quinta-feira, 20 de agosto de 2020

135 anos do nascimento de Arthur Vilaça: Um grande benemérito de Minas Gerais


Há 135 anos nascia um dos grandes ícones de nossa história regional. Nosso papel é relembrar todos aqueles que ajudaram na construção das nossas sociedades, afinal sabemos que somos frutos de uma rede de momentos históricos e herdeiros da história.

A história de Itaguara, Crucilândia e Itaúna são muito próximas - disso já sabemos. Mas algumas personagens digamos emblemáticas, aproximaram ainda  mais as nossas histórias. As três cidades beneficiaram-se da trajetória de Artur Vilaça e se orgulham de sua profícua existência. A seguir, compartilhamos texto de autoria do saudoso amigo e intelectual itaunense Guaracy de Castro Nogueira:

Prefeito itaunense e grande benemérito

Conhecido como Coronel Arthur Contagem Vilaça. Não o considero “coronel” segundo a antiga versão política, pois foi um inovador. Nesta biografia, pretendo dar-lhe o verdadeiro reconhecimento, já que temos uma perspectiva histórica para julgá-lo, longe das paixões políticas e daqueles que teceram comentários sobre sua presença marcante em nossa cidade. Quero de início, relatar um episódio raro de sua conduta, como líder autêntico.

Desde 1922, o Brasil vinha sendo sacudido por um verdadeiro frenesi revolucionário. Em Minas, Antônio Carlos estabeleceu o voto secreto, fundou a Universidade e liderou um grande movimento de renovação. Em Itaúna, os políticos tradicionais apoiavam o presidente Washington Luiz, saudado na convenção que o elegeu pelo brilhante deputado federal por Minas, o itaunense Dr. Mário Matos. A política do coronelismo oficial, em 1929, já havia escolhido, como candidato e futuro presidente, Júlio Prestes, que vinha fazendo boa administração em São Paulo, apoiado pelos governadores de 17 Estados. Antônio Carlos articulou a candidatura de Getúlio Vargas, tendo como seu companheiro de chapa João Pessoa, presidente da Paraíba. Surgiu a Aliança Liberal com o triângulo Minas, Rio Grande e Paraíba, para enfrentar o governo federal e os outros estados. Como de costume, os coronéis fraudaram a eleição em favor do candidato oficial. Aconteceu a Revolução de 1930. Em Belo Horizonte o 12.º R.I., depois de vários dias de luta, rendeu-se à Polícia Mineira.

Em Itaúna, Arthur Vilaça ficou ao lado das forças revolucionárias, organizou com jovens políticos locais, ente eles o Dr. Lima Coutinho, Juca Santos e Dr. Hely Nogueira, um pelotão para combater as forças tradicionais da República Velha. Minas colocou-se de pé. Surgiram a “Coluna Libertadora”, os Batalhões “Antônio Carlos”, “Olegário Maciel”, “Raul Soares”, “Mario Brant” e “Artur Bernardes”. Vilaça hipotecou apoio a Getúlio Vargas e como ato significativo denominou nossa praça principal de João Pessoa, assassinado em Recife. Em 24 de outubro Washington Luiz foi deposto e a 3 de outubro empossado Getúlio Vargas. Foi o fim do regime instituído em 1891. Registre-se que Artur Vilaça, anteriormente, foi vereador no período de 1.º de maio de 1912 a 1.º de janeiro de 1916 e, depois, Presidente da Câmara e Agente Executivo para o mandato que se iniciou em 17 de maio de 1927, com apoio das forças tradicionais do Partido Republicano Mineiro (nos municípios os nomes dos partidos tinham coloração local), praticamente único partido oficial, que dominava a política itaunense desde os tempos do Dr. Augusto Gonçalves de Souza Moreira. Nessa legislatura, os demais vereadores do município eram Dr. Mário Matos, Dr. Dario, Dr. Lincoln e Zezé Lima e havia mais quatro vereadores dos distritos.

Com a vitória da Revolução, Olegário Maciel continuou no governo do Estado e nomeou Artur Vilaça como o primeiro Prefeito Municipal com este título. Continuou administrando o município com isenção, dignidade e operosidade, sem usar dos poderes que tinha nesse período revolucionário, respeitando os direitos inalienáveis de cada cidadão. Os que perderam seu mandato se sentiram traídos; este acontecimento foi um divisor de águas na política local. Vilaça exerceu o mandato por 9 anos, 6 meses e 11 dias; permaneceu no cargo até 28 de janeiro de 1936, quando foi exonerado, a seu pedido, pelo Governador Benedicto Valadares. Getúlio que prometera reconstitucionalizar o país em 1936, implantou o Estado Novo em 1937, governando como ditador. Artur Vilaça, amigo dos antigos membros da Aliança Liberal, os que se tornaram signatários do famoso “Manifesto dos Mineiros”, entre eles Pedro Aleixo, Jonas Barcelos Corrêa, Bueno Brandão, Mário Brant e tantos outros, entrou no partido de oposição, UDN, que provocou a queda do regime e deu uma Constituição Democrática ao País, em 1946.

Artur Vilaça nasceu em Dom Silvério, hoje Crucilândia, na época pertencente a Bonfim, em 20 de agosto de 1885, filho de Henrique Ferreira Vilaça e Francisca Álvares de Abreu e Silva. Estudou no Colégio Dom Bosco, de Cachoeira do Campo e no Colégio Azevedo, de Sabará. Diplomou-se em farmácia pela tradicional Faculdade de Farmácia de Ouro Preto, em 5 de dezembro de 1903. Era descendente da famosa Joaquina de Pompéu, tronco de ilustres personalidades mineiras, sua trisavó. Faleceu em Itaúna, terra que muito amou, em 18 de maio de 1955.

Casou-se, em 30 de maio de 1906, em Itaguara com Maria das Dores de Oliveira Campos, a Dona Dorica. Ao final de suas vidas se tornariam grandes beneméritos em Itaúna e em Itaguara, terra natal de Dorica. No mesmo ano de seu casamento, Vilaça transferiu-se para Itaúna, estabelecendo-se com uma farmácia que dirigiu por mais de vinte anos.

Como Prefeito, Vilaça embasou seus mandatos no trinômio: comunicação, saúde e educação. Concluiu o importante serviço de abastecimento de água potável e a rede de esgotos, iniciados na administração anterior. Introduziu melhoramentos nos serviços telefônicos, bem como investiu na melhoria do aspecto urbano da cidade, com a construção dos jardins do antigo Largo da Matriz, em conformidade com projeto técnico do alemão Steinmetz, inaugurados em outubro de 1929. A conservação e a construção de estradas vicinais, ligando a sede aos povoados do município, mereceram sua especial atenção. Ampliou e reformou escolas.

Em sua administração, em 1928, inaugurou-se a primeira agência bancária em Itaúna, do antigo Banco Comércio e Indústria de Minas Gerais, vendido ao Nacional. Foi um dos fundadores do Banco Industrial de Minas Gerais, depois vendido ao Banco Mercantil. Instalou uma agência de seu Banco em Itaúna e deu a Crucilândia sua primeira agência bancária.

Foi o Presidente da Sociedade Anônima que construiu o prédio da Escola Normal. Em 1930, graças aos esforços de sua administração, com o apoio do deputado federal Mário Matos, conseguiu sua oficialização. O deputado foi cassado pela Revolução e seu mandato estenderia até 1932. Como Arthur Vilaça apoiou Getúlio, Mário Matos jamais o perdoou, o que motivou a desoficialização da Escola Normal em 1938. “Valadares tinha no seu governo, na Diretoria da Imprensa Oficial do Estado, justamente Mário Matos que, automaticamente, começou a comandar politicamente o Município de Itaúna, bem como a exercer expressiva influência sobre a estratégia governamental praticada por Benedicto Valadares”.

Arthur e Dorica não tiveram filhos, mas dedicaram todo seu afeto à família, amparando sobrinhos e parentes. Criou em sua casa a sobrinha Zoé Vilaça Lara, que se casou com Severino de Paula Lara, de cujo enlace nasceu dois filhos: Artur Lúcio e Magda Lúcia. Artur Lúcio Lara, nascido em 1945, casou-se com sua conterrânea Idalina Dornas Diniz Lara, de tradicional família itaunense. Tiveram duas filhas: Tatiana e Larissa, residentes em Bocaiúva. Tatiana casada com Cláudio Antônio Caldeira Meira são os pais de Ana Cláudia e Artur. Idalina ficou viúva em decorrência do trágico acidente de automóvel que vitimou seu marido, ainda jovem, em 1976.

Magda Lúcia Lara Rocha, nascida em Itaúna sob o teto de Arthur Vilaça, em 1943, casou-se com Antônio de Oliveira Rocha Filho. Reside em Brasília, onde é extremamente requisitada pelos seus extraordinários dotes musicais. De seu casamento nasceram três filhos: Carmem Lúcia (falecida); João Paulo Lara Rocha, nascido e residente em Brasília, é analista de sistemas; Arthur Fernando Lara Rocha, itaunense de nascimento, casado com Raquel Montenegro de Oliveira Lara Rocha, residentes em Goiás. Ele é Piloto de Caça, Major-Aviador em Anápolis, onde pilota os velocíssimos “Mirage”; pais do neto de Magda Lúcia Lara Rocha: Arthur Fernando Lara Rocha Filho.

Desde quando chegara a Itaúna, o padre José Ferreira Neto queria instituir uma entidade para o ensino de meninos carentes, a Granja Escola São José. Pediu terras a três prósperos fazendeiros: José de Cerqueira Lima, Astolfo Dornas e Arthur Contagem Vilaça. Somente este anuiu ao seu pedido, disponibilizando-lhe dois alqueires. Mas o padre precisava de cinco e o sonho foi temporariamente adiado.

Antes de falecer, Arthur Vilaça solicitou à esposa, Dorica, que honrasse o seu compromisso com o Pe. José Neto. A generosa viúva, espelhada no exemplo de vida do esposo, foi mais além: doou 13 alqueires de seu melhor terreno e parte de sua fortuna, tornando-se instituidora da Fundação Granja Escola São José. Do gesto inicial de Arthur Vilaça sobrevive hoje a Granja Escola São José, instituição modelar, que acolhe dezenas de jovens estudantes tirados da rua, transformados em homens livres, plenos de cidadania, os líderes de amanhã, na Itaúna de nossos sonhos!

REFERÊNCIAS:Texto: Guaracy de Castro Nogueira (In memoriam)
Pesquisa: Charles Aquino, Patrícia Gonçalves Nogueira.
Organização: Charles Aquino
Acervo: Instituto Cultural Maria Castro Nogueira
Fotografia: Adilson Nogueira

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Universidades Públicas e Humanidades Sob Ataque

 Compartilho artigo escrito para o Jornal Cidades, publicado em agosto de 2020


Universidades Públicas e Humanidades Sob Ataque 


Alisson Diego * 


Outro dia recebi, em um respeitável grupo de Whatsapp, um vídeo produzido pela empresa Brasil Paralelo, uma produtora de extrema-direita conhecida por espalhar fake news e ligada ao estarrecedor “gabinete do ódio bolsonarista”. O filme visava grosseiramente a ridicularizar, ofender e atacar levianamente as universidades públicas brasileiras. Dentre outras insensatezes, o malicioso  vídeo diz que o Brasil não possui importância no contexto universitário global e coloca as universidades brasileiras como sendo de qualidade duvidosa. 

Como disse, o grupo de Whatsapp em questão é composto por pessoas idôneas e, até que se prove o contrário, honestas e trabalhadoras. Quando recebo conteúdos tão maliciosos oriundos de “pessoas de bem”, forço-me à indagação: o que leva pessoas assim a compartilharem esse tipo de publicação distanciada da racionalidade? 

A pergunta acima é tão somente retórica. Não ouso respondê-la porque demandaria tempo e espaço em demasia, mas, apesar de todos os problemas, percalços e riscos que a manifestação de opinião envolve, não posso deixar de ser assertivo neste momento para asseverar: cuidado, você que compartilha vídeos ofendendo as universidades públicas, está sendo manipulado. 

Uma coisa é se discutir as concessões de bolsas da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), o financiamento estudantil e o próprio papel das universidades públicas na sociedade brasileira contemporânea e outra coisa completamente diferente é o ataque puro, simplório e genérico às universidades públicas. O real objetivo desses ofensores consiste na privatização do ensino superior brasileiro e não em buscar melhorias para o ensino público. 

Uma das principais perguntas que devemos nos fazer quando recebemos qualquer conteúdo pelas redes é: de quem é a autoria? Se não tiver autor definido já é forte o indício de manipulação ofensiva, caluniosa, injuriosa e difamatória, ou pura e simples fake news, como queiram nominar. Entretanto, no caso examinado, há autoria definida: o Brasil Paralelo, que surgiu em 2016 e se notabilizou por produzir dezenas de vídeos alinhados ao extremo conservadorismo, responsável, inclusive, pela disseminação de mensagens falsas sobre fraudes nas urnas eletrônicas nas eleições presidenciais de 2018, desmentidas incisivamente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e verificadas pelo “Fato ou Fake” e outras iniciativas de checagem e validação de informações disseminadas no submundo das redes. 

De volta à temática do vídeo, digo de antemão que acho de bom tom colocarmos em pauta sempre a questão das universidades públicas e o seu papel no desenvolvimento do estado brasileiro. Ressalto que posso discorrer confortavelmente sobre este assunto, desprovido de quaisquer vieses partidários ou interesses pessoais. Jamais recebi um centavo de bolsa da Capes mesmo estudando por 7 anos em duas universidades públicas (UFMG e UFSJ), fui aprovado em processos seletivos sem qualquer cota e também obtive notas muito acima dos 600 pontos no Enem – outro aspecto questionado pelo vídeo é que nos cursos de ciências humanas são aprovados candidatos com pontuações abaixo dos 600 pontos. Ainda que eu tivesse sido bolsista em alguma universidade pública ou tivesse sido aprovado pelo sistema de cotas ou mesmo houvesse obtido menos de 600 pontos, nada disso invalidaria quaisquer de meus argumentos apresentados neste texto, mas nunca é demais ressaltar essa minha condição de absoluta imparcialidade argumentativa porque muitos tentam desconstruir argumentos com esses falaciosos ataques que acabam por confundir muita gente ingênua. 

Pois bem, de onde vêm então os ataques às universidades públicas? Essa é uma questão-chave para se compreender melhor a questão central deste texto (veja que há uma diferenciação enorme entre críticas aceitáveis e construtivas de ataques levianos e grosseiros). O Brasil Paralelo é apenas um instrumento de ofensores maiores. Via de regra, aqueles que atacam as universidades públicas são os mesmos que atacam as cotas raciais e de renda, e que no fundo não querem mesmo é ver negros e pobres ascendendo social, cultural e economicamente . Portanto, estamos diante de mais um problema tipicamente brasileiro: as velhas desigualdades sociais, o racismo e o preconceito disseminados frente as oligarquias e o seu arraigado pensamento patrimonialista e exclusivista diante do estado. “Se o governo não serve aos meus interesses, o governo não serve”, grosso modo, é assim que pensam. 

Especificamente, sobre as universidades brasileiras, é inequívoco dizer que elas precisam de amplas melhorias e reformas, sobretudo em sua infraestrutura, justamente neste momento histórico em que está em curso um claríssimo projeto de sucateamento das universidades estatais, capitaneado por pessoas que enxergam a educação como uma simples mercadoria, ignorando o papel central que devem ter no desenvolvimento nacional. 

Sobre a qualidade do ensino superior público, importante abordar os rankings universitários mundiais, mencionados no dito vídeo. Em primeiro lugar, é preciso ser dito que há dezenas deles; ao escolher um como parâmetro, deve-se conhecer pormenorizadamente os seus critérios. Tomemos como exemplo o índice avaliativo da Times Higher Education (THE), divulgado há poucas semanas. Segundo THE; entre as 20 melhores universidades da América Latina, 13 são brasileiras, com a Universidade de São Paulo (USP) em segundo lugar e a Universidade de Campinas (Unicamp) em terceiro, seguidas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O ranking avalia aspectos como pesquisa, ensino e transferência de conhecimento. O Brasil é o país com o maior número de instituições que atingiram o critério para serem avaliadas no ranking regional, com 66 no total, seguido por Chile (30) e Colômbia (23). 

Ainda sobre rankings, vale mencionar dois deles que levam em conta a relação “universidade e sustentabilidade”. Há pelo menos dois ranqueamentos internacionais que testam o comprometimento das academias nesta temática. A Universidade de São Paulo aparece no top 20 das duas listas, Impact Ranking e Green Metric. No primeiro ranking, a USP é a 14ª melhor do planeta. No segundo, está na 18ª colocação. As duas classificações obedecem a critérios diferentes. O Impact Ranking utiliza os 17 ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), estabelecidos pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2015. Com base neles, observa-se: pesquisa, divulgação e governança. Além da USP, outras instituições brasileiras estão presentes no top 100 da lista. A Universidade Federal de Lavras (MG) está na 29ª posição, a Universidade Positivo (PR) ficou no 73º lugar, e a Unicamp (SP) se classificou na 80ª colocação. Já no Impact Ranking, a outra representante do Brasil entre os 100 melhores é a Universidade Estadual de Londrina (PR). Todas públicas neste ranking com exceção da Universidade Positivo. 

Este debate público é iluminado pela Constituição da República. Destaca nosso texto constitucional que o ensino superior deve promover o desenvolvimento humanístico, científico e tecnológico do país (art. 214, V, da CF/88), dentre outros objetivos. Dispõe ainda a nossa Carta Magna a respeito da garantia de ingresso no ensino superior de estudantes de classes sociais menos favorecidas, dando a eles o direito de continuarem os seus estudos, atingindo os níveis mais elevados do ensino. Importa dizer que a educação superior não visa apenas ao preparo do indivíduo para o mercado de trabalho, mas promover o pensamento reflexivo, valorizar a responsabilidade social, a cultura e os valores humanísticos, além de estimular a produção do novo conhecimento. Quando isso não ocorre, a nação fica engolfada na lógica subdesenvolvimentista. Em razão disso, torna-se elementar que o Estado garanta às pessoas as condições de ingressarem no ensino superior. 

Conforme se vê, o debate é muito mais amplo do que parece e está obnubilado por questões nada republicanas e democráticas. Convém mencionar também que considero necessária uma reforma universitária que preveja a cobrança de mensalidades para estudantes abastados. A meu ver, nada mais justo – desde que os recursos sejam revertidos para a melhoria das próprias universidades públicas. Todavia, pode-se afirmar: o interesse desses senhores que atacam as universidades estatais não é e nunca foi a melhoria do ensino público, mas tão somente a mercantilização completa da educação e a financeirização e produtivização da vida. 

Não posso deixar de observar que é curioso que os ataques às universidades públicas venham, quase sempre, acompanhados de ríspidas ofensas aos cursos da área de humanas. Isso não se dá por mero acaso (ou por mera posição corrompida de um utilitarismo de ocasião), uma vez que são as humanidades que questionam a ordem vigente. Qual o papel da filosofia, da sociologia e das humanidades de forma geral? Qual o papel dos pensadores? Em síntese, consiste em transpor as limitações do pensar por meio da reflexão crítica acerca do ser humano, do mundo e da sociedade, valendo-se de métodos e análises filosóficos, sociológicos, antropológicos etc. Eles (os donos do poder e a elite brasileira) odeiam a crítica e não suportam questionamentos, sejam eles quais forem. Eles não toleram a diversidade e a existência de qualquer pensamento crítico. E é justamente o pensar crítico a razão mesma de ser da filosofia, da sociologia e das humanidades. Afinal de contas, de que vale a vida sem a reflexão, como se fôssemos robôs ou seres inanimados? 

Nunca é demais lembrar Sócrates que, pouco depois da decretação de sua sentença de morte, disse uma das frases mais célebres da história da filosofia e da humanidade – que é ao mesmo tempo uma admoestação e uma exortação: "a vida sem reflexão não vale a pena ser vivida”. 

Não vale mesmo. 


Alisson Diego Batista Moraes, advogado, bacharel em Filosofia pela UFMG, MBA em Gestão de Empresas pela FGV e mestrando em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Foi prefeito de Itaguara entre 2009 e 2016.


quinta-feira, 25 de junho de 2020

Quem eles pensam que são?

Compartilho artigo escrito para o Jornal Cidades, publicado em junho de 2020:

Quem eles pensam que são? * 

Devo confessar que não me apraz utilizar esta coluna novamente para abordar a pandemia e/ou as ações (e omissões) do governo federal. Isso porque o fiz em abril e é sofrível escrever sobre assuntos incômodos. Na última coluna, poeticamente, homenageei a nossa valorosa Biblioteca Pública Guimarães Rosa por ocasião das bodas de ouro – como é agradável falar de cultura, educação, história e lembranças. Não queria mesmo retornar a assuntos áridos, mas ao colunista engajado não é permitido se omitir e, como governança e pandemia são os debates públicos mais importantes do Brasil no momento (e o jornal cumpre esse importante papel de elucidar fatos), vejo-me no dever inafastável de abordar, uma vez mais, a temática.

Em 30 de março, quando escrevi o meu último texto sobre esta mesma temática para este jornal, o Brasil contabilizava 4.579 casos confirmados e 159 mortes e a nossa região não contabilizava nenhum registro. Hoje, dia 25 de junho, somamos mais de 1.2 milhões de infectados e mais de 55 mil vidas ceifadas. E a nossa região possui casos de covid-19 em todos os municípios (inclusive com óbitos sendo investigados). De quebra, a nação brasileira, de acordo com vários especialistas, pode tornar-se, em alguns dias, o novo epicentro da pandemia. O que houve de lá para cá?

Antes de responder à questão devo ressaltar que não possuo vícios de partidarismo ou qualquer tipo de passionalidade política. Entretanto, também posso dizer que não sofro de miopia sociopolítica (basta-me a real, aquela que acomete as minhas córneas). Como brasileiro que ama esse país e estuda as questões brasileiras desde sempre, torci (não sem justificada desconfiança, mas torci) para que o governo federal desse certo e ao menos fosse pujante e nacionalista – conseguindo impulsionar a economia, combatendo a criminalidade e gerando emprego e renda para os brasileiros. Se não fosse capaz de combater as desigualdades, melhorar nossa educação, cuidar da saúde, robustecer nossa frágil infraestrutura, ao menos que pudesse, então, por meio de um crescimento econômico baseado na confiança do mercado, criar oportunidades de trabalho para tantos pais e mães de família necessitados. Mas, infelizmente, até agora, nem a mais baixa das expectativas se cumpriu. E o pior: surge uma pandemia que escancara a falta de comando no executivo federal. Na verdade, é pior do que uma pura e simples falta de comando, é um comando atroz, abjeto, tosco e nauseante.

Não faço coro com aqueles que dizem que fascistas elegeram Bolsonaro. O Brasil não possui 58 milhões de fascistas e/ou pessoas com pensamento autoritário. O Brasil é um país generoso, cuja população, majoritariamente, ainda acredita, de forma ingênua e pueril, em políticos milagreiros, que fazem o estilo “sincerão” (não foi por acaso que a novela “O Salvador da Pátria” fez tanto sucesso entre nós no final dos anos 80). A grande maioria de nossos compatriotas, insatisfeita com a corrupção, temática exacerbadamente explorada pela mídia, decidiu dar uma guinada radical e eleger um candidato que prometia: “Mais Brasil e Menos Brasília”, além de acabar com a corrupção e “limpar o país”.

Hoje, caminhando para dois anos de sua posse, Bolsonaro pode ser descrito como alguém que mentiu levianamente para o povo brasileiro (não por acaso quase 70% rejeitam-no). Não bastasse o imoral acordo com o famigerado Centrão (bloco de partidos políticos fisiológicos e que possui vários de seus membros acusados de corrupção), não bastassem as gravíssimas investigações acerca de seus filhos (mais notadamente o senador Flávio), não bastassem os inquéritos das fake news e dos atos antidemocráticos, não bastassem as investidas criminosas contra o meio ambiente, o ex-capitão revela-se “o pior líder planetário no combate à pandemia”. Essa expressão não é minha, está, por isso, aspeada – é do jornal americano Washington Post – e não me venha dizer que esse veículo seja de esquerda. Aliás, “esquerda e direita” tornaram-se o verdadeiro "samba do crioulo doido" no dicionário circense adotado pelo governo e seus asseclas. Ferem a história e matam as ciências humanas ao tratar desse binarismo com tacanhez jamais vista na história política desse país. Isso para não mencionar verbetes como “comunista”, “socialista” e congêneres. A palavra descontextualizada pouco importa para eles, o que vale é a acusação, quanto mais vazia e/ou torpe melhor.

Não é sem motivo que o Brasil é a segunda nação do planeta em número de mortes por coronavírus. Ainda restam dúvidas de que não temos comando ou possuímos um comando mambembe? Alguns dos erros (ou seriam crimes?) cometidos pelo presidente são tão nítidos que ele foi denunciado, recentemente, ao Tribunal Penal Internacional de Haia. Vamos a uma breve retrospectiva macabra:

1. Em 10 de março, quando estava em viagem oficial pelos Estados Unidos, Bolsonaro afirmou que a crise era “fantasia” e que “não é isso tudo que a grande mídia propaga ou propala”. Um dia depois, a Organização Mundial da Saúde declarou pandemia;
2. Mesmo com orientação expressa do Ministério da Saúde, Bolsonaro participou de manifestação com apoiadores em diversas ocasiões e mostrou-se contrário ao isolamento. 3. Não bastasse isso, o presidente troca de ministros 3 vezes durante a maior pandemia da história brasileira: Mandetta, Teich e Pazuello;
3. Mas o pior de tudo mesmo foi o desrespeito às vítimas – no dia 20 de abril, quando questionado sobre o número de vítimas, o presidente respondeu a jornalistas que não era coveiro. Oito dias após, quando o país registrava 5.050 óbitos, disse: “Sou Messias, mas não faço milagres”. Em 9 de maio, Bolsonaro chegou a marcar um churrasco, que depois disse ser “fake”;
4. Ainda em março, Bolsonaro afirmou que a quantidade de óbitos por Covid-19 em 2020 não alcançaria a quantidade de mortes por H1N1 em 2019 (foram 796). Em maio, o presidente teve uma publicação no Instagram marcada como falsa, ao comparar os números de mortes de doenças respiratórias de 2019 e 2020.

Como diz um amigo de longa data, pastor presbiteriano, inspirando-se na sabedoria bíblica: “as palavras convencem, mas o exemplo arrasta!”. Não tivemos exemplos e comando por parte do executivo federal. Tivemos, ao contrário, anti-exemplos.

O Brasil poderia ter feito um lockdown sério, criado linhas de financiamento subsidiado para médias e pequenas empresas (além de linhas específicas para as grandes corporações), e saído dessa situação há muito tempo, a exemplo do que fez a Nova Zelândia. Não precisaríamos impor tantos sacrifícios à nossa população e às nossas empresas, mas tudo isso ocorre porque não temos comando. O governo queria aprovar um auxílio emergencial vergonhoso de apenas 200 reais! O Congresso emendou, impôs um valor maior e, ainda assim, foram meses até acontecerem os primeiros pagamentos.

Os militares conscientes já abandonaram ou estão a abandonar o governo (outros ainda estão em cargos chave porque ainda acreditam que podem “controlar o presidente” e pensam que deixar o governo neste momento poderia ser ainda pior) e sabem que defender abertamente Bolsonaro custaria muito caro às Forças Armadas. O presidente e seu parvo governo têm desgastado fortemente a imagem das instituições que tenta manter sob seu radar de influência. Sobre isso, sugiro ler a recente  pesquisa: “A cara da democracia no Brasil: Edição 2020”. São números impressionantes colhidos pelo INCT (Instituto da Democracia e de Democratização da Comunicação), coordenado pelo brilhante cientista político e professor Leonardo Avritzer da UFMG.

Recordo-me, por fim, da música "3ª do Plural" do Engenheiros do Hawaii, que indaga no refrão: “Quem são eles? Quem eles pensam que são?”. Ouso responder à canção em nosso contexto: eles se acham donos do poder, acham-se melhores por serem rudes, acham-se ungidos e manipulam a fé do povo, acham-se arautos do atraso e ditadores da moral, do civismo e dos bons costumes, esquecendo-se de que não há espaço mais para a autocracia, moralismos baratos e imposições retrógradas. Eles, no fundo, apostam na ignorância do povo brasileiro. Estão errados! O povo brasileiro pode até ser ingênuo, mas não é ignorante e, mais dia, menos dia, vai se levantar contra a tacanhez e a patranha.

*Alisson Diego Batista Moraes, 35, advogado, bacharel em Filosofia pela UFMG, MBA em Gestão de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas. Foi prefeito de Itaguara entre 2009 e 2016. Atualmente, é membro da Executiva do Partido Verde do Estado de Minas Gerais. www.alissondiego.com.br

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Biblioteca Pública Municipal Guimarães Rosa: 50 anos construindo aprendizados

Recebo uma incumbência da curadoria de nossa Biblioteca Pública Guimarães Rosa em Itaguara: escrever um texto em comemoração aos 50 anos de existência deste nobre espaço cultural. Ei-lo:

Quando penso em nossa Biblioteca, recordo, dentre outras ternas lembranças, dos ensaios que lá fizemos com o Grupo de Teatro Vidas em Artes. Eu era um guri de apenas 16 anos de idade e a Biblioteca representava o espaço mágico da leitura e da representação. Era como se os livros ganhassem vida plena em nossas interpretações teatrais. Aprendi, desde aquela época, que uma biblioteca é muito mais do que um mero espaço onde se guardam e se emprestam livros. É, em essência, um ambiente de generoso convívio sociocultural.

Bibliotecas são lugares onde as ideias não aceitam grilhões. São espaços do tríplice diálogo: com o livro, com nós mesmos e com o outro. São redutos dos pensamentos, das reflexões, das pesquisas, das transformações do sujeito. Uma biblioteca é, em essência, o ambiente da autonomia do raciocínio e da aprendizagem em sua multiplicidade de significados.

Percebo uma biblioteca como um voo da imaginação humana pelos infinitos céus do conhecimento - e como não há biblioteca sem educação, ao celebrar os 50 anos de nossa célebre Biblioteca Pública Guimarães Rosa, que jamais nos esqueçamos da necessidade de uma educação pública cada vez mais emancipadora. Lutar por isso é um dever que nos cabe a todos.

Às vezes, alguns futurólogos proclamam o fim dos livros físicos e a supremacia dos livros digitais, o que poderia significar o fim de bibliotecas e livrarias. Estou convicto de que isso não ocorrerá, mas ainda que aconteça, jamais significará o fim das bibliotecas, dentre outras razões, porque uma biblioteca nunca foi e nunca será um mero depósito de letras encadernadas. A Biblioteca representa, ao lado das escolas e de nosso museu, um templo vivo de convivência, de memória, de cultura, de educação e de nossa incessante formação ao longo de toda a existência. Neste sentido, ensinou-nos Paulo Freire: “não é possível ser gente senão por meio de práticas educativas. Esse processo de formação perdura ao longo da vida toda, o homem não para de educar-se, sua formação é permanente e se funda na dialética entre teoria e prática”.

Em tempos nos quais se celebram a ignorância e a tosquice, a Biblioteca é um valoroso símbolo de nobre resistência ao proclamar o amor ao conhecimento, à literatura e à humanidade. Não vamos ser derrotados pela ignorância. Não! Não aceitamos isso porque temos em nosso sangue a resiliência dos cataguás e a força de nosso padrinho que nomeia o espaço: João Guimarães Rosa, o imortal mestre da metafísica do sertão.

Por falar no Rosa, dentre as milhares de geniais frases dele que podem ser citadas nesta ocasião jubilosa, fico com uma quase clichê, mas singularmente elucidativa: “O homem nasceu para aprender, aprender tanto quanto a vida lhe permita”. Onde há vida, há cultura, formação e aprendizado. Onde houver uma biblioteca, haverá esperança na humanidade!

Pensando em leitura e educação como pontes para a libertação da humanidade, lembro-me de uma canção do Zé Geraldo (Voar, Voar). Numa das estrofes, diz o poeta mineiro:

“Descobrir o que há por trás do muro
O presente já é quase passado
Voar pra buscar futuro
Voar, voar, voar”.

Não há analogia mais profícua para a leitura. Ler é voar, descortinar horizontes, superar o presente que nos oprime e buscar futuros. Vida longa à nossa memorável Biblioteca Pública Municipal Guimarães Rosa!

Pública! Rosiana! Emancipadora!

Alisson Diego Batista Moraes, 35, advogado, bacharel em Filosofia pela UFMG, MBA em Gestão de Empresas pela FGV. Foi prefeito de Itaguara entre 2009 e 2016 e, atualmente, ocupa a função de Secretário de Mobilização do Diretório Estadual do Partido Verde.

* Artigo publicado no Jornal Cidades em maio de 2020.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Um poema de Antonia Pozzi

Corredor de Freiras

Talvez tenhas razão:
talvez a verdadeira paz
somente se encontre
num lugar escuro como este,
num corredor de colégio,
onde as moças se pavoneiam a cada dia,
deixando nas paredes
casacos e capuzes;
Onde os velhos pobres
que vêm pedir
se contentam com umas poucas moedas
oferecidas por Deus;
Onde, ainda cedo, por culpa
das janelas fechadas,
se acendem as lâmpadas
e não se aguarda
ver morrer a luz,
ver morrer a cor e a saliência das coisas;
Contudo, ide ao encontro da noite
com outra luz acesa ao alto,
e a alma que arde não sofrerá
a revelação da sombra.

Antonia Pozzi
(Milão, 12 de Novembro de 1931)

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Para todos os que acreditam e/ou se inspiram em Cristo

Hoje, sexta-feira da paixão, é um dia cujo simbolismo importa a todos os cristãos do mundo inteiro e também aqueles que, vacilantes na fé ou críticos dos ritos eclesiásticos, reconhecem e inspiram-se na mensagem e no ideário de Jesus.

Rememora-se Sua paixão e morte de cruz, o mais doloroso e plangente fenecimento. Em vão Ele não pode ter morrido. Até para os descrentes, a motivação de sua morte é incrivelmente forte para ser desconsiderada. Comumente, se diz que morreu para salvar toda a humanidade dos pecados. Isso também o é, principalmente sobre a ótica da teologia. Mas morreu, sobretudo, porque enfrentou os poderosos de seu tempo e criticou o sistema de dominação dos mais pobres e contestou o Templo. À luz da história e da análise dos evangelhos, a morte de Jesus Cristo nos rememora um enfrentamento inédito ao sistema vigente. Ele também nos apresentou seu Pai como o Deus da misericórdia, do amor e do perdão. Não o Deus do temor e da punição. Trouxe vida, luz e esperança ao mundo. Renovou a aliança do povo com Deus e instituiu uma nova ordem.

Imagem de Cristo em uma procissão na Espanha AP

Um fato: A sociedade atual é muito distante daquela preconizada por Jesus Cristo. Muitos dos que se dizem cristãos e estão, regularmente, em suas igrejas ajoelhados e orando farisaicamente, são os primeiros a fazerem julgamentos antecipados, a propagarem o ódio e a intolerância, a disseminarem o preconceito e a brutalidade. Em suma: estão contrariando frontalmente os ensinamentos de Jesus Cristo. Não honram Seu nome!

A Bíblia é riquíssima em exemplos e fiz aqui um recorte de trechos (fora dos evangelhos) que demonstram a incompatibilidade do cristianismo com a ganância, a vaidade excessiva, a ira, a gabolice, a injustiça, a opressão e a inverdade. Observe:

Isaías 56:11, E estes cães são gulosos, não se podem fartar; e eles são pastores que nada compreendem; todos eles se tornam para o seu caminho, cada um para a sua ganância, cada um por sua parte.
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Eclesiastes 5:10, O que ama o dinheiro nunca se fartará dele; quem é apegado às riquezas nunca se farta com a renda. Isto também é vaidade.
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1 Timóteo 6:10, Porque o amor do dinheiro é a raiz de todos os males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e afligem a si mesmos com muitos tormentos.
11, Mas tu, ó homem de Deus, fuja destas coisas, e segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão.
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2 Coríntios 10:17, Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor. 18, Pois não é aprovado aquele que faz recomendação de si próprio, mas sim aquele a quem o Senhor recomenda.
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2 Timóteo 2:15, Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.
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Ao ler o livro sagrado dos cristãos, percebe-se, com muita facilidade, que há muita gente usando o nome de Deus equivocada ou sordidamente. Mas é possível mudar isso? Sim. Podemos e devemos mudar nossas posturas, assumindo uma postura verdadeiramente cristã e incentivar os outros a fazê-lo.

O ser humano pode mudar até os últimos dias de sua vida e dignificar a sua existência. Se não acreditarmos nisso, não acreditamos na humanidade e, por consequência, sequer somos capazes de acreditar em nós mesmos. Isto é, assumimos uma condenação moral certa (e, para os que crêem, espiritual também). Restaria à humanidade assistir, passivamente, ao seu próprio fim. Mas não é nisso o que cremos os cristãos. Estamos seguros de que o homem pode mudar a si mesmo e assumir uma nova postura diante de Deus e, por conseguinte, diante da vida em sociedade.

Se há um momento capaz de propiciar uma mudança de rota de vida, este momento é a sexta-feira santa dos cristãos, especialmente neste momento único que estamos vivenciando – de sofrimento, afastamento social e aprendizagens.

Não desanime. Se reina o ódio dentro de você, de sua família ou da instituição da qual você participa ingenuamente, mude. Ainda há tempo! Se há vida, há tempo. Nunca é demais rememorar que Jesus converteu um ladrão poucos minutos antes de cumprir sua sentença:

Evangelho segundo São Lucas (Lc), capítulo 23: 35-42

A multidão conservava-se lá e observava. Os príncipes dos sacerdotes escarneciam de Jesus, dizendo: Salvou a outros, que se salve a si próprio, se é o Cristo, o escolhido de Deus!

Do mesmo modo zombavam dele os soldados. Aproximavam-se dele, ofereciam-lhe vinagre e diziam:

_ Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo.

Por cima de sua cabeça pendia esta inscrição: Este é o rei dos judeus.

Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele:

_ Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!

Mas o outro o repreendeu:

 _ Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum. E acrescentou:

_ Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!

Jesus respondeu-lhe:

_ Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso.

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Mudar a nós mesmos e, por consequência, a nossa sociedade não é apenas possível, mas necessário e urgente! Urge reinstituir os verdadeiros valores cristãos!

Alisson Diego

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Andrà Tutto Bene

É coronavírus pela manhã, Covid-19 à tarde e pandemia à noite. O assunto domina 24 horas por dia das nossas vidas nas últimas semanas. A temática subordina a pauta mundial como nunca antes visto. É verdade que outras pandemias ocorreram no planeta e muito mais letais do que a atual, como, por exemplo, a gripe espanhola que dizimou cerca de 50 milhões de pessoas no início do século passado, tendo entre as suas vítimas fatais mais ilustres o presidente do Brasil, Rodrigues Alves. Outra pandemia, a Peste (como ficou conhecida a pandemia de peste bubônica, na Idade Média), teria provocado a morte de cerca de 100 milhões de pessoas, de acordo com as estimativas mais conservadoras, em meados do século XIV.

Esta pandemia atual, contudo, mesmo possuindo letalidade menor do que as supracitadas, assusta-nos, sobremaneira, porque é a primeira grande pandemia na era da informação e economia globalizadas. Alguns dirão que a H1N1 também assustou no início da década passada. Lembro-me de que estava no primeiro ano como prefeito de Itaguara, quando a pandemia de H1N1 assombrou a humanidade. Fizemos um comitê de enfrentamento à pandemia, reunimos com autoridades sanitárias e adotamos todos os procedimentos orientados pelo Ministério da Saúde (não se cogitou, em momento algum, fechamento de comércio ou isolamentos sociais). Não me lembro se Itaguara registrou algum caso naquela oportunidade, mas consultando os dados oficiais, percebe-se que comparar a Covid-19 com a H1N1 não é adequado. Em apenas três meses, a Organização Mundial de Saúde (OMS) registrou 14.652 casos fatais pela Covid-19, enquanto a pandemia de H1N1, em 16 meses, matou 18.449 pessoas . Somente a Itália, já registrou mais de 11 mil mortes ocasionadas pelo novo coronavírus.

Escrevo em 30 de março e os dados para a Covid-19 para o Brasil são :  4.579 casos confirmados e 159 mortes. No que concerne à taxa de letalidade do novo coronavírus, estima-se que varia de 2% a 3%, enquanto a da H1N1 foi estimada em cerca de 0,02%. Definitivamente, não é razoável comparar esses dois momentos pandêmicos. Estamos, incontestavelmente, vivenciando um momento histórico.

Este jornal, provavelmente, terá em sua capa o coronavírus e trará matérias verdadeiras sobre as consequências para a nossa região. A imprensa, em todo o mundo, tem cumprido o seu importante papel de informar e conscientizar a população neste momento crítico. Tenho lido e visto matérias corretas, mas também presenciei reportagens inverossímeis. Algumas sem qualquer fundamento científico. Pior ainda é observar as redes sociais. De cada 100 postagens que recebo, 95 são Fake News. Pessoas, que neste momento, criam essas notícias falsas deveriam ser presas. Quem as espalha, conscientemente, também deveria responder judicialmente. A imensa maioria, no entanto, apenas as recebe e acaba sendo vítima de mentiras ardilosamente arquitetadas.

Cada vez mais, precisamos de veículos de comunicação sérios e comprometidos com a apuração honesta dos fatos. Infelizmente, grande parte da imprensa, por razões várias, tem perdido a sua credibilidade. Apesar disso, registre-se que recente pesquisa  mostra que a população, diante do reinado de Fake News, confia majoritariamente em programas jornalísticos de TV (61%) e nos jornais impressos (56%). Rádio e site de notícias aparecem em seguida, com 50% e 38% de confiança, respectivamente. As redes sociais, WhatsApp e Facebook, estão com baixíssima reputação em meio à crise pandêmica. Apenas 12% das pessoas consultadas confiam nas informações compartilhadas nessas plataformas.

Então, o que devemos fazer diante desse cenário complexo e confuso? Resta-nos assumir uma postura verdadeiramente crítica, pesquisar a fundo, checar as informações em fontes confiáveis, ouvir os especialistas (há boas referências até mesmo nas redes), além de nos atentar aos comunicados da OMS e do Ministério da Saúde. Hora ou outra, o comércio abrirá e nossas vidas voltarão à normalidade. Precisamos, no entanto, continuar vigilantes, evitar contatos físicos até que essa pandemia seja debelada e reforçar, definitivamente, os nossos hábitos de higienização.

No mais, é preciso manter a calma (preservando a nossa saúde mental), agir com absoluta cautela, proteger nossas famílias e nossos idosos e confiar que tudo passará. É momento também de pensarmos na vida que temos levado, o que temos feito de nossa existência, como temos nos relacionado com nossa família, amigos e a sociedade, o quanto temos consumido e quais são os valores que norteiam a nossa vida.

Os italianos são, até agora, o povo mais atingido pela pandemia, mas eles não perderam as esperanças e se mantêm resilientes. Que o lema que mais se vê na península itálica, “Andrà Tutto Bene!” (vai ficar tudo bem), seja capaz de nos tranquilizar a alma e esperançar nossos corações.

Sim, tudo vai ficar bem!

* Alisson Diego Batista Moraes, advogado, MBA em Gestão Empresarial e Bacharel em Filosofia pela UFMG. Foi prefeito de Itaguara entre 2009 e 2016.

** Artigo publicado pelo Jornal Minas, Itaguara, março/abril de 2020.

domingo, 22 de março de 2020

Em tempos de pandemia é preciso relembrar Boccaccio e Bruegel



Em tempos pandêmicos, há mais um relato literário que nos mostra como, no passado, foi tudo muito pior. Também nos rememora o quão importante é seguirmos as recomendações sanitárias.

O poeta e crítico literário florentino, Giovanni Boccaccio (1313-1375), viveu o auge da peste bubônica (também conhecida por peste negra ou “a peste”) e a relatou do seguinte modo:

“A Peste, em Florença, não teve o mesmo comportamento que no Oriente. Neste, quando o sangue saía pelo nariz, fosse de quem fosse, era sinal evidente de morte inevitável. Em Florença, apareciam no começo, tanto em homens como nas mulheres, ou na virilha ou na axila, algumas inchações. Algumas destas cresciam como maçãs; outras, como um ovo; cresciam umas mais, outras menos, chamava-as o populacho de bubões. Dessas duas referidas partes do corpo logo o tal tumor mortal passava a repontar e a surgir por toda parte.”

(...)

E a peste ganhou maior força porque dos doentes passava aos sãos que com eles conviviam, de modo nada diferente do que faz o fogo com as coisas secas ou engorduradas que lhe estejam muito próximas. E mais ainda avançou o mal: pois não só falar e conviver com os doentes causava a doença nos sãos ou os levava igualmente à morte, como também as roupas ou quaisquer outras coisas que tivessem sido tocadas ou usadas pelos doentes pareciam transmitir a referida enfermidade a quem as tocasse.

É espantoso ouvir aquilo que devo dizer: se tais coisas não tivessem sido vistas pelos olhos de muitos e também pelos meus, eu mal ousaria acreditar nelas, muito menos descrevê-las, por mais fidedigna que fosse a pessoa de quem as ouvisse. Digo que era tamanha a eficácia de tal peste em passar de um ser a outro, que ela não o fazia apenas de homem para homem, mas fazia muito mais (coisa que indubitavelmente ocorreu várias vezes), ou seja, o animal não pertencente à espécie do homem que tocasse as coisas do homem que adoecera ou morrera dessa doença não só adoecia também como morria em brevíssimo espaço de tempo. Tive, entre outras, a seguinte experiência, coisa vista com meus próprios olhos, como há pouco disse: um dia tendo os farrapos de um pobre homem morto da doença sido jogados na via pública, dois porcos se aproximaram deles e, conforme é seu costume, primeiro os fuçaram e depois os tomaram entre os dentes para sacudi-los; em pouco tempo, como se tivessem tomado veneno, após algumas contorções ambos caíram mortos sobre os trapos que em má hora haviam puxado.  (BOCCACCIO, Giovanni. Decameron. São Paulo: Abril Cultural.

A infecção bacteriana era causada pelo bacilo Yersinia pestis, disseminada pelo contato com pulgas infectadas. Calcula-se que cerca de um terço da população europeia tenha sido dizimada, no século XIV, por causa da peste - algo em torno de 100 milhões de mortes.

O último grande surto ocorreu na França, em 1720. Nos tempos atuais, casos de peste são raros. Com a melhora da higiene nas cidades, diminuiu o número de ratos e pulgas que antigamente espalhavam a doença.

PS: Além dos literatos, os pintores também retrataram a temível peste. Uma das mais célebres imagens é o quadro “O Triunfo da morte”, obra do holandês Pieter Bruegel, de 1562 (localizada, atualmente, no Museu do Prado em Madri).

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Tempo de desintoxicação

Certa vez, um amigo me disse, após ouvir atenta e empaticamente, as minhas lamúrias a respeito das parvidades da vida pública, que a política, definitivamente, não era um ambiente para pessoas de bem como eu. “Larga isso, não faz bem a pessoas de caráter, não lhe faz bem”. Um conselho assaz exagerado em meu entendimento. Discordei prontamente e ponderei a ele que a política, se exercida com dignidade e princípios, é uma nobilíssima missão humana, como muito bem destacou o filósofo Aristóteles (384-322 a.C.), um dos mais importantes filósofos de todos os tempos e o que mais influenciou a nossa sociedade.

O pensador estagirita dizia que, tanto a política quanto a ética (que estariam, segundo ele, num mesmo sistema), possuíam o mesmo objetivo: levar-nos para um caminho virtuoso a fim de alcançar a felicidade. Em que consistiria esse caminho? De acordo com Aristóteles, em seus escritos sobre ética, a verdadeira finalidade da vida humana se expressa no atingimento de uma “vida boa”. Para ele, ser feliz e ser útil à comunidade eram dois objetivos que se justapõem. Isto é, ambos estavam fortemente manifestos na atividade pública. O governo mais satisfatório, ponderava, seria "aquele em que cada um encontra o que necessita para ser feliz".

"Toda comunidade se forma com vistas a algum bem, pois todas as ações de todos os homens são praticadas com vistas ao que lhes parece um bem; se todas as comunidades visam a algum bem, é evidente que a mais importante de todas elas e que inclui todas as outras, tem mais que todas, este objetivo e visa ao mais importante de todos os bens; ela se chama cidade e é a comunidade política" (Pol., 1252a).

Aristóteles nos convoca para a vida pública, virtuosa, coletiva, almejando sempre a felicidade geral, o bem de toda a comunidade, o que também acarretaria, por óbvio, na felicidade individual. O bem comum consiste na ideia central do pensamento político de Aristóteles.

A prática da atividade política em nossos tempos, sobretudo no Brasil, não tem se aproximado do que apregoou o marcante pensador do século V antes de Cristo. Assistimos a tudo na política, menos a legítimos interesses coletivos, afastados da passionalidade doentia e do patrimonialismo enraizado em nossa cultura. Em poucas palavras, pode-se dizer que a política em nossos tempos é tóxica!

Ciro Gomes disse numa entrevista, salvo engano em 2015, que precisava de um tempo para se “desintoxicar da política”. Ficou um período afastado da cena pública brasileira, sem se candidatar a nada (voltou no ano passado quando se candidatou à presidência da república, acabando em terceiro lugar).

Ciro, um político calejado, que já foi prefeito de capital, ministro da Fazenda e da Integração Nacional, secretário de estado, governador e deputado sabe muito bem do que fala. Reconhece, pois, que a política não é um ambiente harmonioso e salutífero (tal qual idealizado por Aristóteles), onde os políticos se apropriem dos nobres propósitos aristotélicos da virtude, do bem comum e da ética. Pelo contrário, trata-se de uma arena tóxica, altamente peçonhenta e contaminada por desvirtudes de toda sorte.

Não quero dizer que todos as pessoas de caráter devem deixar a política. Muito pelo contrário, se o fazem, estarão entregando uma das mais nobres atividades humanas aos maliciosos.  O que quero demonstrar cabalmente é que é impossível para alguém de bom caráter não sofrer (e muito) neste ambiente.

Tomemos dois exemplos: Quando ainda era prefeito, recebi um processo criminal ambiental por ter, teoricamente, mantido um “lixão” no município – para a minha grande surpresa, porque foi justamente em minha gestão que demos um fim ao incômodo lixão (que existiu por décadas em Itaguara), recuperamos a área, licitamos o serviço de coleta e o profissionalizamos repassando ao SAAE, tal como preconiza a lei 11.445 de 2007. Mas o Ministério Público não entendeu assim e me denunciou à Justiça. Tive de contratar advogado e ficar com esse peso em minha proba vida pública por um bom tempo. Alguns meses após a denúncia ofertada, conseguimos vencer na justiça e os desembargadores não acataram a ação proposta pelo MP.

O outro exemplo: um prefeito de uma cidade média de Minas Gerais foi preso numa operação midiática da Polícia Federal por, supostamente, ter desviado vultosos recursos públicos. Foram muitas manchetes de jornal, matérias de televisão e exposição de todo tipo (acho que o caso chegou até mesmo a ser transmitido no Jornal Nacional). Ficou uma semana detido. Depois reassumiu o cargo e até se candidatou à reeleição (foi corajoso, mas acabou perdendo nas urnas). Quase 10 anos depois dessa famigerada ação que arruinou a sua vida política e pessoal, o ex-prefeito foi absolvido. Sim, absolvido! Na verdade, ele não tinha qualquer envolvimento com os desvios que aconteceram no município. Após a absolvição, não vi uma nota sequer nos jornais, nem uma matéria de poucos segundos na TV. Ao encontrá-lo, outro dia nos corredores de um shopping, deparei-me com um homem completamente desolado e que ainda pensa em voltar a ocupar cargos públicos para, segundo ele, “lavar a sua honra”.

A grande verdade é que bons políticos, aqueles que não se deixam levar pela vaidade, pelo poder, pelo orgulho ou pelo dinheiro, são, lamentavelmente, minoritários. Mas eles existem e, inevitavelmente, sofrem muito na vida pública, por causa de generalizações impertinentes, ações propostas pelo MP sem a devida apuração prévia, infâmias de toda ordem e por não coadunarem com as práticas costumeiras do meio político. Conheço dezenas de políticos eficientes e honestos que abandonaram a vida pública por essas razões.

Então, qual seria a saída? Devemos, uma vez mais, recapitular Aristóteles que evidencia a importância da educação para engendrar o prolífico caminho para a vida pública. É papel da educação formar adequadamente o caráter do aluno. Ninguém nasce virtuoso, o filósofo destaca. É preciso aprender a virtude e praticá-la. Não há virtude sem o hábito, sem a prática diária, ou seja, o exercício virtuoso e sua formação precisam se dar em casa, na escola e em sociedade. Se, por um lado, constatamos que temos falhado sistematicamente enquanto sociedade na construção de uma política virtuosa, por outro, também é possível vislumbrar a saída: é pela educação, pela prática da virtude e pela vida comunitária que melhoraremos a prática política.

Uma das melhores analogias que encontrei é a do bombeiro. Esse profissional sabe que terá de enfrentar fumaça altamente danosa a seus pulmões, sabe que pode se queimar, sabe que pode até mesmo morrer, mas não deixa de entrar num prédio em chamas para salvar uma vida. A política é mais ou menos assim.

É bom lembrar que um bombeiro, após muito tempo neste trabalho árduo, precisa descansar, cuidar de seus pulmões e reabilitar a sua saúde física e mental antes de pensar em voltar a debelar labaredas. Após este tempo, pode ser que volte à ativa. Pode ser que não. Na vida, não há apenas escolhas, há contingências.

* Alisson Diego Batista Moraes, 34, advogado, possui MBA em Gestão de Empresas pela FGV e bacharelado em Filosofia pela UFMG. Foi prefeito de Itaguara entre 2009 e 2016 e vereador entre 2005 e 2008.

** Artigo publicado pelo Jornal Minas, Itaguara/MG, dezembro de 2019.

sábado, 28 de setembro de 2019

Momento de partida e novos caminhos no horizonte

Após 15 anos de vida pública, três deles servindo à gestão municipal itaunense, chega o momento de enfrentar novos desafios e explorar novas veredas.

Agradeço, de coração, ao povo de Itaúna pela receptividade, aos colegas agentes públicos, ao prefeito Neider Moreira e ao vice-prefeito Fernando Franco.

Pude, nesta generosa caminhada pelas veredas itaunenses, refinar a minha percepção sobre a vida, a política e a gestão pública. Aprendi muito.

Minha sincera gratidão, comuna brilhante!

A você que me lê, me acompanha e me incentiva, o meu mais sincero abraço de gratidão e de esperança. Que nunca nos falte amor e disposição em melhorar o Brasil, nosso país tão amado. Que pensemos diferente, mas que nunca percamos a capacidade de dialogar e de convergir no amor sincero (distante do patriotismo rançoso) e abnegado à nação brasileira e à "patriazinha", nossa Minas. É esse amor que sempre me guiou na vida pública.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Obrigado, Assemae

Alisson Diego com o presidente da Assemae, Aparecido Hojaij.

Participei na capital federal de minha última reunião como Diretor de Assuntos Jurídicos da Assemae - Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento, função que ocupei representando Itaúna nos últimos anos.

Agradeço ao presidente Aparecido Hojaij e à diretoria da entidade pela convivência e aprendizado adquirido. O saneamento é um eixo programático essencial para o Brasil e a Assemae é uma entidade absolutamente fundamental no fortalecimento do saneamento de qualidade, o que traz benefícios concretos a todos os brasileiros.

Conselho Diretor Nacional da Assemae. 25.09.2019

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Ser santo: a vocação à santidade*

Parece algo muito distante pensar em santidade. É, para muitos, uma missão praticamente inalcançável ser santo. Isso porque a maioria de nós pensa que santos são seres humanos idealizados, imaculados, cuja vida baseia-se numa perfeição moral permanente e inatacável.

Tratam-se, entretanto, de falsos paradigmas. Para quebrá-los, há muitos exemplos, vale lembrar a história de um dos mais destacados nomes do Cristianismo: Agostinho de Hipona, o nosso Santo Agostinho, Doutor da Igreja. Agostinho vivera boa parte de sua vida totalmente entregue à luxúria e aos prazeres, negando qualquer possibilidade de seguir a Deus e muito menos a Igreja. Sua perseverante mãe, Mônica, não se cansava de rezar pedindo a conversão do filho. O que parecia praticamente impossível aconteceu, quando, ao maravilhar-se com as pregações do bispo Ambrósio,

Agostinho sentiu-se tocado e convenceu-se, por meio da razão, da existência de Deus e da necessidade de se engajar. A partir de sua conversão, Agostinho escolheu o caminho da santidade. Tornou-se sacerdote, bispo de Hipona e escreveu obras teológicas e filosóficas extraordinariamente magníficas. Agostinho tornou-se santo, sua mãe e o bispo Ambrósio também. Santo Agostinho, Santa Mônica e Santo Ambrósio são, atualmente, três venerados santos de nossa Igreja, lembrados por todos os cantos do planeta.

A história de Santo Agostinho é apenas um exemplo. Assim como ele, uns se convertem pela razão, enquanto outros passam a seguir a Deus pela emoção, pelos caminhos naturais ou pelos descaminhos da vida. Fato é que não há uma regra, não há um paradigma. Agostinho é o exemplo maior de que a santidade pode ser alcançada quando há disposição e vontade.

Por fim, há de se lembrar das palavras iluminadas do Santo Padre, o Papa Francisco, na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate (Alegrai-vos e Exultai) em que aborda de maneira clara a questão da santidade no mundo contemporâneo:

“Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais”.

As palavras de Francisco são iluminadoras e demonstram, de forma clara, que todos nós podemos seguir o caminho da santidade, basta exercer a bondade e a justiça. Em suma, é seguir os ensinamentos de Jesus e agir cotidianamente em prol da comunidade, vencendo o egoísmo e praticando o amor. Vamos começar?

* Frei Diego de Frazão, religioso dominicano português. Missionário na região amazônica.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

O que temos a ver com o que acontece na Amazônia?

Imagens de satélites da Nasa atestam focos de incêndio. Agosto de 2019


Já de início pode-se responder convictamente à pergunta-título deste modesto artigo: Temos, como brasileiros e, sobretudo, como seres humanos, tudo a ver com o que acontece na Amazônia e isso nos deve interessar por várias razões. Limito-me a expor três delas a seguir.

Primeiramente, parto do pressuposto de que nenhum de nós quer a extinção da humanidade. Parece um tanto quanto extremismo dizer que a humanidade corre riscos de extinção, mas, quando se analisa bem a fundo a questão, é disso que se trata. Em agosto do ano passado, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, órgão das Nações Unidas), reunido em Incheon, na Coreia do Sul, alertou sobre as consequências drásticas do aquecimento global para a humanidade, em um vasto documento, elaborado pelos maiores especialistas do mundo.

Para aqueles que não acreditam em mudanças climáticas, recomendo fortemente a leitura de um livro que acabei de ler, fruto de uma extensa pesquisa. A obra se chama “A terra inabitável: Uma história do futuro”, de autoria do jornalista norte-americano David Wallace-Wells, editor da New York Magazine. No livro, Wells explana acerca dos danos ao meio ambiente e a necessidade de se agir rapidamente em prol da natureza para tentar minimizar uma verdadeira catástrofe climática.

Em recente entrevista, o escritor declarou: “As condições nas quais viveremos serão absurdamente diferentes. Tudo se transformará traumaticamente. Os impactos em outras espécies serão mais dramáticos ainda, já que a maioria deles é muito menos adaptável do que nós (…) Tudo que conhecemos será alterado e, em muitos casos, destruído. E é isso que mais me assusta: o fato de que tudo que conheço está sob ameaça. Isso nos chama à ação. Tudo que amamos vai mudar.”

E o que propriamente a floresta amazônica tem a ver com o aquecimento global? A Amazônia é o habitat mais dinâmico do planeta. A maior floresta tropical do mundo possui a mais rica biodiversidade da Terra, é capaz de armazenar uma quantidade imensa de carbono, ajudando na desaceleração do aquecimento global, destacam os cientistas.

Em segundo lugar, os incêndios na região amazônica nos importam a todos os brasileiros porque possuímos o inarredável dever de cuidar de nosso patrimônio, que possui um valor universal, mas é nosso. A selva amazônica permeia vários países, mas sua maior parte encontra-se em território brasileiro e, à medida que cuidamos mal da maior floresta do planeta, isso por si só justificaria arroubos de planos de invasão de potências estrangeiras – mesmo não concordando em hipótese alguma com quaisquer justificativas dessa natureza, é com base nisso que outras nações poderiam se aventurar por nosso território e não devemos dar qualquer chance a essa possibilidade que fere de morte a soberania nacional.

Por fim e não menos importante, a terceira justificativa se dá por uma razão bastante óbvia: porque somos humanos e como membros da humanidade, pressupõe-se que somos dotados de sensibilidade, ou seja, somos (ou devemos ser) capazes de sentir, de nos compadecer com qualquer sofrimento alheio. Sofrimento que não se restringe a membros de nossa espécie. Além da flora, milhares de animais foram mortos com as queimadas criminosas na Amazônia, animais que sentem dores e que, por possuírem sistema nervoso central, fazem com que as suas dores sejam muito similares à dor humana. Não imagino presenciar um ser humano ou um animal queimando em chamas sem sentir o mais alto grau de compaixão.

Os brasileiros já compreendemos tudo isso, pelo menos a maioria de nós. Segundo dados recentes do Instituto DataFolha, para 75% dos brasileiros, o interesse internacional na Amazônia é legítimo e a floresta está correndo riscos. Defendem 66% dos entrevistados que o Brasil aceite recursos estrangeiros para aplicar na região. Ressalte-se ainda que, para 51% dos entrevistados, a gestão do presidente Bolsonaro no combate ao desmatamento e a queimadas é considerada ruim ou péssima.

Lamentavelmente, a cada ano as queimadas têm ficado cada vez mais comuns e podem ser associadas aos desmatamentos criminosos. É uma tragédia protagonizada diariamente e acentuada em níveis assustadores. Para se ter uma ideia, para a derrubada das árvores, os criminosos utilizam escavadeiras com correntes empurrando-as para o chão. Em regra, isso tem acontecido na Amazônia inteira durante décadas para a expansão das áreas agricultáveis. Nos últimos anos, o assassinato da floresta acelerou devido a uma ofensiva por desenvolvimento. Governos anteriores foram incapazes de lidar efetivamente com o problema, mas, ao menos, não incentivavam essa prática. O discurso do presidente Bolsonaro deliberadamente tem incentivado essas ações. Basta fazer uma busca rápida pela internet para se inteirar das declarações, no mínimo, muito imprudentes de Bolsonaro acerca deste temática, desde quando sequer era candidato ao cargo que atualmente ocupa.

A verdade nua e crua, inclusive revelada por uma recente reportagem da BBC, é que as unidades de conservação onde a floresta está inserida, estão sendo invadidas e destruídas a passos largos, por gente que está marcando lotes, grilando terra. “Os números do desmatamento podem ser muito maiores do que imaginamos”, disse uma fonte à reportagem. É quase impossível imaginar, mas os dados mostram que uma área equivalente a um campo de futebol é destruída a cada minuto. Por dia, são 2 mil campos de futebol ou 16 mil hectares de florestas destruídos.

Além dessas razões expostas, há outras centenas que não caberiam aqui neste breve artigo de opinião. Sublinho que sou favorável ao desenvolvimento sustentável daquela região, empreendido com absoluto respeito ao meio ambiente, aos indígenas e às populações locais, entretanto, o que se tem visto atualmente por lá é crime da pior espécie, ecocídio mais abjeto possível e o mais cruel e covarde extermínio da nossa flora e da nossa fauna.

É, por fim, uma questão ética o cuidado com o meio ambiente, afinal, a ‘casa comum’ - expressão de Papa Francisco na celebrada Encíclica Laudato si; e relaciona-se com a herança que cada geração recebe de seus antecessores, possuindo, pois, a tarefa de transmitir às gerações futuras sempre algo melhor. As gerações vindouras sempre nos rememoram que o amanhã deve ser olhado com esperança e atitude.

O próprio Pontífice fez questão de saudar, em junho deste ano, os participantes do encontro Internacional “A Doutrina Social da Igreja, das raízes à era digital” com a seguinte frase: “Que o desenvolvimento de uma ecologia integral, torne-se sempre mais uma prioridade a nível internacional, nacional e individual.

A posição do papa é a mais coerente possível. Só há uma saída para a humanidade: a ecologia integral.

* Alisson Diego Batista Moraes

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Conselho Municipal de Defesa Civil toma posse

COMDEC é responsável pela coordenação de ações de defesa civil no Município 

Foto: Ascom PMI 08.08.19

O Conselho Municipal de Defesa Civil – COMDEC- está reestruturado em Itaúna. A recomposição e fortalecimento do órgão, são conquistas importantes. Tomaram posse em solenidade na manhã desta quinta-feira, 8 de agosto, os novos membros para compor o atual Conselho, biênio 2019/2021, procedidos em conformidade com o estabelecido no artigo 8º da Lei nº 4.174/07 e artigo 5º do Decreto nº 4.994/07.

O Conselho tem entre os principais objetivos: Coordenar e executar as ações de defesa civil; Manter atualizadas e disponíveis as informações relacionadas à defesa civil; Elaborar e implementar planos, programas e projetos; Elaborar Plano de Ação anual visando o atendimento das ações em tempo de normalidade, bem como, das ações emergenciais, com a garantia dos recursos no Orçamento Municipal.

Alisson Diego, secretário de Planejamento e Governo do município, presidiu a reunião e destacou o papel da defesa civil: "Desde 2017, a Prefeitura reestruturou a Defesa Civil municipal, dotando-a de estrutura e empoderando-a como um essencial órgão intersetorial que não prescinde do apoio tanto da sociedade civil organizada quanto do poder público. Itaúna possui uma situação bastante excepcional comparando-se ao nosso país. Isso não quer dizer que devamos nos sentir confortáveis, mas sim que devemos permanecer trabalhando para que a cidade continue sendo referencia em políticas públicas, qualidade de vida da população, planejando e minimizando riscos e catástrofes".


Está ainda, entre as principais funções, manter o órgão central do Sistema Nacional de Defesa Civil (SINDEC) informado sobre as ocorrências de desastres e atividades; Executar a distribuição e o controle de suprimentos necessários em situações de desastres; Implantar o banco de dados e elaborar os mapas temáticos sobre ameaças, vulnerabilidade e riscos de desastres; Estar atenta às informações de alerta dos órgãos de previsão e acompanhamento para executar planos operacionais em tempo oportuno.

O COMDEC é formado por representantes vinculados aos órgãos governamentais e da sociedade civil organizada. A Coordenadora Municipal de Defesa Civil, Márcia Aparecida Moreira e Souza, será a presidente do novo Conselho. A formação do Conselho, com representantes de diferentes instituições e setores da sociedade, fortalece a atuação do Governo e minimiza os efeitos danosos das forças naturais, além de unir forças para implantar um banco de dados eficiente e completo com objetivo de elaborar os mapas temáticos sobre ameaças, vulnerabilidade e risco de desastres.

Composição Representantes de órgãos Governamentais: 

a) Representante da Câmara Municipal Lacimar Cesário da Silva (reconduzido)

b) Representante da Polícia Civil / 3a Delegacia de Polícia Civil 1º DRPC/7º DEPPC Hebert Roberto Leite Oliveira

c) Representante da Polícia Militar de Minas Gerais/ 51a Cia. de Polícia Militar Tenente PM Sérgio Wallace Januário

d) Representante do Poder Judiciário/ Fórum de Itaúna Gláuber Lúcio de Souza (reconduzido)

e) Representante do Corpo de Bombeiros Militar / MG 2ª Pelotão da 2º Cia / 10º Batalhão de Bombeiro Militar 1. Sargento Anderson Mauro Costa de Oliveira,

f) Representante da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Kenderson Antunes Andrade

g) Representante da Secretaria Municipal de Saúde Marilange Ferreira Borges

h) Representante da Secretaria Municipal de Assistência Social Mariana Silveira Aquino

i) Representante da Secretaria Municipal de Regulação Urbana Gláucio Martins de Souza (reconduzido)

j) Representante do Serviço Autônomo de Água e Esgoto – SAAE Antônio Fernandes Quadros

Representantes de órgãos Não Governamentais: 

a) Representante do Rotary de Itaúna “Cidade Universitária” José Alves Ferreira

b) Representante da Loja Maçônica “Mestre Chauer Chequer” Elton Moreira

c) Representante da Paróquia de Sant'Ana Everaldo Carneiro

d) Representante interino da Associação dos Evangélicos de Itaúna – ASSEVI Israel Antônio Lúcio Neto

e) Representante do Centro de Desenvolvimento Social e Empresarial CDE Afonso Henrique da Silva Lima.

* Foto e texto: Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Itaúna

sexta-feira, 19 de abril de 2019

A sentimentalidade poética disruptiva de João da Cruz

Por mais que minha fé, por vezes, seja fragilmente cambaleante e o agnosticismo insista em guiar-me a razão, fato é que possuo um respeito absolutamente “oblato” à Semana Santa e ao que se reverencia nesta data: a caminhada rumo à morte de cruz e gloriosa ressureição de Nosso Senhor Jesus Cristo, o ungido salvador de toda a humanidade. 

Neste sentido, quero compartilhar um hábito que tenho mantido ao longo dos últimos 18 anos (desde que participei de uma encenação teatral na Semana Santa): na sexta-feira da paixão, dedico-me à leitura de poemas “religiosos” e “transcendentais”. 

Independentemente da crença em si, ou mesmo da estética poética, debruço-me sobre esse gênero poético para sentir, pois são, via de regra, composições bastante carregadas de uma singular sentimentalidade. O que chamo atenção aqui é o rito, os versos desejantes e a manifestação humana do sagrado. 

Um dos constantes poetas desse dia marcante tem sido o célebre espanhol São João da Cruz (nascido João de Yepes em 1542 e morto em 1591), considerado “doutor místico” pela Igreja Católica (assim proclamado pelo Papa Pio XII em 1926). 

Sua vida foi marcada, por um lado, pela dor infligida-lhe pela dura realidade externa, e por outro pela alegria da descoberta crescente de uma vasta e luminosa realidade interior. 

Para São João da Cruz, não se pode “explicar com palavras o que com palavras não se pode exprimir”. Ele sente de uma maneira comovente e se vale dessa sentimentalidade disruptiva para compor versos arrebatadores. 

Não é fácil compreender os versos místicos dele sem acompanhamento de comentadores, mas ouso compartilhar aqui uma composição (para se ter a ideia da força transcendental-semântica): “Chama de Amor Viva” - “Canções da alma na íntima comunicação de união de amor com Deus” (Granada 1582- 1584): 

1. Oh! chama de amor viva 
Que ternamente feres 
De minha alma no mais profundo centro!  
Pois não és mais esquiva, 
Acaba já, se queres, 
Ah! Rompe a tela deste doce encontro. 

2. Oh! cautério suave! 
Oh! regalada chaga! 
Oh! branda mão! Oh! toque delicado 
Que a vida eterna sabe, 
E paga toda dívida! 
Matando, a morte em vida me hás trocado. 

3. Oh! lâmpadas de fogo 
Em cujos resplendores 
As profundas cavernas do sentido, - 
Que estava escuro e cego – 
Com estranhos primores 
Calor e luz dão junto a seu Querido! 

4. Oh! quão manso e amoroso  
Despertas em meu seio 
Onde tu só secretamente moras:  
Nesse aspirar gostoso, 
De bens e glória cheio, 
Quão delicadamente me enamoras! 

Chama de Amor Viva – Fonte: SCIADINI, Patrício.(Org.). Obras completas. 7. ed., Petrópolis: Vozes, 2002, p. 37 e 38. A fotografia: Escultura de São João da Cruz, na Igreja das Carmelitas Descalças, em Sevilla, na Andaluzia. Obra de Pedro Roldán.