna, tornando-se instituidora da Fundação Granja Escola São José. Do gesto inicial de Arthur Vilaça sobrevive hoje a Granja Escola São José, instituição modelar, que acolhe dezenas de jovens estudantes tirados da rua, transformados em homens livres, plenos de cidadania, os líderes de amanhã, na Itaúna de nossos sonhos!

REFERÊNCIAS:Texto: Guaracy de Castro Nogueira (In memoriam)
Pesquisa: Charles Aquino, Patrícia Gonçalves Nogueira.
Organização: Charles Aquino
Acervo: Instituto Cultural Maria Castro Nogueira
Fotografia: Adilson Nogueira

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Universidades Públicas e Humanidades Sob Ataque

 Compartilho artigo escrito para o Jornal Cidades, publicado em agosto de 2020


Universidades Públicas e Humanidades Sob Ataque 


Alisson Diego * 


Outro dia recebi, em um respeitável grupo de Whatsapp, um vídeo produzido pela empresa Brasil Paralelo, uma produtora de extrema-direita conhecida por espalhar fake news e ligada ao estarrecedor “gabinete do ódio bolsonarista”. O filme visava grosseiramente a ridicularizar, ofender e atacar levianamente as universidades públicas brasileiras. Dentre outras insensatezes, o malicioso  vídeo diz que o Brasil não possui importância no contexto universitário global e coloca as universidades brasileiras como sendo de qualidade duvidosa. 

Como disse, o grupo de Whatsapp em questão é composto por pessoas idôneas e, até que se prove o contrário, honestas e trabalhadoras. Quando recebo conteúdos tão maliciosos oriundos de “pessoas de bem”, forço-me à indagação: o que leva pessoas assim a compartilharem esse tipo de publicação distanciada da racionalidade? 

A pergunta acima é tão somente retórica. Não ouso respondê-la porque demandaria tempo e espaço em demasia, mas, apesar de todos os problemas, percalços e riscos que a manifestação de opinião envolve, não posso deixar de ser assertivo neste momento para asseverar: cuidado, você que compartilha vídeos ofendendo as universidades públicas, está sendo manipulado. 

Uma coisa é se discutir as concessões de bolsas da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), o financiamento estudantil e o próprio papel das universidades públicas na sociedade brasileira contemporânea e outra coisa completamente diferente é o ataque puro, simplório e genérico às universidades públicas. O real objetivo desses ofensores consiste na privatização do ensino superior brasileiro e não em buscar melhorias para o ensino público. 

Uma das principais perguntas que devemos nos fazer quando recebemos qualquer conteúdo pelas redes é: de quem é a autoria? Se não tiver autor definido já é forte o indício de manipulação ofensiva, caluniosa, injuriosa e difamatória, ou pura e simples fake news, como queiram nominar. Entretanto, no caso examinado, há autoria definida: o Brasil Paralelo, que surgiu em 2016 e se notabilizou por produzir dezenas de vídeos alinhados ao extremo conservadorismo, responsável, inclusive, pela disseminação de mensagens falsas sobre fraudes nas urnas eletrônicas nas eleições presidenciais de 2018, desmentidas incisivamente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e verificadas pelo “Fato ou Fake” e outras iniciativas de checagem e validação de informações disseminadas no submundo das redes. 

De volta à temática do vídeo, digo de antemão que acho de bom tom colocarmos em pauta sempre a questão das universidades públicas e o seu papel no desenvolvimento do estado brasileiro. Ressalto que posso discorrer confortavelmente sobre este assunto, desprovido de quaisquer vieses partidários ou interesses pessoais. Jamais recebi um centavo de bolsa da Capes mesmo estudando por 7 anos em duas universidades públicas (UFMG e UFSJ), fui aprovado em processos seletivos sem qualquer cota e também obtive notas muito acima dos 600 pontos no Enem – outro aspecto questionado pelo vídeo é que nos cursos de ciências humanas são aprovados candidatos com pontuações abaixo dos 600 pontos. Ainda que eu tivesse sido bolsista em alguma universidade pública ou tivesse sido aprovado pelo sistema de cotas ou mesmo houvesse obtido menos de 600 pontos, nada disso invalidaria quaisquer de meus argumentos apresentados neste texto, mas nunca é demais ressaltar essa minha condição de absoluta imparcialidade argumentativa porque muitos tentam desconstruir argumentos com esses falaciosos ataques que acabam por confundir muita gente ingênua. 

Pois bem, de onde vêm então os ataques às universidades públicas? Essa é uma questão-chave para se compreender melhor a questão central deste texto (veja que há uma diferenciação enorme entre críticas aceitáveis e construtivas de ataques levianos e grosseiros). O Brasil Paralelo é apenas um instrumento de ofensores maiores. Via de regra, aqueles que atacam as universidades públicas são os mesmos que atacam as cotas raciais e de renda, e que no fundo não querem mesmo é ver negros e pobres ascendendo social, cultural e economicamente . Portanto, estamos diante de mais um problema tipicamente brasileiro: as velhas desigualdades sociais, o racismo e o preconceito disseminados frente as oligarquias e o seu arraigado pensamento patrimonialista e exclusivista diante do estado. “Se o governo não serve aos meus interesses, o governo não serve”, grosso modo, é assim que pensam. 

Especificamente, sobre as universidades brasileiras, é inequívoco dizer que elas precisam de amplas melhorias e reformas, sobretudo em sua infraestrutura, justamente neste momento histórico em que está em curso um claríssimo projeto de sucateamento das universidades estatais, capitaneado por pessoas que enxergam a educação como uma simples mercadoria, ignorando o papel central que devem ter no desenvolvimento nacional. 

Sobre a qualidade do ensino superior público, importante abordar os rankings universitários mundiais, mencionados no dito vídeo. Em primeiro lugar, é preciso ser dito que há dezenas deles; ao escolher um como parâmetro, deve-se conhecer pormenorizadamente os seus critérios. Tomemos como exemplo o índice avaliativo da Times Higher Education (THE), divulgado há poucas semanas. Segundo THE; entre as 20 melhores universidades da América Latina, 13 são brasileiras, com a Universidade de São Paulo (USP) em segundo lugar e a Universidade de Campinas (Unicamp) em terceiro, seguidas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O ranking avalia aspectos como pesquisa, ensino e transferência de conhecimento. O Brasil é o país com o maior número de instituições que atingiram o critério para serem avaliadas no ranking regional, com 66 no total, seguido por Chile (30) e Colômbia (23). 

Ainda sobre rankings, vale mencionar dois deles que levam em conta a relação “universidade e sustentabilidade”. Há pelo menos dois ranqueamentos internacionais que testam o comprometimento das academias nesta temática. A Universidade de São Paulo aparece no top 20 das duas listas, Impact Ranking e Green Metric. No primeiro ranking, a USP é a 14ª melhor do planeta. No segundo, está na 18ª colocação. As duas classificações obedecem a critérios diferentes. O Impact Ranking utiliza os 17 ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), estabelecidos pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2015. Com base neles, observa-se: pesquisa, divulgação e governança. Além da USP, outras instituições brasileiras estão presentes no top 100 da lista. A Universidade Federal de Lavras (MG) está na 29ª posição, a Universidade Positivo (PR) ficou no 73º lugar, e a Unicamp (SP) se classificou na 80ª colocação. Já no Impact Ranking, a outra representante do Brasil entre os 100 melhores é a Universidade Estadual de Londrina (PR). Todas públicas neste ranking com exceção da Universidade Positivo. 

Este debate público é iluminado pela Constituição da República. Destaca nosso texto constitucional que o ensino superior deve promover o desenvolvimento humanístico, científico e tecnológico do país (art. 214, V, da CF/88), dentre outros objetivos. Dispõe ainda a nossa Carta Magna a respeito da garantia de ingresso no ensino superior de estudantes de classes sociais menos favorecidas, dando a eles o direito de continuarem os seus estudos, atingindo os níveis mais elevados do ensino. Importa dizer que a educação superior não visa apenas ao preparo do indivíduo para o mercado de trabalho, mas promover o pensamento reflexivo, valorizar a responsabilidade social, a cultura e os valores humanísticos, além de estimular a produção do novo conhecimento. Quando isso não ocorre, a nação fica engolfada na lógica subdesenvolvimentista. Em razão disso, torna-se elementar que o Estado garanta às pessoas as condições de ingressarem no ensino superior. 

Conforme se vê, o debate é muito mais amplo do que parece e está obnubilado por questões nada republicanas e democráticas. Convém mencionar também que considero necessária uma reforma universitária que preveja a cobrança de mensalidades para estudantes abastados. A meu ver, nada mais justo – desde que os recursos sejam revertidos para a melhoria das próprias universidades públicas. Todavia, pode-se afirmar: o interesse desses senhores que atacam as universidades estatais não é e nunca foi a melhoria do ensino público, mas tão somente a mercantilização completa da educação e a financeirização e produtivização da vida. 

Não posso deixar de observar que é curioso que os ataques às universidades públicas venham, quase sempre, acompanhados de ríspidas ofensas aos cursos da área de humanas. Isso não se dá por mero acaso (ou por mera posição corrompida de um utilitarismo de ocasião), uma vez que são as humanidades que questionam a ordem vigente. Qual o papel da filosofia, da sociologia e das humanidades de forma geral? Qual o papel dos pensadores? Em síntese, consiste em transpor as limitações do pensar por meio da reflexão crítica acerca do ser humano, do mundo e da sociedade, valendo-se de métodos e análises filosóficos, sociológicos, antropológicos etc. Eles (os donos do poder e a elite brasileira) odeiam a crítica e não suportam questionamentos, sejam eles quais forem. Eles não toleram a diversidade e a existência de qualquer pensamento crítico. E é justamente o pensar crítico a razão mesma de ser da filosofia, da sociologia e das humanidades. Afinal de contas, de que vale a vida sem a reflexão, como se fôssemos robôs ou seres inanimados? 

Nunca é demais lembrar Sócrates que, pouco depois da decretação de sua sentença de morte, disse uma das frases mais célebres da história da filosofia e da humanidade – que é ao mesmo tempo uma admoestação e uma exortação: "a vida sem reflexão não vale a pena ser vivida”. 

Não vale mesmo. 


Alisson Diego Batista Moraes, advogado, bacharel em Filosofia pela UFMG, MBA em Gestão de Empresas pela FGV e mestrando em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Foi prefeito de Itaguara entre 2009 e 2016.


quinta-feira, 25 de junho de 2020

Quem eles pensam que são?

Compartilho artigo escrito para o Jornal Cidades, publicado em junho de 2020:

Quem eles pensam que são? * 

Devo confessar que não me apraz utilizar esta coluna novamente para abordar a pandemia e/ou as ações (e omissões) do governo federal. Isso porque o fiz em abril e é sofrível escrever sobre assuntos incômodos. Na última coluna, poeticamente, homenageei a nossa valorosa Biblioteca Pública Guimarães Rosa por ocasião das bodas de ouro – como é agradável falar de cultura, educação, história e lembranças. Não queria mesmo retornar a assuntos áridos, mas ao colunista engajado não é permitido se omitir e, como governança e pandemia são os debates públicos mais importantes do Brasil no momento (e o jornal cumpre esse importante papel de elucidar fatos), vejo-me no dever inafastável de abordar, uma vez mais, a temática.

Em 30 de março, quando escrevi o meu último texto sobre esta mesma temática para este jornal, o Brasil contabilizava 4.579 casos confirmados e 159 mortes e a nossa região não contabilizava nenhum registro. Hoje, dia 25 de junho, somamos mais de 1.2 milhões de infectados e mais de 55 mil vidas ceifadas. E a nossa região possui casos de covid-19 em todos os municípios (inclusive com óbitos sendo investigados). De quebra, a nação brasileira, de acordo com vários especialistas, pode tornar-se, em alguns dias, o novo epicentro da pandemia. O que houve de lá para cá?

Antes de responder à questão devo ressaltar que não possuo vícios de partidarismo ou qualquer tipo de passionalidade política. Entretanto, também posso dizer que não sofro de miopia sociopolítica (basta-me a real, aquela que acomete as minhas córneas). Como brasileiro que ama esse país e estuda as questões brasileiras desde sempre, torci (não sem justificada desconfiança, mas torci) para que o governo federal desse certo e ao menos fosse pujante e nacionalista – conseguindo impulsionar a economia, combatendo a criminalidade e gerando emprego e renda para os brasileiros. Se não fosse capaz de combater as desigualdades, melhorar nossa educação, cuidar da saúde, robustecer nossa frágil infraestrutura, ao menos que pudesse, então, por meio de um crescimento econômico baseado na confiança do mercado, criar oportunidades de trabalho para tantos pais e mães de família necessitados. Mas, infelizmente, até agora, nem a mais baixa das expectativas se cumpriu. E o pior: surge uma pandemia que escancara a falta de comando no executivo federal. Na verdade, é pior do que uma pura e simples falta de comando, é um comando atroz, abjeto, tosco e nauseante.

Não faço coro com aqueles que dizem que fascistas elegeram Bolsonaro. O Brasil não possui 58 milhões de fascistas e/ou pessoas com pensamento autoritário. O Brasil é um país generoso, cuja população, majoritariamente, ainda acredita, de forma ingênua e pueril, em políticos milagreiros, que fazem o estilo “sincerão” (não foi por acaso que a novela “O Salvador da Pátria” fez tanto sucesso entre nós no final dos anos 80). A grande maioria de nossos compatriotas, insatisfeita com a corrupção, temática exacerbadamente explorada pela mídia, decidiu dar uma guinada radical e eleger um candidato que prometia: “Mais Brasil e Menos Brasília”, além de acabar com a corrupção e “limpar o país”.

Hoje, caminhando para dois anos de sua posse, Bolsonaro pode ser descrito como alguém que mentiu levianamente para o povo brasileiro (não por acaso quase 70% rejeitam-no). Não bastasse o imoral acordo com o famigerado Centrão (bloco de partidos políticos fisiológicos e que possui vários de seus membros acusados de corrupção), não bastassem as gravíssimas investigações acerca de seus filhos (mais notadamente o senador Flávio), não bastassem os inquéritos das fake news e dos atos antidemocráticos, não bastassem as investidas criminosas contra o meio ambiente, o ex-capitão revela-se “o pior líder planetário no combate à pandemia”. Essa expressão não é minha, está, por isso, aspeada – é do jornal americano Washington Post – e não me venha dizer que esse veículo seja de esquerda. Aliás, “esquerda e direita” tornaram-se o verdadeiro "samba do crioulo doido" no dicionário circense adotado pelo governo e seus asseclas. Ferem a história e matam as ciências humanas ao tratar desse binarismo com tacanhez jamais vista na história política desse país. Isso para não mencionar verbetes como “comunista”, “socialista” e congêneres. A palavra descontextualizada pouco importa para eles, o que vale é a acusação, quanto mais vazia e/ou torpe melhor.

Não é sem motivo que o Brasil é a segunda nação do planeta em número de mortes por coronavírus. Ainda restam dúvidas de que não temos comando ou possuímos um comando mambembe? Alguns dos erros (ou seriam crimes?) cometidos pelo presidente são tão nítidos que ele foi denunciado, recentemente, ao Tribunal Penal Internacional de Haia. Vamos a uma breve retrospectiva macabra:

1. Em 10 de março, quando estava em viagem oficial pelos Estados Unidos, Bolsonaro afirmou que a crise era “fantasia” e que “não é isso tudo que a grande mídia propaga ou propala”. Um dia depois, a Organização Mundial da Saúde declarou pandemia;
2. Mesmo com orientação expressa do Ministério da Saúde, Bolsonaro participou de manifestação com apoiadores em diversas ocasiões e mostrou-se contrário ao isolamento. 3. Não bastasse isso, o presidente troca de ministros 3 vezes durante a maior pandemia da história brasileira: Mandetta, Teich e Pazuello;
3. Mas o pior de tudo mesmo foi o desrespeito às vítimas – no dia 20 de abril, quando questionado sobre o número de vítimas, o presidente respondeu a jornalistas que não era coveiro. Oito dias após, quando o país registrava 5.050 óbitos, disse: “Sou Messias, mas não faço milagres”. Em 9 de maio, Bolsonaro chegou a marcar um churrasco, que depois disse ser “fake”;
4. Ainda em março, Bolsonaro afirmou que a quantidade de óbitos por Covid-19 em 2020 não alcançaria a quantidade de mortes por H1N1 em 2019 (foram 796). Em maio, o presidente teve uma publicação no Instagram marcada como falsa, ao comparar os números de mortes de doenças respiratórias de 2019 e 2020.

Como diz um amigo de longa data, pastor presbiteriano, inspirando-se na sabedoria bíblica: “as palavras convencem, mas o exemplo arrasta!”. Não tivemos exemplos e comando por parte do executivo federal. Tivemos, ao contrário, anti-exemplos.

O Brasil poderia ter feito um lockdown sério, criado linhas de financiamento subsidiado para médias e pequenas empresas (além de linhas específicas para as grandes corporações), e saído dessa situação há muito tempo, a exemplo do que fez a Nova Zelândia. Não precisaríamos impor tantos sacrifícios à nossa população e às nossas empresas, mas tudo isso ocorre porque não temos comando. O governo queria aprovar um auxílio emergencial vergonhoso de apenas 200 reais! O Congresso emendou, impôs um valor maior e, ainda assim, foram meses até acontecerem os primeiros pagamentos.

Os militares conscientes já abandonaram ou estão a abandonar o governo (outros ainda estão em cargos chave porque ainda acreditam que podem “controlar o presidente” e pensam que deixar o governo neste momento poderia ser ainda pior) e sabem que defender abertamente Bolsonaro custaria muito caro às Forças Armadas. O presidente e seu parvo governo têm desgastado fortemente a imagem das instituições que tenta manter sob seu radar de influência. Sobre isso, sugiro ler a recente  pesquisa: “A cara da democracia no Brasil: Edição 2020”. São números impressionantes colhidos pelo INCT (Instituto da Democracia e de Democratização da Comunicação), coordenado pelo brilhante cientista político e professor Leonardo Avritzer da UFMG.

Recordo-me, por fim, da música "3ª do Plural" do Engenheiros do Hawaii, que indaga no refrão: “Quem são eles? Quem eles pensam que são?”. Ouso responder à canção em nosso contexto: eles se acham donos do poder, acham-se melhores por serem rudes, acham-se ungidos e manipulam a fé do povo, acham-se arautos do atraso e ditadores da moral, do civismo e dos bons costumes, esquecendo-se de que não há espaço mais para a autocracia, moralismos baratos e imposições retrógradas. Eles, no fundo, apostam na ignorância do povo brasileiro. Estão errados! O povo brasileiro pode até ser ingênuo, mas não é ignorante e, mais dia, menos dia, vai se levantar contra a tacanhez e a patranha.

*Alisson Diego Batista Moraes, 35, advogado, bacharel em Filosofia pela UFMG, MBA em Gestão de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas. Foi prefeito de Itaguara entre 2009 e 2016. Atualmente, é membro da Executiva do Partido Verde do Estado de Minas Gerais. www.alissondiego.com.br

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Biblioteca Pública Municipal Guimarães Rosa: 50 anos construindo aprendizados

Recebo uma incumbência da curadoria de nossa Biblioteca Pública Guimarães Rosa em Itaguara: escrever um texto em comemoração aos 50 anos de existência deste nobre espaço cultural. Ei-lo:

Quando penso em nossa Biblioteca, recordo, dentre outras ternas lembranças, dos ensaios que lá fizemos com o Grupo de Teatro Vidas em Artes. Eu era um guri de apenas 16 anos de idade e a Biblioteca representava o espaço mágico da leitura e da representação. Era como se os livros ganhassem vida plena em nossas interpretações teatrais. Aprendi, desde aquela época, que uma biblioteca é muito mais do que um mero espaço onde se guardam e se emprestam livros. É, em essência, um ambiente de generoso convívio sociocultural.

Bibliotecas são lugares onde as ideias não aceitam grilhões. São espaços do tríplice diálogo: com o livro, com nós mesmos e com o outro. São redutos dos pensamentos, das reflexões, das pesquisas, das transformações do sujeito. Uma biblioteca é, em essência, o ambiente da autonomia do raciocínio e da aprendizagem em sua multiplicidade de significados.

Percebo uma biblioteca como um voo da imaginação humana pelos infinitos céus do conhecimento - e como não há biblioteca sem educação, ao celebrar os 50 anos de nossa célebre Biblioteca Pública Guimarães Rosa, que jamais nos esqueçamos da necessidade de uma educação pública cada vez mais emancipadora. Lutar por isso é um dever que nos cabe a todos.

Às vezes, alguns futurólogos proclamam o fim dos livros físicos e a supremacia dos livros digitais, o que poderia significar o fim de bibliotecas e livrarias. Estou convicto de que isso não ocorrerá, mas ainda que aconteça, jamais significará o fim das bibliotecas, dentre outras razões, porque uma biblioteca nunca foi e nunca será um mero depósito de letras encadernadas. A Biblioteca representa, ao lado das escolas e de nosso museu, um templo vivo de convivência, de memória, de cultura, de educação e de nossa incessante formação ao longo de toda a existência. Neste sentido, ensinou-nos Paulo Freire: “não é possível ser gente senão por meio de práticas educativas. Esse processo de formação perdura ao longo da vida toda, o homem não para de educar-se, sua formação é permanente e se funda na dialética entre teoria e prática”.

Em tempos nos quais se celebram a ignorância e a tosquice, a Biblioteca é um valoroso símbolo de nobre resistência ao proclamar o amor ao conhecimento, à literatura e à humanidade. Não vamos ser derrotados pela ignorância. Não! Não aceitamos isso porque temos em nosso sangue a resiliência dos cataguás e a força de nosso padrinho que nomeia o espaço: João Guimarães Rosa, o imortal mestre da metafísica do sertão.

Por falar no Rosa, dentre as milhares de geniais frases dele que podem ser citadas nesta ocasião jubilosa, fico com uma quase clichê, mas singularmente elucidativa: “O homem nasceu para aprender, aprender tanto quanto a vida lhe permita”. Onde há vida, há cultura, formação e aprendizado. Onde houver uma biblioteca, haverá esperança na humanidade!

Pensando em leitura e educação como pontes para a libertação da humanidade, lembro-me de uma canção do Zé Geraldo (Voar, Voar). Numa das estrofes, diz o poeta mineiro:

“Descobrir o que há por trás do muro
O presente já é quase passado
Voar pra buscar futuro
Voar, voar, voar”.

Não há analogia mais profícua para a leitura. Ler é voar, descortinar horizontes, superar o presente que nos oprime e buscar futuros. Vida longa à nossa memorável Biblioteca Pública Municipal Guimarães Rosa!

Pública! Rosiana! Emancipadora!

Alisson Diego Batista Moraes, 35, advogado, bacharel em Filosofia pela UFMG, MBA em Gestão de Empresas pela FGV. Foi prefeito de Itaguara entre 2009 e 2016 e, atualmente, ocupa a função de Secretário de Mobilização do Diretório Estadual do Partido Verde.

* Artigo publicado no Jornal Cidades em maio de 2020.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Um poema de Antonia Pozzi

Corredor de Freiras

Talvez tenhas razão:
talvez a verdadeira paz
somente se encontre
num lugar escuro como este,
num corredor de colégio,
onde as moças se pavoneiam a cada dia,
deixando nas paredes
casacos e capuzes;
Onde os velhos pobres
que vêm pedir
se contentam com umas poucas moedas
oferecidas por Deus;
Onde, ainda cedo, por culpa
das janelas fechadas,
se acendem as lâmpadas
e não se aguarda
ver morrer a luz,
ver morrer a cor e a saliência das coisas;
Contudo, ide ao encontro da noite
com outra luz acesa ao alto,
e a alma que arde não sofrerá
a revelação da sombra.

Antonia Pozzi
(Milão, 12 de Novembro de 1931)

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Para todos os que acreditam e/ou se inspiram em Cristo

Hoje, sexta-feira da paixão, é um dia cujo simbolismo importa a todos os cristãos do mundo inteiro e também aqueles que, vacilantes na fé ou críticos dos ritos eclesiásticos, reconhecem e inspiram-se na mensagem e no ideário de Jesus.

Rememora-se Sua paixão e morte de cruz, o mais doloroso e plangente fenecimento. Em vão Ele não pode ter morrido. Até para os descrentes, a motivação de sua morte é incrivelmente forte para ser desconsiderada. Comumente, se diz que morreu para salvar toda a humanidade dos pecados. Isso também o é, principalmente sobre a ótica da teologia. Mas morreu, sobretudo, porque enfrentou os poderosos de seu tempo e criticou o sistema de dominação dos mais pobres e contestou o Templo. À luz da história e da análise dos evangelhos, a morte de Jesus Cristo nos rememora um enfrentamento inédito ao sistema vigente. Ele também nos apresentou seu Pai como o Deus da misericórdia, do amor e do perdão. Não o Deus do temor e da punição. Trouxe vida, luz e esperança ao mundo. Renovou a aliança do povo com Deus e instituiu uma nova ordem.

Imagem de Cristo em uma procissão na Espanha AP

Um fato: A sociedade atual é muito distante daquela preconizada por Jesus Cristo. Muitos dos que se dizem cristãos e estão, regularmente, em suas igrejas ajoelhados e orando farisaicamente, são os primeiros a fazerem julgamentos antecipados, a propagarem o ódio e a intolerância, a disseminarem o preconceito e a brutalidade. Em suma: estão contrariando frontalmente os ensinamentos de Jesus Cristo. Não honram Seu nome!

A Bíblia é riquíssima em exemplos e fiz aqui um recorte de trechos (fora dos evangelhos) que demonstram a incompatibilidade do cristianismo com a ganância, a vaidade excessiva, a ira, a gabolice, a injustiça, a opressão e a inverdade. Observe:

Isaías 56:11, E estes cães são gulosos, não se podem fartar; e eles são pastores que nada compreendem; todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância, cada um por sua parte.
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Eclesiastes 5:10, O que ama o dinheiro nunca se fartará dele; quem é apegado às riquezas nunca se farta com a renda. Isto também é vaidade.
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1 Timóteo 6:10, Porque o amor do dinheiro é a raiz de todos os males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e afligem a si mesmos com muitos tormentos.
11, Mas tu, ó homem de Deus, fuja destas coisas, e segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão.
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2 Coríntios 10:17, Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor. 18, Pois não é aprovado aquele que faz recomendação de si próprio, mas sim aquele a quem o Senhor recomenda.
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2 Timóteo 2:15, Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.
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Ao ler o livro sagrado dos cristãos, percebe-se, com muita facilidade, que há muita gente usando o nome de Deus equivocada ou sordidamente. Mas é possível mudar isso? Sim. Podemos e devemos mudar nossas posturas, assumindo uma postura verdadeiramente cristã e incentivar os outros a fazê-lo.

O ser humano pode mudar até os últimos dias de sua vida e dignificar a sua existência. Se não acreditarmos nisso, não acreditamos na humanidade e, por consequência, sequer somos capazes de acreditar em nós mesmos. Isto é, assumimos uma condenação moral certa (e, para os que crêem, espiritual também). Restaria à humanidade assistir, passivamente, ao seu próprio fim. Mas não é nisso o que cremos os cristãos. Estamos seguros de que o homem pode mudar a si mesmo e assumir uma nova postura diante de Deus e, por conseguinte, diante da vida em sociedade.

Se há um momento capaz de propiciar uma mudança de rota de vida, este momento é a sexta-feira santa dos cristãos, especialmente neste momento único que estamos vivenciando – de sofrimento, afastamento social e aprendizagens.

Não desanime. Se reina o ódio dentro de você, de sua família ou da instituição da qual você participa ingenuamente, mude. Ainda há tempo! Se há vida, há tempo. Nunca é demais rememorar que Jesus converteu um ladrão poucos minutos antes de cumprir sua sentença:

Evangelho segundo São Lucas (Lc), capítulo 23: 35-42

A multidão conservava-se lá e observava. Os príncipes dos sacerdotes escarneciam de Jesus, dizendo: Salvou a outros, que se salve a si próprio, se é o Cristo, o escolhido de Deus!

Do mesmo modo zombavam dele os soldados. Aproximavam-se dele, ofereciam-lhe vinagre e diziam:

_ Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo.

Por cima de sua cabeça pendia esta inscrição: Este é o rei dos judeus.

Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele:

_ Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!

Mas o outro o repreendeu:

 _ Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum. E acrescentou:

_ Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!

Jesus respondeu-lhe:

_ Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso.

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Mudar a nós mesmos e, por consequência, a nossa sociedade não é apenas possível, mas necessário e urgente! Urge reinstituir os verdadeiros valores cristãos!

Alisson Diego