terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Desafios Fiscais no Brasil: entre o populismo fiscal e a reoneração responsável

* Artigo originalmente publicado no Conjur em fevereiro de 2024.



Fernando Haddad fala sobre reoneração da folha de pagamento
Agência Senado

Ao longo de anos, o Brasil tem enfrentado persistentes desafios fiscais, frequentemente marcados pelo surgimento do populismo e por práticas eleitoreiras repetidas, em detrimento da responsabilidade orçamentária. Um exemplo notório desse padrão é a gestão fiscal durante o mandato de Jair Bolsonaro, um período em que a concessão de subsídios fiscais atingiu a expressiva cifra de R$ 80,95 bilhões, destacando-se particularmente no ano de 2022, ano eleitoral não por coincidência. 

As leis complementares 192 e 194 de 2022 impuseram severas perdas aos estados e municípios brasileiros, resultando em reduções estruturais nos orçamentos estaduais e municipais, retirando, em cada exercício fiscal, aproximadamente R$ 100 bilhões de arrecadação de ICMS. Isso representa uma clara violação ao pacto federativo e uma medida eleitoreira lamentável, que o judiciário ainda precisa examinar para responsabilizar o ex-presidente e seus seguidores. 

Incentivos foram direcionados a setores como petróleo, carvão mineral e gás natural, delineando um quadro que exemplifica a lógica dos lobbies na administração federal e a inconsequente alocação de recursos públicos nas mãos daqueles setores que mais brigam para conquistar seus interesses em detrimento do conjunto do país. 

Diante de um cenário desafiador, caracterizado por um orçamento altamente restrito e uma herança fiscal comprometida, o Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem adotado, desde o início de sua gestão, uma abordagem responsável e comprometida com os princípios republicanos. Iniciou, em 2023, o processo gradual de reversão das desonerações, ciente dos erros do passado. 

As medidas de reoneração implementadas até o momento foram conduzidas de maneira conscientemente gradual, considerando as resistências políticas e os lobbies presentes no Congresso Nacional. Este ritmo, embora não acelerado, reflete uma resposta pragmática e necessária para enfrentar as demandas de um ambiente econômico adverso. O compromisso de Haddad em lidar com as dificuldades orçamentárias, aliado à sua postura republicana, destaca-se como uma estratégia consciente e focada na estabilidade fiscal do país. 

A reoneração completa, incluindo um aumento de 12,5% no ICMS sobre gasolina, diesel e gás de cozinha, representa uma ação corajosa para equilibrar as contas públicas. É crucial destacar a compreensão federativa de Haddad ao evitar impor aos estados e municípios as consequências das desonerações, levando em consideração as dificuldades financeiras enfrentadas pela maioria deles. 

Nesse contexto, a proposta de reoneração da folha de pagamento, também defendida pelo Ministro Haddad, ganha relevância. Um estudo recente do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas e Desenvolvimento do Cedeplar (Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Faculdade de Ciências Econômicas) da UFMG. O estudo questiona a eficácia da desoneração, fortalecendo a posição do governo na busca pela estabilidade financeira. A desoneração da folha mostrou-se inadequada para promover empregos e salários de forma consistente, representando apenas 17% do emprego formal do setor privado em 2021. 

A disparidade entre a política de desoneração e seu real impacto na economia destaca a premente necessidade de uma revisão criteriosa. A proposta de Haddad para a gradual reoneração da folha de pagamento emerge como uma medida sensata, alinhada à busca pelo equilíbrio fiscal em 2024, conforme estabelecido pela Medida Provisória Nº 1.202, de 28 de dezembro de 2023. Em um momento importante para a economia brasileira e o equilíbrio das contas públicas, a reoneração, tanto dos combustíveis quanto da folha de pagamento, representa uma resposta necessária e corajosa. A priorização da estabilidade fiscal deve sobrepujar iniciativas eleitoreiras, garantindo um futuro mais robusto para o país e restaurando a capacidade do governo de retomar os investimentos. 

Neste sentido, merece destaque uma pesquisa do Ipea, com base nos dados da PNAD Contínua do IBGE entre 2012 e 2022, revelando que 47 setores apresentaram um saldo positivo de 13 milhões de postos de trabalho. Surpreendentemente, 52% desse incremento originam-se de setores não beneficiados pela desoneração, como saúde, comércio, alimentação e educação. Entre os 40 setores que experimentaram uma diminuição no número de empregos, 10 estão abrangidos pela chamada "política de desoneração". Isso evidencia que o esforço setorial na geração de empregos não se alinhou de forma eficaz à desoneração, destacando suas limitações como estratégia. A necessidade de uniformidade na tributação para todos os setores emerge como uma questão crucial de equidade e promoção da eficiência na economia. Certamente, a distinção entre incentivos fiscais e privilégios tributários não é uma tarefa tão simples, e, em última análise, a sociedade é a principal prejudicada. O resultado disso é uma erosão constante das finanças públicas em troca de supostos benefícios que nunca são compartilhados de maneira equitativa. 

A defesa da continuidade de políticas de desoneração, ao privilegiar setores específicos, contraria o princípio da isonomia tributária e negligencia as implicações para a totalidade da economia, configurando-se como um desserviço ao país. A estrutura tributária brasileira, incluindo a tributação sobre a folha de pagamentos, é inquestionavelmente regressiva e ineficiente, situando-se entre as mais problemáticas do mundo. Estender a desoneração apenas agravaria essa situação. 

Para promover avanços significativos em direção a um sistema tributário mais equitativo, torna-se fundamental iniciar imediatamente a implementação e regulamentação infraconstitucional da Reforma Tributária, ao mesmo tempo em que se redesenha o Imposto de Renda para Pessoa Física. A complexidade desafiadora representada pela dívida bruta, que absorve 6% do Produto Interno Bruto (PIB) em juros, e a renúncia fiscal de aproximadamente R$ 10 bilhões decorrente da desoneração da folha de pagamento estabelecem uma relação causal clara: uma redução na arrecadação resulta no aumento da dívida. Esse acréscimo na dívida, por sua vez, acarreta em taxas de juros mais elevadas, desencadeando um ciclo de aumento de impostos para cobrir os encargos financeiros, encarecimento do crédito, redução dos investimentos e, por conseguinte, a diminuição, em vez do crescimento, dos postos de trabalho. Nesse contexto, é crucial direcionar esforços coordenados para enfrentar esses desafios, promovendo uma reforma tributária eficaz e mitigando os impactos negativos sobre a economia e o emprego. 

Em um panorama fiscal desafiador, no qual as intricadas relações entre políticas tributárias e desenvolvimento econômico se entrelaçam, as ações do Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, emergem como um farol de responsabilidade e comprometimento com a estabilidade jurídica e fiscal do país. Ao conduzir a gradual reoneração e buscar a equidade tributária, Haddad demonstra uma abordagem política, jurídica e administrativamente consciente, reconhecendo a importância de alinhar as políticas públicas aos princípios republicanos. Sua postura pragmática diante das resistências políticas, aliada à priorização da estabilidade fiscal, destaca-se como um exemplo de liderança que busca mitigar os efeitos negativos das práticas anteriores. Em tempos nos quais a responsabilidade fiscal e a astúcia política são essenciais, Haddad se destaca como uma figura central na busca por um futuro alvissareiro para o Brasil.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Industrialização tecnológica e sustentável: O caminho para o desenvolvimento nacional

Imagem: Geety Images



* Artigo originalmente publicado no site Sagarana Notícias em 15/01/2024


    O ano de 2023 assinalou um recorde notável na balança comercial do Brasil, com as exportações atingindo a cifra impressionante de US$ 323,7 bilhões. Este êxito é majoritariamente atribuído à consolidada parceria comercial com a China, que agora absorve aproximadamente 30% dos produtos brasileiros destinados ao mercado internacional, representando um aumento significativo em relação à última década, quando sua participação não ultrapassava os 20%. Esta mudança reflete uma alteração nas dinâmicas globais de comércio.

    É imperativo, entretanto, analisar este cenário com um viés crítico (no bom sentido da crítica), pois, apesar do sucesso evidente, há sérios indícios de vulnerabilidades na estrutura econômica do Brasil. O crescimento desproporcional das exportações para a China, enquanto as vendas para outros países, como os Estados Unidos, diminuíram, levanta preocupações entre os economistas. Eles apontam para os riscos associados à dependência excessiva de um único mercado. Mas esse não é o maior problema, haja vista a relação consistente entre os dois países nos últimos anos e a perspectiva de parcerias estratégicas.

    A grande questão é o cardápio exportador brasileiro, amplamente dominado pelas commodities. Setores como soja, minério de ferro e petróleo correspondem a impressionantes 37% das exportações de nosso país. Em comparação com 2006, quando esses produtos representavam menos de 10%, nota-se uma falta de diversificação na pauta exportadora, aumentando a vulnerabilidade do país a flutuações nos preços dessas commodities no mercado internacional - o que acontece com certa frequência.

    O setor agropecuário, especialmente nos segmentos de soja e proteínas de carne bovina, suína e de frango, também registrou marcas históricas em 2023, desempenhando um papel significativo na balança comercial. No entanto, ressurge a necessidade de questionar a ênfase excessiva nessas áreas e sua relação com a sustentabilidade ambiental. A dependência de práticas que podem resultar em impactos negativos a longo prazo, como desmatamento e intensificação no uso de agrotóxicos, exige uma abordagem ponderada. O fortalecimento do agronegócio, apesar de sua inquestionável potencialidade para a economia brasileira, deve ser acompanhado por uma estratégia de industrialização nacional.

    Neste contexto, emerge a necessidade premente de repensar a estratégia econômica do Brasil. O grande desafio é a industrializar o país de maneira inteligente e sustentável. A indústria, historicamente capaz de proporcionar melhores salários e agregar valor aos produtos, é vista como a chave para posicionar o Brasil estrategicamente entre as nações. O vice-presidente e atual ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, sabe muito bem disso e chegou a afirmar em sua posse no MDIC que os maiores desafios no cargo serão "fazer o setor expandir a sua participação no Produto Interno Bruno, ter iniciativas que visem preservar o meio ambiente e se aliar à justiça social". [1] Isso é um alento porque demonstra que o governo está atento à questão desde janeiro de 2023.

    Neste contexto, o governo brasileiro, por meio do MDIC, está forjando a nova industrialização em seis grandes pilares: 1. cadeias agroindustriais sustentáveis e digitais para a segurança alimentar, nutricional e energética; 2. complexo econômico industrial da saúde resiliente para reduzir as vulnerabilidades do SUS [Sistema Único de Saúde] e ampliar o acesso à saúde; 3. infraestrutura, saneamento, moradia e mobilidade sustentáveis para a integração produtiva e o bem-estar nas cidades; 4. transformação digital da indústria para ampliar a produtividade; 5. bioeconomia, descarbonização e transição e segurança energéticas para garantir os recursos para as futuras gerações; e 6. tecnologias de interesse para a soberania e a defesa nacionais. O plano é alvissareiro e, espero, seja implementado eficazmente. O grande desafio, aliás, é sua implementação efetiva, uma vez que não demanda apenas esforços governamentais, mas também a participação ativa da sociedade civil e a construção de consensos políticos de longo prazo - um grandioso desafio para o Brasil na atual conjuntura sociopolítica.

    É imperativo que o país formule e implemente um projeto ousado de desenvolvimento, alinhado com princípios de responsabilidade socioambiental. Este projeto deve abranger políticas que fomentem a inovação, a capacitação da mão de obra, a diversificação produtiva e a redução das desigualdades sociais.

    Apesar de os números recordes na balança comercial serem dignos de celebração, é crucial interpretá-los com um olhar crítico e de pensamento de longo prazo. A pergunta-chave que se impõe é: "Qual papel o nosso país quer e pode ocupar no mundo contemporâneo?" A hora é propícia para uma visão ousada e abrangente, capaz de posicionar o Brasil como protagonista na geopolítica contemporânea.

    O aumento do Valor Adicionado Industrial per capita emerge como um fator intrinsecamente vinculado a diversos benefícios socioeconômicos, desempenhando papel crucial no aprimoramento do Índice de Desenvolvimento Humano. A ascensão desse indicador está associada não apenas à redução da pobreza e do trabalho infantil, mas também à criação de empregos qualificados e melhor remunerados, conforme destacado pelo professor Paulo Gala (FGV e Banco Master).

    À medida que as economias se industrializam, a demanda por mão de obra qualificada se intensifica, incentivando a população a buscar educação e formação necessárias para acessar empregos bem remunerados. O aumento das receitas, o pagamento de mais impostos e o investimento crescente em educação tornam-se resultados tangíveis desse processo. Além disso, estudos demonstram que a industrialização também está intrinsecamente ligada à promoção da saúde. Inovações de alto nível e pesquisas científicas, incluindo desenvolvimentos em tratamentos médicos, vacinas e tecnologias médicas, são fomentadas em ambientes industrializados. Essa transformação econômica pode contribuir para a mitigação de efeitos ambientais adversos, como poluição, mudança climática, destruição de habitats e superexploração de recursos naturais.

    Industrializar o país nas bases da sustentabilidade, da tecnologia e da soberania é uma importantíssima estratégia para a construção de uma sociedade mais justa e sustentável e o posicionamento altivo do Brasil no concerto das nações.


Referências

[1] Alckmin toma posse como ministro e quer protagonismo da indústria no PIB. Carta Capital. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/politica/alckmin-toma-posse-como-ministro-e-quer-protagonismo-da-industria-no-pib/.

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

O desafio da reconstrução: um ano dos ataques à democracia brasileira

 * Artigo originalmente publicado no site Sagarana Notícias em 08/01/2024


Site do jornal americano NYT em 08/01/2023
denomina os golpistas como apoiadores do ex-presidente Bolsonaro

    Há precisamente um ano, o Brasil assistiu, atônito, aos ataques perpetrados contra as sedes dos três poderes em Brasília - fato que representou o ápice da polarização política que permeava o país há algum tempo e que se intensificara após a vitória de Lula sobre Bolsonaro nas eleições de outubro. A tentativa golpista foi uma emulação dos bolsonaristas aos radicais trumpistas, que haviam chocado o mundo ao protagonizarem uma invasão inédita ao Capitólio, em Washington, dois anos antes. Inconformados com as derrotas eleitorais, os extremistas optaram pela barbárie golpista. 

Naquela tarde do segundo domingo do ano, milhares de "manifestantes", vestindo verde e amarelo, alguns acampados em frente ao quartel-general do Exército na capital federal, dirigiram-se à Esplanada dos Ministérios, invadindo a praça dos Três Poderes, o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o STF (Supremo Tribunal Federal), perpetrando atos de vandalismo nos interiores desses edifícios. Mas não eram apenas "vândalos", tampouco "manifestantes". Atabalhoadamente ou não, eram golpistas (denominação utilizada pela própria PGR no envio das denúncias ao STF) envenenados pelo extremismo de direita, almejavam derrubar o governo brasileiro  democraticamente eleito e que tomara posse há apenas uma semana. 

    Os desdobramentos desse episódio ressoaram ao longo do ano, resultando em uma intervenção federal na segurança pública do Distrito Federal e na suspensão do mandato do governador Ibaneis Rocha (MDB). A Polícia Federal revelou a existência de uma minuta golpista na residência de Anderson Torres, ex-ministro de Bolsonaro, que foi preso uma semana após os ataques. 

    A reação aos eventos golpistas desencadeou a instauração de duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs): uma no Congresso Nacional e outra na Câmara Legislativa do Distrito Federal. Em janeiro, deputados distritais inauguraram a CPI, ouvindo 31 pessoas, incluindo autoridades da Segurança Pública, Exército e Gabinete de Segurança Institucional (GSI). No mês de maio, o Congresso Nacional instalou a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), que, após intensas investigações, apresentou um relatório conclusivo em outubro, sugerindo o indiciamento de 61 pessoas. Dentre os indiciados, destacam-se o ex-presidente Jair Bolsonaro e oito generais, incluindo quatro ex-ministros de seu governo. 

    O mês de setembro de 2023 marcou o início do julgamento das primeiras ações penais vinculadas à crise. Quatro réus foram condenados a penas que variam de 14 a 17 anos de prisão, por crimes como associação criminosa e abolição violenta do Estado Democrático de Direito.  Após um ano dos eventos, 2.170 pessoas foram presas, com a PGR denunciando 1.413 indivíduos por atos antidemocráticos. Até fevereiro de 2024, 30 pessoas foram condenadas, e outras 29 aguardam julgamento. As investigações prosseguem, sendo o maior desafio agora a identificação e a consequente punição dos autores intelectuais por trás dos atos que abalaram a frágil democracia brasileira. 

    Um ano depois, pode-se dizer que o Brasil se encontra em um complexo processo de reconstrução pós-crise democrática. A atuação efetiva dos três poderes, da sociedade e da imprensa durante o ano de 2023 foi crucial para fortalecer a frágil democracia nacional, mas a verdade é que a sociedade brasileira segue traumaticamente polarizada, conforme apontam diversas pesquisas de opinião. Parte considerável da população brasileira ainda flerta com a extrema direita e 11% dos eleitores de Jair Bolsonaro aprovam a intentona golpista, demonstra pesquisa da Quaest divulgada nesta semana. A participação de Bolsonaro na coordenação dos eventos golpistas gera divergências entre os entrevistados: 47% acreditam que ele exerceu alguma influência, enquanto 43% têm a opinião oposta. Em fevereiro do ano anterior, esses números eram, respectivamente, 51% (a maioria) e 38%. 

    Passados doze meses, no entanto, as respostas judiciais ainda não abarcaram completamente as ramificações da crise. Juristas renomados como o ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski destacam que a responsabilização incompleta pode acarretar consequências graves. Apesar dos esforços do Supremo Tribunal Federal (STF) em acelerar a responsabilização dos executores diretos dos ataques, permanece uma interrogação crucial sobre a justiça aos membros das Forças Armadas que estavam envolvidos, seja por ação ou omissão, assim como os autores intelectuais dos ataques - financiadores e instigadores. 

    O cenário é complexo e o 8 de janeiro de 2023 seguirá a nos desafiar enquanto sociedade cingida em busca de estabilidade democrática. A preocupação com a persistência do espectro do autoritarismo ressalta a importância de uma vigilância constante para salvaguardar a democracia, para tanto é fundamental o fortalecimento das instituições democráticas e a regulamentação das redes sociais, estabelecendo um arcabouço legal que promova a cidadania digital e imponha responsabilidades às plataformas. 

    Ainda hoje observa-se a livre propagação de manifestações golpistas nas redes sociais, sem qualquer filtro, resultando em um cenário de verdadeira “lei da selva” no ambiente virtual, como destacou o Advogado Geral da União Jorge Messias. Não há dúvidas de que o movimento de 8 de janeiro de 2023 foi organizado e amplificado por meio dessas redes, propagando inverdades e mobilizando um grande número de pessoas em Brasília e nos quartéis país afora. Sem filtros eficazes para coibir situações dessa natureza, a frágil democracia continuará ainda mais fragilizada. 

    Em última análise, a mensagem que ressoa é inquestionável: a sociedade brasileira deve internalizar profundamente a ameaça do autoritarismo e cultivar uma vigilância constante para salvaguardar a estabilidade democrática. Este desafio é premente, e a neutralização do extremismo de direita requer um compromisso coletivo, transcendentemente abrangente entre democratas de todas as vertentes ideológicas, desde liberais e socialistas até socialdemocratas e trabalhistas. A verdadeira construção de um país mais justo, equitativo e genuinamente democrático demanda, agora mais do que nunca, a coesão e a solidariedade inabaláveis de todos os defensores da democracia no Brasil. 

    Somente por meio de uma consistente e ampla frente democrática, podemos aspirar a superar as ameaças persistentes, transformando o golpismo em uma mera e fatídica nota na história, um lembrete perpétuo da importância vital de preservar nossa democracia e garantir que o fantasma do autoritarismo jamais nos assombre novamente.

domingo, 17 de dezembro de 2023

Entrevista ao Jornal Spasso de Itaúna-MG

Compartilho entrevista concedida ao jornalista Sílvio Bernardes, do Jornal Spasso, de Itaúna-MG, por ocasião do lançamento do livro Neoliberalismo Autoritário: a racionalidade que gerou o bolsonarismo. A entrevista foi pelo jornal publicada em 09 de dezembro de 2023 e também pode ser acessada por meio deste link: https://jornalspasso.com.br/sete-perguntas-para-o-professor-alisson-diego-batista-moraes-ex-diretor-do-saae/ 

Alisson Diego - João V. Moraes - 2023


O professor da USP, Vladimir Safatle, fez a seguinte dedicatória para o professor Álisson Diego Batista Moraes, que está lançando o livro “Neoliberalismo Autoritário: a racionalidade que gerou o bolsonarismo”, fruto de sua dissertação de mestrado, e, para ele, resume bem o que ele é: “Ao Alisson Diego, que tem um pé na teoria, um pé na prática e a cabeça no lugar certo”. Sobre o seu pé acadêmico-teórico: é advogado pela Universidade de Itaúna, gestor público, filósofo, pela UFMG, especialista em Gestão Empresarial, pela Fundação Getúlio Vargas, mestre em Ciências Sociais, pela PUC e, atualmente, faz o doutorado em Ética e Filosofia Política na Universidade Federal de Ouro Preto, UFOP. Além disso, é professor dos cursos de pós-graduação da PUC-Minas – IEC.

Já este é o seu o “pé na prática” como profissional e gestor público: foi vereador em Itaguara aos 19 anos de idade, prefeito eleito e reeleito de Itaguara (entre 2009 e 2016), Diretor da AMM (Associação Mineira de Municípios) e vice-presidente da Granbel (Associação dos Municípios da Grande BH), Diretor do SAAE e secretário de Planejamento e Governo de Itaúna entre 2017 e 2019; Diretor da Assemae (Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento) de 2017 a 2019. Secretário de Planejamento, Assessor de Projetos Estratégicos e Chefe de Gabinete da Prefeitura de Itabira entre 2021 e 2022. Atualmente, é secretário de Fazenda de Nova Lima, desde julho de 2022. Também teve um escritório de advocacia, mas atividades foram suspensas em virtude do impedimento pelo cargo que ocupa.


Neoliberalismo Autoritário. Editora Dialética (2023)

Em razão do lançamento do seu livro “Neoliberalismo Autoritário: a racionalidade que gerou o bolsonarismo”, o professor Álisson Diego é o convidado do Jornal S’PASSO para responder as Sete Perguntas dessa edição.

1. Qual é sua ligação com Itaúna, para além de ter sido membro do governo do prefeito Neider e de ter estudado na Universidade de Itaúna?

Tenho ligações muito fortes e históricas com Itaúna, muitos amigos construídos ao longo de anos, além de vigorosos vínculos familiares. Para se ter uma ideia, a Dona Dorica, que foi esposa do Coronel Arthur Contagem Vilaça, admirada em Itaúna e em Itaguara como benfeitora de nossa região, era irmã de meu tetravô, o Antônio Luiz, portanto era minha “tia-tetravó”. O Célio Soares Nogueira e o Milton Penido, que foram prefeitos da cidade, eram também parentes meus. Carlindo e Elói, irmãos de meu trisavô, moraram e constituíram as suas famílias em Itaúna. Ah, havia também a Dona Artumira, mãe da Dona Ivete, casada com o Dr. Guaracy, que possuía parentesco comigo. Há centenas de descendentes desses meus familiares em Itaúna. Todos parentes meus. Há diversos outros familiares, mas se eu disser aqui a lista fica muito extensa. Essas raízes histórico-familiares são muito significativas para mim. Dizem respeito à minha ancestralidade. Eu adorava conversar com o Doutor Guaracy sobre essas raízes. Ele tinha belíssimas histórias. Uma pena que não anotei todas e muitas se perderam.

Mas como ressaltado na sua própria pergunta, academicamente foi na Universidade de Itaúna onde cursei Direito e comecei a minha trajetória intelectual. Profissionalmente, a passagem pela prefeitura itaunense entre 2017 e 2019 também foi muito importante para a minha formação e para as reflexões que faço até hoje sobre a política, a sociedade brasileira e a gestão pública.

Então, posso dizer, com absoluta segurança, que Itaúna possui uma importância muito grande e está presente em vários momentos e perspectivas de minha vida.

2. O SAAE, autarquia que você dirigiu, é hoje uma das instituições mais importantes da cidade e uma das mais questionadas por causa da política de saneamento, do marco regulatório que preconiza 100% de atendimento à população e das cobranças por um serviço mais próximo da população. Conhecendo bem o SAAE Itaúna, esta autarquia está realmente na vanguarda do serviço público? O que lhe falta para que ela cumpra efetivamente com o seu papel?

O SAAE é um grande patrimônio do povo itaunense. Itaúna é privilegiada por ter o SAAE com a estrutura e a grandeza que possui. É uma autarquia que conta com um corpo técnico qualificado, com estruturas muito acima da média e com uma capacidade respeitável de investimentos. Quando assumimos o SAAE em 2017, a autarquia passava por um momento complicado de desestruturação e desvio de sua função mais importante: cuidar efetivamente do saneamento em seus pilares definidos pela legislação, sobretudo água, esgoto e resíduos (pode-se acrescentar a drenagem como quarto pilar, mas muitas autarquias não prestam este serviço, embora esteja definido em lei). O SAAE é para isso e ponto final. Não é para fazer praça, ajudar a prefeitura a fazer asfaltamentos etc. Isso é o básico de se entender. Quando deixamos a gestão do SAAE, a autarquia passou a ser superavitária e a cumprir com o seu propósito, a sua missão: fazer saneamento de qualidade. Samuel, que me sucedeu, foi também muito importante para essa estruturação realizada; e depois o Arley que também seguiu o caminho e realizou um grande trabalho.

Tenho muito orgulho do que fizemos no SAAE de Itaúna. Ainda há muito a fazer, mas o SAAE possui um histórico estimável e Itaúna está sim na vanguarda em matéria de saneamento. O SAAE não é apenas orgulho para os itaunenses, mas para o Brasil. Mas, claro, que pode e deve melhorar. Como gestor, jamais abro mão do conceito de “melhoria contínua”. Uma sugestão para aperfeiçoar a gestão da autarquia hoje? Investir pesadamente na eficientização dos processos internos, na governança estratégica e no compliance da autarquia – isso dará ainda mais protagonismo ao SAAE e garantirá sustentabilidade financeira e organizacional para o futuro, resultando em maior reconhecimento por parte da população.

3. Falando de sua dissertação de mestrado e da publicação do seu livro, lançado essa semana em Belo Horizonte, conte um pouco sobre sua abordagem e quando foi que ela se tornou objeto de estudo acadêmico.

Há alguns anos tenho observado e estudado a ascensão da extrema-direita no Brasil. Desde quando era prefeito, em 2013, com a irrupção das manifestações que tomaram conta da nação em junho daquele ano, comecei a ficar muito instigado a refletir sobre o que estávamos vivendo. Não era algo que se poderia considerar “normal”. Anos depois, decidi estudar ainda mais profundamente o papel da cultura política na formatação da sociedade e do estado brasileiros. A ideia inicial era tecer uma discussão da obra “As ideias fora do lugar” do sociólogo Roberto Schwarz e explorar a tradição iliberal do Brasil. Mas com o tempo, fui percebendo que a cultura política por si mesma não seria capaz de explicar a ascensão da extrema-direita nem no Brasil, nem no mundo. Ou seja, não era apenas porque o Brasil havia sido colonizado por Portugal e forjado por uma estrutura hierárquica rígida que persistia na atualidade um autoritarismo arraigado no tecido social e nas estruturas de poder. Havia outros fatores a serem considerados nesta quadra da história, neste primeiro quarto do século XXI. Dentre esses fatores, o principal deles, a meu ver, trata-se do neoliberalismo, que é mais que um sistema econômico, mas também possui uma dimensão política, social, cultural e até metafísica. Fui à fundo nessas temáticas e teci a correlação entre a tríade amalgâmica que sustenta a obra: neoliberalismo, autoritarismo e bolsonarismo.

4. As raízes do neoliberalismo no Brasil, tratadas em sua obra, estão num mesmo emaranhado do autoritarismo brasileiro? As mesmas fontes que alimentam um, dessedenta a outra?

O autoritarismo brasileiro é anterior ao neoliberalismo autoritário. Isso precisa ficar claro. A nossa estrutura social é marcadamente autoritária e violenta desde a sua gênese. O ponto central do livro é este: não se pode tratar da temática autoritária, hoje, sem mencionarmos as estruturas neoliberais. Ou seja, não dá para voltar ao século XVIII para explicar a totalidade da dimensão autoritária em nossos dias. Eu não ignoro o aspecto histórico, mas não é possível dizer que a cultura política e a intrincada herança colonial-escravagista são as únicas razões para a persistência autoritária na sociedade brasileira. Há, notadamente, uma estrutura histórica tanto da sociedade quanto do Estado brasileiro que impede o avanço das demandas sociais por maior participação política, por acesso a bens materiais, por equidade, por democratização, mas há um componente atual fundamental a ser considerado: a ambiência neoliberal.

O bolsonarismo, por exemplo, é um fenômeno que se relaciona muito mais com o neoliberalismo do que com a tradição autoritária brasileira. Posso dizer, de todo modo, que o neoliberalismo autoritário (que para mim é até uma expressão pleonástica porque o neoliberalismo é essencialmente antidemocrático) encontrou um terreno muito fértil em uma sociedade estruturalmente autoritária e violenta como a brasileira. Isso está na esteira do que defendem a Marilena Chaui, o Jessé Sousa, o Adam Przeworski, a Verónica Gago, dentre outros pensadores contemporâneos. Mas, claro, há uma imbricação entre o autoritarismo histórico e o autoritarismo neoliberal. A separação na obra é conceitual. O ponto é o que disse acima: não há neoliberalismo sem autoritarismo. Sua essência é antidemocrática. O pleonasmo no título é intencional justamente para reforçar o conceito. Neoliberalismo e autoritarismo são duas faces de uma mesma moeda: o capitalismo predatório contemporâneo.

5. E a extrema direita, também trada no livro, podemos dizer que no Brasil ela é sinônimo do bolsonarismo?

Sem dúvida alguma. A caricatura da extrema-direita no Brasil é o bolsonarismo. Havia muita discussão se seria possível considerar o bolsonarismo como um movimento sociopolítico, assim como o getulismo no Brasil dos anos 40, o chavismo na Venezuela, o trumpismo nos EUA, o peronismo na Argentina, o correísmo no Equador, dentre outros movimentos sociopolíticos personalistas reconhecidos. Eu defendo que sim, pois trata-se de um movimento com características muito próprias e há uma seção no livro especificamente dedicada a essa temática. O bolsonarismo, neste sentido, é um movimento de extrema-direita, em total alinhamento com uma configuração mundial.

Dentre essas características, podemos elencar algumas práticas de extremismo político: a retórica do ódio, a propagação do medo sob a esperança, as questões morais trazidas em forma de pânico, a preponderância do ressentimento acima de qualquer dimensão de solidariedade, a racionalidade mercadológica, a crença de que o estado é um mal (mas deve ser utilizado para financiar uns poucos), o ataque às instituições democráticas, a demonização dos adversários políticos e de qualquer voz que venha da oposição, além de uma completa abdicação da luta por justiça – esses são alguns dos fatores que me lembro aqui de cabeça, mas poderia elencar vários outros. É neste contexto que a agenda política se transforma apenas numa narrativa e não em um projeto de país. Essas são algumas das razões pelas quais o bolsonarismo representa uma tragédia incomparavelmente pior (neste quesito de projeto de nação) à ditadura 1964-1985.

6. Na sua opinião, para onde caminham o bolsonarismo e a própria extrema direita? As políticas sociais do governo federal e o fortalecimento de um projeto político democrático nos estados e no Congresso Nacional poderão frear a extrema direita no Brasil?

Essa é a grande questão. Não acredito que cientistas sociais, filósofos políticos, antropólogos, dentre outros devamos nos comprometer em traçar prognósticos. Ao contrário da medicina e áreas afins, o pensamento reflexivo não produz bons prognósticos, apesar de edificar belos diagnósticos. Isso me lembra, inclusive, uma clássica frase de Hegel: “A coruja de Minerva levanta voo ao cair do crepúsculo”, ou seja, o pensamento reflexivo parte de uma realidade dada, algo cingido no tempo.

Mas vou ousar aqui uma análise, depois da premissa acima. Penso, particularmente, que a extrema-direita veio para ficar. Sempre houve uma parcela da população com esses valores e que se escamoteava de alguma maneira. Bolsonaro surgiu e conseguiu capitanear este sentimento há tempos presente, mas escamoteado por uma parcela significativa da sociedade. O bolsonarismo não veio de Marte e somente teve êxitos eleitorais porque encontrou eco na sociedade brasileira.

Não acredito que o bolsonarismo arrefeça com o sucesso das políticas sociais do governo ou com a construção de uma grande concertação democrática ou uma Frente Ampla. O buraco é mais embaixo, como diz o ditado popular. Há um livro recentemente lançado pelo Felipe Nunes e o Thomas Traumann que mostram bem isso (o livro se chama: Biografia do Abismo, como a polarização divide famílias, desafia empresas e compromete o futuro do Brasil). O bolsonarismo, inclusive, tem tempo e potencial de se reinventar com alguém menos polêmico e mais envernizado, o que pode ser ainda mais perigoso para a ordem democrática. Mas o fato de termos um tecido social traumatizado e uma extrema-direita viva, não quer dizer que tenhamos de ficar com os braços cruzados. Ao contrário, é dever de todo democrata fazer alertas, advertir as pessoas e esclarecer os riscos que a sociedade brasileira corre.

7. Em Itaúna, como você sabe, há uma tendência considerável de alcance de poder pela direita, alimentada por um bolsonarismo formado por “cristãos conservadores” e jovens que “odeiam política”. As demais forças políticas terão espaço nessa nova onda? De que forma isso será possível?

Uma coisa que quero deixar claro: extrema-direita não é direita. A direita clássica, o liberalismo, nada tem que ver com o bolsonarismo. O liberalismo, por exemplo, é totalmente favorável às liberdades individuais e o moralismo bolsonarista é uma afronta a qualquer liberal. Do mesmo modo, o conservadorismo, que é uma corrente política totalmente alinhada com a defesa das instituições, não tem nada que ver com o bolsonarismo que, por sua vez, implode toda a institucionalidade.

O bolsonarismo, por tudo isso, faz uma espécie de apologia à ignorância, dinamita os conceitos, os princípios e se vale apenas de uma narrativa muito superficial, mas que atinge eficientemente a muitas pessoas por uma série de razões, algumas das quais exponho no livro.

A extrema-direita somente será vencida se a sociedade brasileira tiver capacidade de olhar para si mesma, refletir, fugir do discurso fácil do ódio à política. Esse discurso mesmo é de uma irracionalidade completa. Como pode alguém como Jair Bolsonaro, um deputado por décadas e acostumado a todas as velhas práticas políticas, cuja família inteira se serve das benesses do poder, se colocar como alguém antissistema? É a narrativa acima de qualquer racionalidade. Por isso digo que a razão quando vem à tona vence o bolsonarismo facilmente.

Dito isso, é importante que as forças políticas brasileiras apresentem soluções e demonstrem que nem todos que são contrários ao bolsonarismo são petistas ou lulistas. Isso é falacioso e apenas alimenta o discurso polarizador. É muito importante também que as pessoas saibam que entre o neoliberalismo autoritário (representado no Brasil pelo bolsonarismo) e o socialismo revolucionário, há várias outras possibilidades. Há a social-democracia, por exemplo, o trabalhismo, o nacional-desenvolvimentismo, o liberalismo social, o socialismo democrático, o comunitarismo, dentre outros. É falacioso dizer que apenas Bolsonaro e seus asseclas são capazes de vocalizar, por exemplo, as questões relacionadas ao conservadorismo no Brasil. Pelo contrário, como disse anteriormente, o bolsonarismo não é conservador na essência e tampouco liberal. O bolsonarismo é, em seu cerne, um movimento protofascista e autoritário.

Portanto, é possível e desejável que as parcelas da população de Itaúna e de outras cidades Brasil afora que se identificam com o bolsonarismo hoje, encontrem outros matizes políticos para se identificar. Isso, no entanto, não vai acontecer automaticamente. É fundamental que a direita democrática brasileira também se reorganize e tenha a capacidade de dialogar com amplos setores da sociedade que encontram no bolsonarismo a salvaguarda para os seus valores, como os evangélicos por exemplo.

De todo modo, sempre haverá um percentual considerável que se identificará com a extrema direita. Isso se dará no Brasil e em outros países do mundo, a própria Itália, a Hungria e a Polônia possuem uma extrema-direita muito capilarizada hoje.

A longo prazo, há apenas uma solução: uma educação libertadora e emancipadora de consciências. Num curto prazo, é importante que a institucionalidade funcione, que o Ministério Pública e o Judiciário coíbam os abusos e as práticas autoritárias e que os partidos políticos consigam dialogar com a sociedade, oferecendo soluções e defendendo a ordem democrática. O caminho não é fácil. Como pesquisador e intelectual, não prevejo que os anos vindouros sejam tranquilos. Por outro lado, como gestor e militante, sinto-me desafiado a fazer a minha parte e a trabalhar pela racionalidade e pela consciência das pessoas. É o que devemos fazer todos os democratas deste país.

Eu sei que a resposta está grande, mas preciso acrescentar mais uma coisa aqui: as cidades não podem cair na armadilha dessa polarização nacional. Por uma razão muito simples: a pauta de costumes, a questão econômica e outras temáticas que podem polarizar lá em cima não têm nada a ver com a realidade aqui em baixo, nos municípios. Para que existem vereadores, prefeito e vice? Para cuidarem da realidade local, investirem em escolas de qualidade, saúde básica e secundária eficientes, infraestrutura urbana e rural adequadas, zeladoria bem feita etc. Esse discurso nacionalizado é uma armadilha nas eleições de 2024. Espero que Itaúna e outras cidades não caiam nisso e saibam escolher bons gestores e não políticos retóricos. Se alguém quiser discutir pauta nacional nas eleições de 2024, que se candidate a deputado federal, senador ou presidente da República.

Muito obrigado ao Jornal S’PASSO pelo espaço. Um abraço a todas e todos os itaunenses. Tenho uma relação muito forte e de admiração para com a cidade.

PS: Para quem quiser adquirir o livro “Neoliberalismo Autoritário: a racionalidade que gerou o bolsonarismo”, basta procurar no Google e escolher a melhor oferta. Está à venda nos principais marketplaces e livrarias do país.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Lançamento de Neoliberalismo Autoritário repercute na imprensa mineira

 O novo livro ainda não foi lançado oficialmente, mas a repercussão já está acontecendo em destacados vários veículos de comunicação em Minas Gerais. Dentre os veículos de comunicação a repercutir o lançamento estão o Portal Minas 1, o Blog do PCO (Paulo César Oliveira), o Blog do Lindenberg, o Jornal Spasso e o Portal Sagarana.


Neoliberalismo Autoritário, novo livro de Alisson Diego.
Foto: Divulgação

"Neoliberalismo Autoritário: a racionalidade que gerou o bolsonarismo" será lançado na próxima sexta-feira (08/12) às 17h00 no Café com Letras, na Savassi em BH. A obra lança luzes sobre a racionalidade sociopolítica que contribuiu para o surgimento da extrema direita no país e trata o neoliberalismo não apenas em sua faceta econômica como também social, cultural e política. O autor explora a conexão entre o autoritarismo e o neoliberalismo, desafiando conceitos e desmistificando a tradição cultural e política como as únicas causas do "autoritarismo brasileiro" e busca compreender não apenas a racionalidade neoliberal, mas também a sua relação intrínseca com a essência do bolsonarismo. "Não ignoro a importância do culturalismo em nossa formação política; isso precisa ficar claro, mas não penso ser adequado tratar a hierarquização da sociedade, o imobilismo social e as tendências autoritárias como sendo apenas heranças históricas; há um componente fundamental na atualidade: a ambiência neoliberal", explica Alisson Diego.


A seguir alguns links sobre o lançamento do livro:

- https://minas1.com.br/posts/politica/ex-prefeito-alisson-diego-lanca-novo-livro-nesta-semana-em-bh

- https://blogdolindenberg.com.br/livro-explora-as-raizes-do-bolsonarismo-e-sua-correlacao-com-o-sistema-neoliberal-neoliberalismo-autoritario-a-racionalidade-que-gerou-o-bolsonarismo/

- https://blogdopco.com.br/fique-por-dentro/alisson-diego-lanca-o-livro-neoliberalismo-autoritario/

- https://www.sagarananoticias.com.br/post/ex-prefeito-alisson-diego-lan%C3%A7a-novo-livro-na-pr%C3%B3xima-semana-em-bh

- https://jornalspasso.com.br/alisson-diego-lanca-livro-em-belo-horizonte/






domingo, 24 de setembro de 2023

Entrevista ao Estadão

 Uma série de reportagens está sendo produzida por um dos maiores jornais do Brasil, o Estadão, abordando a situação do país e os desafios enfrentados pelo Brasil. Na matéria deste domingo, a segunda da referida série, o enfoque se dá nos municípios. 


Fui entrevistado pelo jornalista Daniel Weterman e mencionei a falta de planejamento público como um dos problemas estruturais das prefeituras brasileiras. 


A seguir o print com um trecho de minha entrevista e, abaixo, o link da matéria.

Segue link da matéria completa: Estadão


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Matéria é destaque na capa do website do Estadão em 24 de setembro de 2023:




segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Direito e Políticas Públicas: uma interface necessária *

* Alisson Diego Batista Moraes


** Artigo originalmente publicado no site Consultor Jurídico - Conjur, em 05 de agosto de 2023. Link para acesso ao artigo original: Conjur - Alisson Moraes


Durante os cinco anos de graduação em Direito, não tive a oportunidade de estudar, sequer superficialmente, a temática das políticas públicas e a sua interface com o universo jurídico. Nem ao menos me lembro de a expressão “políticas públicas” ter sido, em algum momento, abordada ao longo dos dez períodos de faculdade. Nesta terceira década do século XXI, muitos discentes já compreenderam que não é possível conceber, adequadamente, a missão do Direito na contemporaneidade sem, necessariamente, incluir as discussões conceituais acerca das políticas públicas e suas correlações seminais com o âmbito jurídico. 

    As faculdades de direito, mais notadamente as cátedras de Direito Administrativo e Direito Constitucional, ao omitirem essa temática, provocam um déficit formacional significativo nos futuros operadores do direito. Este breve artigo almeja instigar esse debate e despertar o interesse dos leitores do Conjur para esta relação, muito mais necessária e essencial do que se pode imaginar. Há cerca de um ano, tenho ministrado aulas na disciplina “Contexto Jurídico-Político e Gestão na Administração Pública Contemporânea” na pós-graduação lato sensu em Direito Administrativo da PUC-Minas. O curso se sustenta em três pilares: 1) a governança e a gestão, compreendidas como sistemas que visam ao alcance de objetivos previamente definidos, com a consequente eficientização da administração pública; 2) perspectivas sociopolíticas acerca dos desafios da democracia no Brasil e no mundo; e 3) o modo pelo qual o ordenamento jurídico brasileiro e, especialmente, o Direito Administrativo se vinculam aos outros dois pilares.


Banco de imagens - Pixbay / 2023.

    O conteúdo programático da disciplina traz uma unidade inteiramente dedicada à interface entre o Direito e as políticas públicas (abrangido no primeiro pilar explicitado no parágrafo anterior), apresentando autores clássicos do campo multidisciplinar das políticas públicas, a evolução dessa conceituação, desde a década de 1950, e algumas das discussões contemporâneas mais candentes sobre a interface entre essas duas áreas do conhecimento. 


    Compreender a temática exige examinar a diferenciação entre as políticas públicas e as políticas governamentais, a definição de problema público, os conceitos sobre as macrodiretrizes estratégicas – e sua subdivisão tática e operacional em programas, projetos e ações - inseridas na esfera do planejamento governamental, além de analisar o papel das legislações orçamentárias na consecução das políticas; bem como investigar, criticamente, a ambiência geratriz delas, na qual os interesses, as preferências e as ideias sobre as políticas públicas se materializam, impactando na condução política da sociedade. 

    Outro aspecto relevante a ser conhecido pelos operadores do direito diz respeito ao processo de elaboração de políticas públicas ou policy making process (também conhecido como Ciclo de Políticas Públicas). Trata-se de um esquema de visualização e interpretação que organiza a vida de uma política pública em fases sequenciais e interdependentes. Seu proponente precursor foi o cientista político estadunidense Harold D Lasswell no livro The Decision Process , posteriormente revisto, criticado e aprimorado por diversos autores até os dias atuais. Uma das formatações mais aceitas no Brasil considera que estas são as etapas do ciclo (SECHI, 2022): 1) Identificação do problema; 2) Formação da agenda; 3) Formulação de alternativas; 4) Tomada de decisão; 5) Implementação; 6) Avaliação; e 7) Extinção.

    Nota-se, desde a primeira etapa do ciclo de políticas públicas até a última, a indispensabilidade da atuação do operador do direito. Não apenas para forjar uma linguagem jurídica aos atos emanados pela Administração Pública (revestindo-os de legalidade) como também para a observância legal e constitucional do mérito das políticas públicas – a partir a identificação do problema público e o método desta identificação, até a extinção da política pública. A interface entre o Direito e as Políticas Públicas, portanto, precisa ser vista, holisticamente, tendo como fundamento o próprio cumprimento dos desígnios constitucionais: 


Ao constitucionalizar fins, objetos e projetos para a sociedade por intermédio das políticas públicas, optou-se por um Estado não apenas regulador e garantidor da coesão social, mas também protetor. Essa percepção condiciona certos posicionamentos no âmbito das políticas públicas, determinando quais programas de ação governamental poderão ser iniciados, interrompidos, alterados ou prosseguidos. (Valle, 2009, apud Ximenes, Julia Maurmann, 2021). 


    Como um campo relativamente novo, as relações entre o direito e as políticas públicas no Brasil foram exploradas, visionariamente, na década de 1990, por Maria Paula Dallari Bucci ; ainda que o foco da professora tenha sido majoritariamente o direito administrativo e não amplamente o direito concebido holisticamente. Desde então, o número de publicações sobre a temática correlacionada tem expandido significativamente; reunindo, atualmente, livros, teses de doutorado, dissertações de mestrado, além de dezenas de artigos científicos.

    Há de se ressaltar, contemporaneamente, o protagonismo do Grupo Direito e Políticas Públicas (GDPP) da USP, responsável por promover um debate acadêmico fundamental sobre o papel do direito na implementação das políticas públicas, objetivando examiná-las sob a ótica jurídica para torná-las mais efetivas e democráticas, na esteira do mister constitucional. O GDPP foi criado pela Faculdade de Direito da USP em 2007, e tem contribuído ativamente para esse incipiente diálogo no Brasil, possibilitando o aclaramento das relações entre o arcabouço jurídico e a atuação dos profissionais do direito nas políticas públicas. 

    Numa interpretação exegética extensiva (e correta, a nosso ver) do artigo 133 da Constituição Federal, o advogado precisa ser compreendido como um profissional indispensável à manutenção e ao aprimoramento da própria ordem democrática. Assim, o operador do direito (para além mesmo do próprio advogado) deve, imprescindivelmente, não apenas conhecer sobre as políticas públicas, mas também atuar no sentido de seu aperfeiçoamento constante – o que, por si só, revela-se conditio sine qua non para a evolução do Estado Democrático de Direito, uma conceituação tão utópica quanto necessária para a realização do mister constitucional de se construir, no Brasil, uma sociedade livre, justa e solidária, conforme dispõe o legislador constituinte no artigo 3º, I da Carta Magna.


REFERÊNCIAS

BUCCI, Maria Paula Dallari. Políticas públicas e direito administrativo. Brasília a. 34 n. 133 jan./mar. 1997. 

BRASIL. [Constituição (1988)]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm.  Artigos 3º, I e 133. 

LASSWELL, Harold. The Decision Process: Seven Categories of Functional Analysis. College Park: University of Maryland, 1956. 

SECCHI, Leonardo. Políticas públicas: conceitos, esquemas de análise, casos práticos. 2. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2022. Valle, Vanice Regina Lírio do. Políticas públicas, direitos fundamentais e controle judicial. Belo Horizonte: Fórum, 2009. 

XIMENES, Julia Maurmann. Direito e políticas públicas / Julia Maurmann Ximenes. – Brasília: Enap, 2021.

quinta-feira, 20 de julho de 2023

Entrevista ao Jornal Estado de Minas - Reforma Tributária

 

A reforma tributária tem sido uma das temáticas políticas e econômicas mais relevantes das últimas semanas e talvez seja a maior aposta do Governo Federal neste ano. Conversei com a jornalista Alessandra Mello, do Jornal Estado de Minas, no dia 18 de julho de 2023.

Seguem trechos que destacam minha preocupação enquanto secretário de Fazenda de Nova Lima-MG. 

Ressalto que, apesar das preocupações, sou plenamente favorável à aludida reforma, mas espero aperfeiçoamentos no texto da projeto nesta nova fase de apreciação no Senado Federal.







Link da matéria - Estado de Minas 18-07


segunda-feira, 3 de julho de 2023

Breves reflexões sobre a morte, a vida e a dignidade humana

Compartilho texto que escrevi a pedido do professor Marco Túlio de Freitas Ribeiro para uma apostila feita para profissionais de saúde que trabalham com cuidados paliativos:


Breves reflexões sobre a morte, a vida e a dignidade humana

Alisson Diego


"A vida enganou a vida, o homem enganou o homem. Por isso, agora, organizei meu sofrimento ao sofrimento De todos: se multipliquei a minha dor, Também multipliquei a minha esperança". 

Versos de “Poema Didático” de Paulo Mendes Campos (1922-1991) 


A convite do professor Marco Túlio de Freitas Ribeiro, escrevo uma breve introdução à esta publicação técnica com o objetivo de oferecer reflexões sobre a finitude da vida a partir de algumas concepções filosóficas, sabendo-se que, preliminarmente, interrogar-se a todo instante sobre o sentido e a finalidade da existência, diante de sua inerente efemeridade, é a mais humana das reflexões. 

A temática da finitude da vida é recorrente em toda a história do pensamento humano. Trata-se de um tema habitual da filosofia, e de diversas áreas do conhecimento e da expressividade humana: na religiosidade, na literatura, na psicologia, na sociologia, na música, na arte, na poesia e, claro, nas disciplinas relacionadas à saúde. 

Dos pré-socráticos até a filosofia contemporânea, muitos pensadores têm se dedicado a reflexões das mais variadas sobre a finitude da vida, temática tão amedrontadora quanto instigante. Sócrates categoricamente chegou a definir a filosofia como uma "preparação para a morte". Centenas de anos depois, o filósofo alemão Schopenhauer (1788-1860) teorizou enfaticamente sobre o tema e afirmou que "a morte é a musa da filosofia". 

Numa das mais clássicas abordagens sobre a temática, Platão, no diálogo Fédon, dedicado ao tema da imortalidade da alma, traça um enredo sobre os últimos momentos da vida de Sócrates, instantes antes de ingerir a cicuta, cumprindo a pena capital a que fora imposto pelas autoridades atenienses. No diálogo, explicita-se que a vida vale a pena se valorosa, e realça que a existência indigna e desprovida de valores seria pior do que a própria morte. No diálogo em questão, o filósofo também argumenta que a morte é apenas mais uma etapa a se seguir e essa compreensão generosa da finitude somente se daria mediante a experiência filosófica, a única capaz de dar conta da totalidade da realidade. 

Santo Agostinho, principal expoente da Patrística, concebe o ser humano em si mesmo como um problema filosófico e transpõe o sentido do existir humano na essência dos planos de Deus, sendo a vida um dom divino. O homem sem Deus seria miserável e apenas reencontrando-se com o divino é que a vida se plenificaria de sentido. Em contraste com o pensamento agostiniano, séculos mais tarde, Sartre defenderá que o homem não possui qualquer uma essência que o precede, isto é, não pode ser definível ou determinável. Como um ser que nunca “é”, o homem deve, por ele mesmo, construir seu próprio sentido para a vida. Assim: 

“a morte jamais é aquilo que dá à vida seu sentido: pelo contrário, é aquilo que, por princípio, suprime da vida toda significação. Se temos de morrer, nossa vida carece de sentido, porque seus problemas não recebem qualquer solução e a própria significação dos problemas permanece indeterminada” (SARTRE, 1997, p. 661). 

 

Sendo a vida um dom divino ou uma livre condicionante para a construção humana, o fato é que se torna impossível abordar a questão da finitude da vida sem levar em consideração o longo e complexo histórico do pensamento filosófico sobre o tema. Algumas dessas concepções são aqui diametralmente mencionadas apenas para demonstrar a complexidade da temática sobre a qual ousa-se brevemente refletir neste pequeno texto. 

Ainda que possua acepções por vezes generosas, a temática da finitude tem sido comumente circundada por sentimentos como o medo, a angústia e o escapismo. Por isso, ao se falar de morte, é inevitável se falar também sobre o tabu que a permeia historicamente, algo muito reforçado na sociedade atual, ao se privilegiar o imediato, o material e o prazer em detrimento da contemplatividade e da transcendência nas experienciações do viver. Vive-se, hoje, como se a vida não tivesse fim ou como se a morte fosse uma espécie de mácula e não uma consequência natural, consoladora e inevitável do viver. 

A morte tem sido tratada como um tabu até mesmo por muitos daqueles que ousam refletir sobre ela. Costumeiramente, falamos da morte como se fosse um fato completamente alheio a nós, isto é, mencionamos a morte tão somente de modo abstrato; quase sempre falamos da morte do outro, mas quase nunca da nossa própria morte. Não por acaso, os cemitérios da contemporaneidade não podem ser vistos pela comunidade. Sob muros altos ou escamoteados em vastos campos verdes, eles ficam, em nossos tempos, cada vez mais à margem das regiões centrais, numa tentativa ingênua de esconder a única certeza de nosso destino. 

Neste sentido é que o escritor e filósofo espanhol, catedrático de Ética na Universidade do País Basco, Fernando Savater, classifica como “espantosa” a nossa reação quando tomamos consciência da certeza de nossa própria finitude (a morte do eu). 

Pode-se dizer que há três interpretações na compreensão da morte: 

I) considerá-la como o início de um ciclo de vida (crença na reencarnação ou na vida incorpórea, comum em vários dogmas religiosos);

II) percebê-la como o fim de um ciclo de vida (a cessação de todos os sofrimentos e o descanso eterno, sem perspectivas de continuidade de uma vida pela alma); 

III) tomá-la como uma possibilidade existencial (diferentemente das duas concepções acima, a possibilidade mostra o destino comum, presente na vida a qualquer tempo). 


Em nenhuma das três concepções, há o componente da certeza fática e/ou mesmo o da consolação, capazes de amainar as dores e o sofrimento da finitude. 

"Existirmos, a que será que se destina?", pergunta retoricamente o cancioneiro Caetano Veloso na célebre canção “Cajuína”, um forró inspirado em Torquato Neto, um talentosíssimo poeta piauiense que deixou a vida aos 28 anos de idade, abruptamente. Se a vida pode ser interrompida a qualquer momento, qual seria, então, o sentido do viver? 

Apraz-me a visão de Epicuro (341 a.C. – 270 a.C.) sobre a morte. Diz o filósofo: “o sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não-viver não é um mal”. 

Viver é, antes de tudo, uma imensa oportunidade de intervir no mundo e melhorá-lo; coexistir num planeta carente de significação e afeto. Portanto, pensar na morte pode nos fazer viver melhor, com objetivos mais claros, consciência mais ampla e autenticidade. Essa reflexão vale para que o ser humano possa reavaliar, constantemente, o rumo que dá à própria existência, auxiliando na identificação dos erros cometidos, sobretudo quando se pensa no relacionamento que se constrói com as pessoas realmente importantes para a nossa vida. 

Pensar em nosso fim nos concede uma raríssima oportunidade de mudar o que está “errado” enquanto ainda há tempo. Essa deveria ser uma reflexão diária, e não algo angustiante e doloroso. É uma rara oportunidade de fazer valer a vida até o fim. 

Rubem Alves, esse grande pensador brasileiro que tinha o dom de escrever acerca de temáticas profundas com uma simplicidade própria dos grandes gênios, teceu uma reflexão muitíssimo tocante, numa crônica formidável - publicada em 2003, quando o filósofo contava com 70 anos de idade – a qual recomendo enfaticamente a todos aqueles que se dispõem a pensar sobre a morte: 

“Dizem as escrituras sagradas: ‘Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer’. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelângelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo”. (ALVES, Rubem. Sobre a morte e o morrer. Folha de São Paulo, São Paulo, Caderno Sinapse. 12 de outubro de 2003.) 


Ante o percurso feito até aqui, insta interrogar em tons de fechamento: como os cuidados paliativos se relacionam com as cosmovisões filosóficas sobre a vida e a sua imponderável finitude? Os cuidados paliativos relacionam-se a um momento fundamental da experiência vital do ser humano, uma vez que a humanização dos momentos finais da existência representa um caminho mais amplo que a evitação da dor e a partida suave. Os cuidados paliativos são também oportunidades raras de emprestar sentido à vida, em toda a sua dimensão de precariedade e beleza. 

A questão está intrinsecamente vinculada também ao modelo de sociedade que se está a erigir e a consequente sociabilidade ante a qual nos conectamos. Uma sociedade essencialmente ancorada em valores humanísticos, desde a concepção da vida até os instantes finais da existência, não deve prescindir do amor e da solidariedade. Isso representa, ainda, a oportunidade de insculpir uma das mais valorosas qualidades morais: a dignidade – tanto para os que cuidam, quanto para quem está sendo cuidado. Uma vida indigna nunca poderá ser plena e autêntica. Ainda que essa dignidade venha apenas no fim, isso pode representar uma verdadeira redenção para o existir humano, emanando louváveis expressões de esperança, afeto e conforto nas últimas lufadas de vida, tornando-nos mais humanos, plenos e conscientes. 


REFERÊNCIAS 


ALVES, Rubem. Sobre a morte e o morrer. Folha de São Paulo, São Paulo, Caderno Sinapse. 12 de outubro de 2003. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1210200309.htm. Acesso em 01/07/2023. 

CAMPOS, Paulo Mendes. Poesia. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2023. 

SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica. Trad. Paulo Perdigão. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. 

SAVATER, F. As perguntas da vida. São Paulo, SP: Martins Fontes, 2001.

sábado, 3 de junho de 2023

Itabira: um olhar sobre a ambiência política (Parte 2)

* Texto publicado na Coluna Magma, do site Sagarana Notícias em maio de 2023 - Link:  Itabira texto 2


“Calo-me, espero, decifro. / As coisas talvez melhorem. São tão fortes as coisas! / Mas eu não sou as coisas e me revolto. / Tenho palavras em mim buscando canal, / são roucas e duras, / irritadas, enérgicas, / comprimidas há tanto tempo, / perderam o sentido, apenas querem explodir” 

(Versos de “Nosso Tempo”, poema de Carlos Drummond de Andrade publicado em 1940, na antologia Sentimento do Mundo. O poema foi escrito no final da década de 1930, durante a Segunda Guerra Mundial) 


Alisson Diego em meados de 2021 no térreo da Prefeitura de Itabira.
Créditos: Filipe Augusto.

Dando sequência ao texto anterior, no qual abordei um pouco de meu olhar a respeito da gestão municipal em Itabira, após 15 meses de vivência na cidade, nesta coluna explorarei, sem quaisquer pretensões acadêmicas (se não, o faria numa revista científica e não numa coluna preponderantemente literária e livre das amarras metodológicas), algumas faces da ambiência política hodierna na terra de Drummond. 

No primeiro texto, compartilhei um pouco da minha visão sobre alguns dos aspectos administrativos gerais do município: a estrutura da gestão, os instrumentos de planejamento público existentes, o histórico recente e elenquei um desafio contemporâneo. Neste artigo, o objetivo é abordar, sem adentrar em minudências, as relações sociais e políticas a partir da nova gestão que se inaugura em Itabira em janeiro de 2021. Como é o ambiente político itabirano? O que se pode constatar da política municipal após pouco mais de um ano de vivências? São duas das perguntas a serem respondidas pelo tecnocrata-literato-pensador. 

Um dos primeiros aspectos a chamar a atenção na gestão atual de Itabira é o próprio prefeito, Marco Antônio Lage. Não se trata de um político caricato; não é, notadamente, um neófito no ambiente político em busca de holofotes e poder – e isso é raro. Basta ler a sua biografia para perceber que se trata de um homem realizado profissionalmente e que ingressou na política porque desejava oferecer aos seus concidadãos a larga experiência à frente da área de comunicação de uma das maiores empresas multinacionais instaladas no Brasil. 

A maioria dos políticos interioranos pensa apenas em reeleições, relegando a segundo ou terceiro planos um planejamento consistente e efetivo de médio e longo prazos para as cidades. Marco Antônio, desde o início de sua gestão, pensou diferente e decidiu projetar Itabira para um novo tempo. Não possuía um projeto de poder para perpetuar seu recém-criado grupo político na máquina pública. Almejava, e isso estava claro, deixar um legado político e administrativo para a sua cidade, diversificando a economia, diminuindo a dependência econômica, financeira e orçamentária da Vale e estabelecendo um novo patamar de qualidade de vida para a população. Algo louvável na política brasileira, movida majoritariamente por interesses próprios, travestidos das mais nobres preocupações coletivas. 


Foto da sede da Prefeitura de Itabira. Créditos: Assessoria de  Comunicação da PMI 


Além desse apontamento, isto é, um chefe do Executivo municipal convictamente interessado em mudar estruturas e destituído de interesses personalistas, outros três aspectos podem ser destacados ao se analisar a ambiência política itabirana – um claramente local e os outros dois notadamente caracterizadores da política nacional – elementos um tanto complexos e que demonstram o tamanho do desafio que é navegar nas turvas águas da política. São eles: 1) a tensão entre Executivo e Legislativo; 2) o relacionamento complexo com a Vale S.A.; 3) o papel da mídia local nas articulações políticas. 

O primeiro ponto é perceptível e, de acordo com fontes que ouvi na cidade, a relação entre Executivo e Legislativo tem sido um dos grandes desafios do município ao longo das décadas. O clima de adversidade política, muitas das vezes, ultrapassa o limite do razoável e a crítica saudável e necessária dá lugar a um relacionamento deletério para a democracia, uma vez que dinamita quaisquer possibilidades de um diálogo emancipador visando aos interesses da cidade acima de nuanças partidárias e/ou personalistas. 

No interior, sempre ouvi o dito popular: “quando um não quer, dois não brigam”. É possível amenizar o ambiente hostil quando um dos lados propõe a pacificação. Todavia, quando um dos lados não quer fazer as pazes, o clima nunca será totalmente ameno. No caso de Itabira, é perceptível essa hostilidade desmedida que, em parte, traduz um pouco do sentimento do que vem ocorrendo com o Brasil desde o impeachment infamemente fabricado contra a presidenta Dilma Rousseff: Legislativo cada vez mais fortalecido e que tenta impor as suas vontades (algumas, de fato, inseridas no escopo da representação popular, mas outras indizivelmente desviadas da melhor finalidade republicana, ética e democrática) a qualquer custo a um Executivo cada vez mais enfraquecido e dependente de maiorias parlamentares. 

Nesse sentido, há de se destacar um componente nitidamente itabirano: a não tradição em reeleger prefeitos. Isso denota um elemento importante porque a Câmara Municipal pode projetar nomes para almejar o Executivo. Assim, é preciso “bater” para aparecer. O único chefe do executivo reeleito em mais de duas décadas foi João Izael (2005-2012). Agrava esse contexto e a dificuldade do diálogo interpoderes se potencializa com alguns desacertos na condução política – o que é absolutamente normal em se tratando de governos novos. 

Acrescente-se que todos os governos (nas três esferas da federação) possuem seus desacertos e as escolhas (sobretudo do primeiro escalão) nem sempre são as mais adequadas, algo que só pode ser constatado ao longo do caminho. Afinal de contas, ninguém tem bola de cristal. O importante, nesse caso, é ter a capacidade de fazer a correção de rotas. Isso também foi e tem sido feito em Itabira. O prefeito, nos momentos em que necessitou, fez alterações necessárias, inclusive com base nas entregas ou “não entregas” e a aderência ao propósito do governo. 

O segundo ponto observado no que concerne à política local diz respeito à Vale S.A., mencionada também no primeiro artigo, enfocando a vampirização provocada pela monocultura mineral. Se no primeiro texto a questão se referia ao aspecto administrativo da dependência econômica e financeira da mineradora e à instabilidade estrutural que isso causa, já neste artigo a questão é a abordagem política. A Vale é responsável por pautar boa parte do debate político itabirano. A companhia não possui (ou finge não compreender) a verdadeira dimensão de sua importância para o contexto municipal. Ao invés de induzir grandes projetos de desenvolvimento, de modo a reduzir a sua dependência, insiste em um discurso cooperativo, mas que, na prática, não tem sido capaz de alterar substancialmente a realidade econômica do município. Itabira deve muito à Vale (seu crescimento se ancorou, desde os anos 40, na atividade mineradora) e isso todos sabem, mas a Vale deve TUDO a Itabira porque sem as riquezas minerais (o berço da exploração de larga escala no Brasil), sequer existiria essa multinacional. Ainda há tempo de corrigir essa situação, desde que a Vale saia da narrativa e auxilie, de forma efetiva, o munícipio numa real transformação/diversificação de sua matriz econômica. 

Por fim, vale mencionar a mídia local como terceiro aspecto da ambiência política itabirana. Como ocorre em quase todas as cidades que conheci de perto, Itabira possui uma mídia bastante ativa. Parte dela se comporta como porta-voz de interesses notadamente privados, mas que, travestidos de interesse público, confundem e muito os cidadãos. Ressalte-se que há na cidade jornais sérios e jornalistas responsáveis, mas uma minoria barulhenta, flagrantemente financiada por ambições escusas, consegue tumultuar o ambiente político e confundir parte da população, impondo temáticas à agenda pública. 

Para não parecer um analista metódico e insensível, preciso dizer algo para terminar: Itabira conquistou o meu coração. Senti uma mineiridade candente ali, uma identificação poética, humana, solidária. Fui muito bem recebido, profissional e afetivamente, e isso não será esquecido nunca. 

Eu sei que é meio clichê a frase de Antoine de Saint-Exupéry na imorredoura e genial obra "O Pequeno Príncipe", mas ela é a que melhor ilustra a minha relação com a Pedra que Brilha: “Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé” (Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas). Itabira me cativou e eu, de certo modo, cativei alguns bons amigos na cidade. Minha relação, pois, com a terra do minério não acabou com o fim de meu ciclo profissional. Eu continuo daqui, com um pouco de ferro nas almas, afetivamente responsável e vigilante pela cidade que, afinal, é também o berço do meu poeta predileto nesta e noutras vidas. Eu simplesmente não quereria ter nascido num mundo onde não existissem os versos de Drummond. E termino com alguns deles sobre a sua/nossa cidade:


“A vontade de amar, que me paralisa o trabalho, 
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizonte 
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte, 
é doce herança itabirana.”